Curta nossa página


Adeus, conterrâneo

Turiba troca o Beirute por pedaço do Paraíso

Publicado

Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Reprodução das Redes Sociais

A cada dia, quando mais a idade avança, descubro que há amigos que partem e aqueles que, mesmo depois da partida, continuam sentados à nossa frente, como se a morte fosse apenas um pequeno atraso para o próximo encontro. Luis Turiba era uma dessas figuras.

O poeta e jornalista morreu nesta quarta-feira, 26, em Salvador, aos 76 anos. A notícia chegou sem pedir licença, apenas chocando. Entrou pela porta, puxou uma cadeira e se acomodou diante de mim. De repente, o silêncio começou a falar mais alto do que todas as palavras que Turiba escreveu durante uma vida inteira.

Conterrâneo pernambucano, onde nasceu em 1950, Turiba chegou a Brasília em 1978. Talvez imaginasse que estivesse apenas mudando de cidade, mas não sabia – ou talvez soubesse, porque poetas costumam enxergar um pouco além da esquina -, que Brasília acabaria entrando definitivamente em sua biografia. E ele, na biografia de Brasília.

A cidade o adotou de tal maneira que, anos depois, lhe concedeu o título de Cidadão Brasiliense. Uma formalidade bonita para reconhecer aquilo que as ruas, os bares, os jornalistas, os escritores, os músicos e os amigos já sabiam havia muito tempo. Algo como dizer que Turiba era de Brasília porque Brasília também era dele.

Mas não quero falar apenas do jornalista, do escritor ou do homem reconhecido pelos serviços prestados à cultura da cidade. Quero falar do amigo, porque os títulos ficam nos currículos, enquanto os livros permanecem nas estantes e as reportagens repousam nos arquivos. Mas amizade não cabe em arquivo algum, porque mora na memória.

E a minha memória de Turiba inevitavelmente me leva ao Beirute. Quantas noites atravessamos ali? Já perdi a conta. Talvez seja melhor assim, mesmo porque amizade verdadeira não precisa de estatística. Bastavam uma mesa, duas cadeiras, um quibe e uma cerveja bem gelada. O resto Turiba providenciava.

A conversa começava em Brasília, passava pela política, entrava pela literatura, tropeçava em alguma história de jornalismo, encontrava um poema pelo caminho e, quando percebíamos, a madrugada já havia tomado conta da cidade. O Beirute ia esvaziando, as mesas ao redor ficavam silenciosas. Os garçons começavam a lançar aqueles olhares discretos de quem gostaria de voltar para casa e nós continuávamos conversando. Tudo porque algumas amizades possuem essa capacidade maravilhosa de suspender o relógio.

Com Turiba, uma cerveja nunca era apenas uma cerveja. Um quibe jamais era simplesmente um quibe. Aquela mesa era uma espécie de território livre onde cabiam sonhos, indignações, lembranças, projetos, personagens, mulheres bonitas, política, poesia e todas aquelas inutilidades absolutamente necessárias que fazem uma amizade valer a pena.

Talvez seja isso que mais doa quando um amigo parte, porque não perdemos apenas uma pessoa. Vai embora também um interlocutor da nossa própria história.

Há coisas que somente determinados amigos sabem compreender. Uma frase pela metade, um olhar, uma velha piada, um nome mencionado depois de décadas. Uma história que já foi contada cinquenta vezes e que, mesmo assim, ouvimos pela quinquagésima primeira como se fosse novidade.

Turiba era desses. Agora deixa cinco filhos, seis netos, leitores, colegas, admiradores e uma Brasília culturalmente mais silenciosa. E deixa amigos com uma coleção de lembranças que nenhuma certidão de óbito consegue encerrar.

Hoje imagino aquela velha mesa do Beirute, com o quibe ainda quente, a cerveja suando no copo e Brasília lá fora, com suas asas abertas sobre a noite. Olho para a cadeira em frente e, por um instante, quase posso vê-lo novamente. Talvez esteja sorrindo ou preparando uma daquelas observações capazes de transformar uma conversa banal em poesia.

Ou talvez apenas levante o copo, e eu levantaria o meu. Jamais para brindar a morte, mas para um ti-tim à extraordinária aventura que foi tê-lo como amigo. Porque gente como Luis Turiba não desaparece quando morre. Apenas mudam de endereço, para a morar naquele lugar misterioso onde guardamos as pessoas que ajudaram a escrever a nossa própria vida.

E sei que, daqui para frente, toda vez que eu entrar no Beirute e ouvir o tilintar dos copos, haverá uma cadeira invisível ocupada naquela mesa. Nela estará Turiba esperando o quibe, a cerveja e principalmente, esperando que a conversa continue. Porque certas amizades não terminam. Apenas atravessam a madrugada.

……………

José Seabra é CEO fundador de Notibras

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.