Curta nossa página


Sob o signo da vingança

Um drink em Nova York

Publicado

Autor/Imagem:
J. Emiliano Cruz - Foto Francisco Filipino

Bar do Hotel Continental, Nova York, data incerta. Dois conterrâneos nascidos na grande e icônica metrópole se encontram para um drink.

— Buona notte, J! Faço votos de que as coisas estejam bem com você.

— Good evening, M! Assim, assim… E eu espero que sua família esteja bem.

— Meu pai faleceu ontem, ataque cardíaco, mas os outros que são vivos estão bem.

— Lamento, meus sentimentos!

— Prego! É verdade que você se aposentou?

— Sim, mas infelizmente terei que voltar à ativa.

— Mesmo? Olha, um homem de respeito e com as suas habilidades sempre interessa a nossa organização. Você tem status para começar já como “chefe de regime”.

— Na verdade, é em função de uma motivação íntima e pessoal. De qualquer forma, eu sempre trabalhei sozinho e faço questão de manter as coisas assim, mas obrigado pelo convite.

— De nada! Pelo que vejo, existe uma “vendeta” como motivo desse retorno… posso saber do que se trata?

— Então, essa semana roubaram meu carro, incendiaram minha casa e mataram o meu cachorro. Amanhã vou acertar essas contas.

— Entendo, mas o problema mesmo foi o cachorro, não?

— Sim, era a última lembrança que me restava da minha esposa, ela morreu há dois anos.

— Lamento, J, meus sentimentos!

— Obrigado, M! Mas e você? Também tem alguma coisa recente engasgada na garganta que precisa sair para fora?

— Como você sabe, há cinco anos tentaram matar meu pai, depois mataram meu irmão e, em seguida, assassinaram a minha esposa quando eu estava na Sicília… além de muitos desrespeitos praticados contra nossa família no “negócio do azeite”.

Entendo! E isso é para logo?

— Para amanhã, também! Depois de quatro anos de espera, vou dar um jeito em todas as minhocas com uma pazada só.

— Assim como Odisseu, você é um líder natural e estrategista inabalável. Gosta de esperar, planejar tudo pacientemente nos mínimos detalhes.

— Bingo, J! Assim como você é uma força da natureza, um guerreiro habilidoso, feroz e imparável como Aquiles. Gosta de resolver tudo quase instantaneamente com as próprias mãos, não é mesmo?

— Pois é, não tenho paciência para deixar o prato esfriar. Mesmo assim, em essência, somos muito parecidos.

— É verdade! Em nossos sentimentos e na nossa concepção, o mundo é pequeno demais para abrigar ao mesmo tempo a nós e a quem nos ofendeu gravemente.

— Concordo, M, sou muito da paz até pisarem maldosamente no meu sapato. Mas eu sempre quis entender uma coisa que você e o seu pai falavam…

— O que seria, J?

— É a frase: “Não é pessoal, é só negócio!”. Isso não é meio contraditório para pessoas com a nossa sensibilidade?

— Ora, isso era só o nosso jeito particular de dizer que, na verdade, tudo é pessoal. Nunca devemos deixar ninguém nos fazer de bobos impunemente!

— Ah, agora entendi, uma ironia muito filosófica… Parabéns!

— Prego! Uma vez, quando cursava a faculdade de Direito que não concluí, nunca esqueci uma frase da biografia de Schopenhauer dita por ele mesmo: “Não é porque sou filósofo que preciso ser tolo, desejo toda a felicidade do mundo para vós e vossa família, desde que pagues o que me deves!”. Não achas isso inspirador?

— Muito, M! Não entendo como alguém acha que pode viver dignamente se está em dívida injusta e não quitada com outra pessoa. Nesse caso, o devedor não deveria reclamar quando a cobrança chega.

— Pois é, J! E muitos transferem o sentimento e o impulso natural da desforra pessoal para ser degustado na literatura ou no cinema… já notaste que, ao menos, metade das obras literárias clássicas e dos filmes consagrados tem a “vendeta” como tema central?

— Não li muito e nem assisti a muitos filmes, M, mas a ser verdade, isso só mostra como seres como nós são necessários na função de objetos de catarse coletiva.

— Sim, quem nunca… não é mesmo?

— Difícil dizer, de qualquer forma, sempre faremos o que precisa ser feito!

— Sem dúvida, meu caro John Wick! Desejo força na sua empreitada e muita sorte com a “Alta Cúpula”.

— Thank you, Michael Corleone! Boa sorte para você com os chefes das “Cinco Famílias”.

Depois de um brinde fraternal, os dois homens saíram do hotel, despediram-se mais uma vez e caminharam em sentidos opostos, cada um carregando consigo os seus fantasmas.

Já passava da meia-noite.

………………………..

J. Emiliano Cruz [Instagram Jorge23215] é funcionário público federal, escritor e historiador, autor da coletânea de contos “A FELICIDADE E OS RISÍVEIS AMORES DE TODOS NÓS”, disponível no link da Estante Virtual:

.https://www.estantevirtual.com.br/livro/a-felicidade-e-os-risiveis-amores-de-todos-nos-O4P-6970-000

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.