Nova batalha
Trump ameaça intervir no Irã, quintal da Rússia
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Uma semana após a operação militar dos Estados Unidos que culminou no sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro — gesto interpretado por analistas como uma demonstração de força no entorno imediato dos aliados de Moscou —, Donald Trump voltou a elevar o tom contra o Irã, no sábado, 10. “O Irã anseia por liberdade como talvez nunca antes. Os Estados Unidos estão prontos para ajudar!”, escreveu o presidente americano em sua plataforma Truth Social.
A retórica, longe de ser isolada, acende um sinal de alerta em Moscou. Teerã integra, ao lado da Rússia, um eixo estratégico que se estende do Oriente Médio ao Cáucaso e à Ásia Central. Qualquer tentativa de intervenção direta ou indireta dos EUA no Irã é vista pelo Kremlin não apenas como ingerência regional, mas como avanço hostil sobre seu espaço de influência e segurança.
No terreno, o regime iraniano respondeu com endurecimento. A Guarda Revolucionária — pilar ideológico e militar do sistema — classificou os manifestantes como terroristas e afirmou que “preservar as conquistas da Revolução Islâmica e garantir a sobrevivência do regime constituem uma linha vermelha”. Ao mesmo tempo, um bloqueio quase total de comunicações dificulta a verificação independente dos fatos. Segundo a ONG NetBlocks, os iranianos estão sem acesso à internet há pelo menos 72 horas, após decisão das autoridades.
Apesar da repressão, protestos voltaram a ser registrados na noite de sábado em Teerã, Mashhad, Tabriz e Qom. Vídeos divulgados pelo blogueiro Vahid Online, via Telegram, mostram multidões enfrentando forças de segurança em diferentes regiões do país.
As manifestações ganharam novo impulso após declarações de Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979 e figura central da oposição no exílio. Em mensagem publicada na rede X, ele conclamou trabalhadores de setores estratégicos — transporte, petróleo, gás e energia — a iniciarem uma greve nacional. “Nosso objetivo não é mais apenas protestar, mas nos prepararmos para conquistar e defender os centros das cidades”, afirmou, incentivando a ocupação do espaço público com símbolos nacionais.
Imagens divulgadas pela Associated Press mostram manifestantes mascarados empunhando retratos de Reza Pahlavi em Teerã. Na noite de sábado, moradores do bairro de Saadatabad entoaram slogans como “Morte a Khamenei”, segundo a Reuters. Canais persas sediados no exterior exibiram cenas semelhantes em Mashhad, Tabriz e na cidade sagrada de Qom. Em Hamadan, vídeos mostram uma bandeira iraniana da era do xá sendo erguida em meio a fogueiras e danças, com gritos pela restauração da dinastia deposta.
Desde o início dos protestos, em 28 de dezembro, ao menos 51 manifestantes — incluindo nove crianças — foram mortos, segundo a organização Iran Human Rights, sediada na Noruega. A ONG divulgou imagens que indicariam corpos de manifestantes empilhados em um hospital de Teerã. Médicos relatam colapso nos sistemas de saúde das principais cidades. À BBC Persian, o médico e ativista Hamid Hematpour descreveu um cenário de “condições extremamente críticas”, com feridos por disparos direcionados à cabeça, pescoço e olhos.
É nesse contexto que Washington volta a ameaçar. Na sexta-feira, Trump advertiu Teerã: “É melhor vocês não começarem a atirar, ou nós também começaremos”. Os Estados Unidos já haviam atacado instalações nucleares iranianas em junho de 2025, ao lado de Israel, em um conflito breve, mas de alto risco regional.
Segundo o Wall Street Journal, o governo americano discute cenários para novos ataques militares ao Irã, incluindo alvos militares estratégicos. Embora não haja consenso interno, a simples consideração dessas opções é suficiente para tensionar o equilíbrio global. Para Moscou, uma ofensiva americana contra Teerã equivaleria a abrir mais uma frente de confronto indireto, somando-se à pressão no Leste Europeu e à instabilidade na América Latina, com a Venezuela no centro.
Declarações como as do senador republicano Lindsey Graham — que afirmou que o “longo pesadelo” do povo iraniano estaria “quase no fim” — reforçam a percepção de que parte da elite política americana vê nos protestos uma oportunidade de mudança de regime. Já a Nobel da Paz Shirin Ebadi alertou para o risco de um “massacre sob a cobertura de um apagão total”.
Capitais ocidentais condenaram a repressão iraniana, e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, expressou apoio aos manifestantes. Ainda assim, cresce a preocupação de que uma escalada liderada por Washington ultrapasse o discurso humanitário e se transforme em mais um movimento de força em áreas sensíveis à Rússia — com potencial para ampliar um conflito já difuso e empurrar o mundo para uma nova e perigosa zona de instabilidade global.
Veja o vídeo
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