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Solitude

Um ermitão entre as árvores e os astros

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Autor/Imagem:
Hamed Aawar - Texto e Foto

Faz muito, muito tempo que li, em alguma publicação, que meus últimos dias de vida seriam de isolamento. Não dei muita bola pra essa informação, já que sempre me considerei um camarada solitário e assim me sentia bem comigo mesmo.

Desde a mais tenra infância, com menos de sete anos de idade e então residindo na Travessa Dona Rita de Souza, em Casa Forte, no Recife, onde a casa, além de ter um bom jardim na frente e um vastíssimo quintal, possuía, ao final desse terreno, um córrego que nos limitava a um canavial. À época, o córrego era de águas límpidas e costumávamos, eu e meus irmãos, nele brincar e tomar banho, vezes sob o olhar atento do Euclides ou do Vicente, auxiliares da minha mãe e que atuavam como um “faz de tudo” em casa. O Euclides, então já um Senhor de idade, cuidava dos jardins e consertos domésticos, tais como trocar lâmpadas e abastecer o tonel de querosene que naquela época ainda se usava não sei bem pra quê. E foi desse querosene, quer acreditem, ou não, que um dia fui surpreendido tomando um pouco na caneca. E não achava ruim, não!!! Também nessa época, fiz xixi na tomada da parede e tomei, como era de se esperar, um baita choque. Então, chamei meu irmão, Zé, para fazer o mesmo, o que, pra sorte dele, minha mãe interviu e não deixou.

Ainda há uma lembrança interessante dessa época, mais ou menos assim: estava meu pai reunido com alguns amigos, e hoje não tenho a menor ideia de quem eram e sentados ao redor de uma mesinha de centro, no terraço, ou varanda, como se costuma dizer nos dias atuais. Eu brincava no chão, entre meu pai e os convidados, e o Zé junto. Aí, do nada, Zé me pergunta o por quê de as lagartixas andavam no telhado, de cabeça para baixo, sem cair. E eu teria respondido “porque o telhado é o chão das lagartixas”!!! Simples e racional resposta para quem não tinha, sequer, sete anos de idade.

Voltando à minha solidão, vezes me pegava, na calçada da casa onde Euclides morava, nos fundos da casa principal, caçando lagartixas. Eu pegava as coitadinhas e, com uso de giletes, as cortava no abdômen e retirava os ovos que ali encontrava. No lugar dos ovos, eu depositava pequenas pedrinhas de seixos e costurava, com agulha e linha, o corte realizado e as soltava novamente. Não me recordo qual a intenção, à época, se era para constatar que nasceriam novas lagartixinhas das pedras então depositadas no lugar dos ovos retirados.

Já morando em Brasília, e por volta dos 12 anos de idade, eu costumava, sozinho, inventar “venenos” para matar insetos. Misturava Cibalena e outros remédios, com óleo de cozinha, Detefon e mais alguns ingredientes. Depois de pronto, testava em alguns insetos, tais como formigas saúvas e gafanhotos, aplicando-lhes gotas em sua cabeça. E morriam!!! Hoje não sei se pereciam por envenenamento, ou afogados com o excesso de líquido que os fazia engolir.

Ainda nessa fase, costuma construir “foguetes” com uso de cargas vazias de canetas Parker. As cargas de metal eram preenchidas com pólvora que eu raspava de palitos de fósforo, ou com pólvora que eu comprava de um amigo cujo pai possuía uma espingarda. O amigo pegava as quantidades mínimas de pólvora e me vendia, às escondidas do seu pai. Essa “invenção” evoluiu para a construção de aviões à jato, movidos por pólvora. Eu pegava daqueles tubos de alumínio que compunham antenas de tv, os cortava, amassava e dobrava uma das pontas que seria a parte dianteira do avião. Depois, cortava, em papelão, as asas do avião e as amarrava no tubo metálico. Bastava encher de pólvora pela traseira, colocar um pequeno pavio de barbante, acender e correr pra longe.

O último avião que fiz, ao acender causou uma explosão tão forte que quase toda a quadra 0A, no Cruzeiro (ainda não existia o atual Cruzeiro Novo), ficou espantada e foi para as ruas, pensando ter havido uma explosão de bujão de gás de cozinha. Fui ver o meu avião, depois do voo planejado, e estava com a parte traseira toda rasgada parecendo uma flor; as asas, embora continuassem amarradas, estavam totalmente retorcidas. Esse foi meu último experimento como jovem “cientista”.

Hoje, aos 73 anos, engenheiro florestal aposentado pelo Serviço Público Federal – Funai, continuo minha vida solitária. Moro em um Sítio, o Sítio Harmonia – Parceria com a Natureza, nas cercanias de Brasília, mais especificamente na área rural de Sobradinho. Construí uma casa ampla, bem no meio da floresta, com varanda espaçosa e rampa de acesso para idosos ou pessoas com dificuldade de locomoção.

Atualmente, não faço as extravagâncias de outrora. Depois de ter criado uma variedade de animais – vacas leiteiras, carneiros e cabras, aves diversas, suínos e javalis, há cerca de seis anos e meio ganhei um amigo que se tornou minha companhia diuturna e com o qual converso bastante, às vezes uma conversa um pouco tensa. Ele se chama Parkinson.

Mais recente, descobri que tenho apneia grave do sono e tenho realizado exames médicos com vistas a uma cirurgia que consiga superar essa dificuldade em respirar ao dormir.

Percebo, hoje, que sou um aquariano, com a Lua sob mal aspecto na quinta Casa; Plutão na sexta, em oposição ao Sol na 12, e estudante de Astrologia há mais de 50 anos, pai de quatro filhos e quatro netos. Desses, uma filha mora na Inglaterra, com os quatro filhos e tem ajuda próxima da mãe que também resolveu morar por lá. Em Brasília, tenho mais duas filhas que possuem vidas próprias e um filho que também mora no Sítio, em outra casa.

Enfim, como disse no início dessa narrativa, nos últimos tempos sou uma espécie de “lobo solitário”; praticamente um ermitão ou eremita que vive recluso e isolado do resto da sociedade, à exceção dos contatos quase diários com meu filho e uns poucos telefonemas ou mensagens com duas das três filhas.

Por quanto tempo essa situação vai perdurar, ainda não sei e nem me arrisquei a perguntar aos astros. E, apesar do incômodo causado pelo meu amigo Parkinson, espero, ao menos, permanecer nesta vida até que meus filhos, todos, alcancem a sua independência.

C’est la vie!!!

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