JUÍZO CELESTE
Um cometa desce como sentença e a verdade passa a andar sem disfarce
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O demônio não conseguiu pegá-lo. Não porque fosse fraco, nem porque tivesse fugido, mas porque algo no ar havia mudado antes mesmo que as garras o alcançassem. O céu já não era céu. Era um campo de fogo silencioso onde Serafins se moviam como constelações vivas, queimando o espaço ao redor. Todo diabo que ainda ousava existir tremia diante daquela luz.
Foi então que o cometa veio. Não cortou o céu como um risco. Desceu como uma sentença. Um corpo imenso em chamas atravessou as nuvens, abriu o firmamento e caiu sobre a terra cheia de gente e máquinas. O impacto não foi apenas físico. Foi ontológico. O mundo sentiu-se julgado.
Do interior da pedra ardente não saiu destruição imediata, mas brilho. Cintilações vivas se espalharam como sementes de fogo. Onde tocavam os justos, havia paz; onde tocavam os maus, havia desvelamento. Ninguém mais conseguia esconder o que era.
As montanhas refletiam relâmpagos constantes. O ar cheirava a enxofre, metal e fim. Prédios rachavam como cascas velhas. Sistemas falhavam em cadeia. Comunicações mudas, satélites cegos, relógios parados no mesmo segundo eterno.
E, foi nesse silêncio quebrado apenas pelo trovão, que o homem emergiu do corpo celeste e começou a subir uma colina próxima ao local do seu pouso. Ninguém o mandou. Ninguém o chamou. Ele simplesmente sabia.
Cada passo era pesado, não pelo cansaço do corpo, mas pelo peso do mundo que ficava para trás. As cidades em ruína, os gritos longínquos, as sirenes inúteis, assim como as orações tardias. Ele não olhava para trás. Enquanto subia, o céu descia.
As fronteiras entre o que era matéria e o que era espírito começaram a ceder. O mundo se igualava aos outros céus, não por elevação, mas por revelação. Tudo o que sempre esteve escondido agora estava nu.
No topo da colina, o homem parou. Diante dele não havia trono, nem voz, nem forma definida. Apenas uma presença que não ocupava espaço, mas preenchia tudo. Ele não caiu de joelhos. Não levantou os braços. Apenas permaneceu. E naquele instante, eles entenderam. O fim não era uma explosão. Era um filtro da verdade.
O velho mundo não estava sendo destruído , mas tornado insuficiente. A justiça que falhava seria retirada. O poder que mentia seria silenciado. A dor que se acumulava seria finalmente ouvida. Nada seria apagado sem antes ser compreendido.
O homem respirou fundo pela última vez como criatura de um mundo antigo. Não, até mesmo antes disso. E então o mundo mudou. Não com um grito. Um ajuste. Como quando uma corda desafinada é tensionada até finalmente soar correta.
E por isso, quando tudo se aquietou, quando os céus e a terra encontraram o mesmo tom, quando o fogo já não queimava e a luz já não feria, não havia mais medo. Apenas clareza. E o mundo nunca mais foi o mesmo.
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Renan Damázio, carioca, é advogado, professor e poeta, autor do livro “Emoções e Reflexões”.