Encruados
Tudo começou num botequim em Niterói
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Eles estavam com uma transa encruada.
Tudo começou num botequim em Niterói. Renato e Laura eram da mesma turma, amigos de copo, batiam ponto ali. Ele, 23 anos, estava recém-formado em Direito; ela, 20 anos, cursava Sociologia na UFF. Era uma morena linda, na flor dos hormônios, de sorriso provocante e sensual e um corpício capaz de enlouquecer qualquer vivente. Não se sabe como, pintou uma viagem de ônibus pra Salvador, os dois toparam ir. Não se sabe como, às vésperas do embarque, começaram a se pegar.
A viagem foi uma delícia, os dois sentados juntos, um casaco estrategicamente colocado no colo, escondendo dedinhos ocupados. Mas nem só de toques vive um casal recém-formado, e os dois estavam loucos para ir pra cama. Só que não deu, ficaram em dormitórios coletivos em Salvador. Houve mais coisas, claro, que só aumentaram o desejo de Renato e Laura. Mas trepada, não.
Certa noite, todos foram a uma roda de samba. Lá pelas tantas, Laura levantou-se e entrou na dança, mexendo os quadris deliciosamente, com um sorriso lindo e provocante. Os baianos babaram e puxaram no ato, “Se essa mulher fosse minha eu tirava do samba, já já/Dava uma surra nela que ela gritava chega”.
Renato não tirou Laura do samba, e muito menos deu uma surra nela. Ficou emburrado e respondeu com monossílabos às tentativas de conversa da moça. Depois de algum tempo, dando de ombros, ela desistiu. A relação, que não era nada sólida, desandou. Afastaram-se tão logo voltaram a Niterói.
O tempo é uma pantera sempre faminta. Renato foi morar em outro estado, Laura casou, ele também, mais tarde divorciaram-se. Seguiram caminhos diferentes, sem contato – até se reencontrarem no Facebook, mais de 40 anos depois. Fizeram/reataram amizade, conversaram, brincaram, flertaram de leve, ele foi vê-la em Niterói – e a transa afinal aconteceu. Nenhuma maravilha, o de sempre ao molho, que o fogo da libido de um casal de mais de 60 anos não queima tanto assim – mas o indispensável, o necessário para desencruar. E então Laura propôs:
– Rê, vamos pra Salvador? Foi lá que tudo começou…
Não era verdade, começara na praia de Icaraí, na mesa de mármore de um botequim, mas Renato não a corrigiu.
– Vamos sim. Amanhã mesmo. Só tenho que avisar minha filha.
– E eu aviso meu filho.
Nada de ônibus universitários dessa vez. Foram de avião, novamente um casaco estrategicamente colocado no colo para esconder a ação de dedinhos ocupados. À noite, foram parar numa roda de samba.
Lá pelas tantas, meio bebinha, Laura levantou-se, os olhos brilhando, e entrou na dança. Talvez fosse influência da bebida, ou da magia de Salvador, ou das vibrações de Oxum e de uma pomba-gira poderosa, mas, aos olhos de Renato, ela pareceu rejuvenescer, com a mesma expressão provocante e sensual de sua juventude. Os sambistas sorriram, aprovadores, e puxaram o trecho do partido alto, “Se essa mulher fosse minha eu tirava do samba, já já”.
Renato levantou-se também, mas não para tirar Laura do samba. Batendo palmas no ritmo, entrou na roda e improvisou, “Se essa mulher fosse minha eu levava pro samba, já, já/ Batia palmas pra ela pra ver ela brilhá”.
Os baianos adoraram, cantaram a letra modificada, brindaram ao casal, ofereceram doses generosas de cachaça. Renato havia parado de beber fazia tempo, mas engoliu sem fazer caretas, não ia causar desfeita. E os dois ficaram no samba. Laura flertou escandalosamente com moços com idade para ser seus netos, Renato fez o mesmo com lindas baianinhas.
Mais tarde, de volta ao hotel, totalmente relaxados, os dois transaram. E talvez pela influência da bebida, ou da magia de Salvador, ou da noite deliciosa, ou das vibrações de Oxum e de uma pomba-gira poderosa, somadas às de Xangô e de um exu porreta, foi algo inesquecível.