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Vozes da Literatura

Um mergulho na trajetória literária da escritora Milena Maria Testa

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

A literatura contemporânea encontra sua maior força quando deixa de ser apenas um exercício estético e passa a ser uma ferramenta de resgate da identidade e de enfrentamento do real. Nesta edição da coluna Vozes da Literatura, conversamos com a escritora Milena Maria Testa, cuja formação plural em Arquitetura e Direito caminha lado a lado com uma profunda sensibilidade artística. Partindo de uma bagagem clássica de leitura e de um processo criativo que une a intuição à edição técnica rigorosa, a autora faz de sua escrita um espaço de profunda reflexão existencial, mergulhando sem rodeios em temas universais e sensíveis como o luto, a passagem do tempo, os conflitos geracionais e as marcas indeléveis da violência no ambiente familiar.

Ao longo desta entrevista densa e reveladora, Milena Maria Testa nos conduz pelos bastidores de sua mais recente produção, Filha do Brasil — um romance de formação autoficcional que utiliza a força do fluxo de consciência para preencher as lacunas da memória sobre o período da Ditadura Militar. Com um olhar agudo sobre o nosso tempo, a autora denuncia a “supremacia da frivolidade” imposta pelo consumo digital rápido e defende o papel da crônica e da literatura como refúgios essenciais para manter o senso crítico e a honestidade intelectual. Defensora das cooperativas e do apoio mútuo entre autores independentes, Milena entrega um panorama indispensável sobre o mercado editorial e o compromisso da escrita que visa, acima de tudo, impactar racional e emocionalmente quem lê.

“Ler criticamente ajuda no processo de criação”

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

Antes de estudar leitura criativa, sempre li muito, principalmente, clássicos, devido à época de formação e já escrevia textos autorais. Após os estudos literários, que continuam, percebi que muitas das técnicas aprendidas eu já utilizava naturalmente na escrita, provavelmente pela base como leitora. Ler criticamente ajuda no processo de criação. No meu caso, escrevo já fazendo em paralelo uma primeira edição no texto. Essa atenção incrementa minha criatividade na escolha das palavras e no tom da obra, entre outros aspectos.

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

Gosto de refletir sobre a realidade desde criança. Apesar de não ter formação em Filosofia, salvo por disciplinas específicas das faculdades de Arquitetura e Direito, gosto especialmente da corrente existencialista, o que procuro principalmente em ensaios, ficção e poesia. Essa vertente vem ao encontro de temas como a morte, o luto, o efeito do tempo sobre os relacionamentos humanos, além de questões sociais, que venho desenvolvendo pela escrita.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

Hoje, diferente do ritmo e da cultura da épica dos autores citados, a crônica é essencial como pausa e como meio de pensar nosso tempo. Mas observamos a urgência da superficialidade dos interesses em nossos dias. Diria, a supremacia da frivolidade. Quem não se der recessos estratégicos para desenvolver o olhar crítico, que a crônica impulsiona, vai perder muito do senso de realidade, com impactos danosos sobre suas escolhas. É o que já estamos testemunhando.

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Posso citar minha última obra, Filha do brasil, um romance de formação autoficcional. Nele, tendo como base as memórias, busquei informações para que o fundo social e político referente à Ditadura Militar fosse fiel à realidade. Já a trama principal corre conforme o fluxo de consciência e a imaginação que preenche suas lacunas. É um trabalho de composição, o cenário dando suporte à memória.

“Escrever ficção é ser criativa sempre, quer se faça literatura por um ideal maior ou não”

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Temos aqui um ponto extremamente sensível. Não podemos reescrever a História, mas contar uma trama que tenha um fundo na realidade é uma escolha. Do ponto de vista criativo, isso requer inventividade, mas sem se incorrer em mentiras cuja intenção é alterar a capacidade de compreensão do público leitor. É uma questão de honestidade intelectual que exige esforço de criatividade. Mas escrever ficção é ser criativa sempre, quer se faça literatura por um ideal maior ou não. O que importa é que a literatura é um recurso certeiro para se desenvolver o senso crítico.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

Eu escrevia de uma forma que identifico como intuitiva. À medida que fui estudando técnicas de escrita, percebi que já aplicava algumas delas, talvez devido ao acervo de leitura. Então passei a adotar técnicas e procedimentos intencionalmente, principalmente na edição dos textos. Cheguei a considerar que o uso de recursos dessa natureza pudesse engessar meu trabalho porque percebo isso nos livros de terceiros. Mas a consciência do processo é uma condição para que tal prejuízo não ocorra. Com a prática e reconhecendo suas limitações, a pessoa que escreve pode chegar a um resultado mais profissional, ou seja, aquele que apresenta conteúdo e estética literários com impacto criativo no mundo.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Atualmente tenho produzido no campo da autoficção, escrita de si ou do íntimo, como prefiro denominar o amplo arcabouço da memória. Sendo eclética, meu lugar de fala parece menos relevante em obras não autoficcionais. Já na autoficção, não há como negligenciar esse lugar. Sou uma mulher nordestina que escreve em busca de identidade por questões da vida pessoal, mas esse perfil funciona além do gênero e da geografia, visto que cuido de temas universais, como a violência em várias de suas formas (abandono infantil, agressão no ambiente da casa, conflitos da adolescência e dos relacionamentos familiares, diferenças entre classes sociais e suas consequências etc.). Por serem temas universais, tenho recebido retornos sensíveis de identificação emocional e racional das pessoas leitoras das minhas obras, o que significa atingir o objetivo maior da literatura: impactar quem lê.

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Não desconsiderando aspectos subjetivos individuais, ainda mais porque vivemos num sistema que separa as pessoas através do incentivo extremo ao hedonismo pelo consumo, sem dúvida, uma união honesta de propósitos pode exercer maior influência sobre a recepção da literatura como meio de mudança positiva no mundo. No mercado editorial, inserido no sistema capitalista, o livro é resultado de muitas cabeças e mãos, cabendo à autoria, às vezes, menos de 10% do valor de capa. Sustento o óbvio, porém: sem texto não há livro. Pelo menos não na forma “tradicional”, aquele que propõe a leitura de frases, diria, numa simplificação, visto que as listas estão colocando cadernos com desenhos para colorir como livros mais vendidos. Iniciativas de produção independente ou por cooperativas, em grupos que se apoiem, podem gerar maior inserção nesse mercado em que nós é que divulgamos a própria obra, já que, no Brasil, a maioria das editoras não cumpre plenamente o papel de empresa, conceito que abriga o risco do negócio.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

Oficinas e grupos possibilitam trocas que o estudo e a leitura solitários não alcançam. Têm efeito compatível com o retorno de quem nos lê. Cria-se um verdadeiro universo de interação em que um ajuda o outro a refletir sobre a própria obra e, assim, a evoluir e atingir uma qualidade literária com maior domínio da intenção, do conteúdo e da estética.

10. O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Foi a internet que possibilitou a muitos autores o aprendizado para escrever melhor, publicar e alcançar mais leitores. Quanto a outros aspectos da tecnologia, como o uso de IA na produção textual e a concorrência com o feed infinito das telas nas mãos de cada indivíduo, trata-se de algo a pensar e discutir como sociedade. Já existem estudos sobre os efeitos deletérios do vício em telas. Mas o algoritmo continua fazendo suas vítimas. E se a IA tomar conta da escrita, por sua capacidade de produção, e os leitores não discriminarem mais o que valorizar da criatividade humana? Afinal de contas, o que estamos construindo frente ao futuro que bate à porta (ou envia notificação atrás de notificação)? São pontos positivos e negativos sobre os quais ainda estamos engatinhando.

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Minha obra atual está focada em memórias. Mesmo quando crio ficção, tenho interesse nos aspectos psicológicos dos personagens e nos conflitos que nascem das relações cotidianas. É minha ferramenta mais significativa e eficiente de comunicação do pensamento com o mundo. Entendo não ser uma fuga; pelo contrário, uma escavação. E também, pelos temas que escolho, uma maneira de lidar com assuntos relacionados a traumas e compartilhar as angústias comuns deles derivadas, mas sempre através de questões de interesse coletivo, como mencionei em resposta anterior. O individual passa a refletir o que é compartilhado e vice-versa. Escrever sobre questões universais é uma forma de tornar o debate mais amplo. Então, não para a fuga e sim para o espelho.

“Dizem que tudo que escrevemos tem um tanto de autoficção”

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

Dizem que tudo que escrevemos tem um tanto de autoficção. Atuei em áreas diversas (bancária, arquitetura, criminal, educacional) e sempre tive múltiplos interesses. Sou generalista com algumas especializações. Além disso, sou mãe. O leque é escancarado. Por isso tenho uma diversidade expressiva de produção, escrevendo desde o poema até o ensaio, passando pela autoficção. Essa experiência toda contribui para uma criação mais eficiente de enredos, ambientações, personagens e, principalmente, para a escolha da voz narrativa e da linguagem de acordo com a intenção por trás da obra.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Gosto da solidão da escrita, por vezes compartilhada com os pares, mas também gosto de me expor de vez em quando. É preciso ter controle sobre esses dois universos, saber fundi-los e separar quando necessário, e, principalmente, saber lidar com a crítica nas redes sociais. No dia a dia, crio momentos em que me desconecto totalmente da aldeia virtual, para produzir em contato com a realidade sensível e a partir do meu próprio corpo. Penso que a melhor maneira de alcançar e manter leitores é ser sincera e honesta com o que se escreve e publica, tendo interesse genuíno no que se expõe, em respeito ao público. Não cair em modismos. Dessa forma, não percebo valor em postar qualquer coisa todo dia, por exemplo, somente para ter números. Prefiro dar prioridade ao que é qualitativo, ao que acrescenta bagagem à pessoa que dedica um pouco do seu tempo ao que levo a público.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Sem dúvida, apenas por meio de espaços como o Café Literário, conhecemos autorias que ainda não tiveram seu valor reconhecido. É um trabalho hercúleo, tento imaginar, onde percebemos rigor e delicadeza no trato com esses clientes tão carentes de ambientes saudáveis de encontro. Com essas iniciativas, preserva-se a tradição do melhor do jornalismo, como uma resistência à fragmentariedade de outras mídias, mais direcionadas à mera repetição algorítmica.

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Somos protagonistas da própria história. Então leia uma literatura que te leve para outro lugar, o meio mais eficaz de conhecimento de si e do outro.

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Milena Maria Testa é alagoana, graduada em arquitetura e direito, pós-graduada em Letras, leitora crítica e uma das coordenadoras do Coletivo Escreviventes. Foi colaboradora da ed. Samsara e do site Escritor Brasileiro. Recebeu menção honrosa pela Academia Alagoana de Letras (2019) e fez jus ao 8º prêmio Mulheres que escrevem Alagoas (2025). Tem oito obras publicadas, entre elas, Sob a pele de Maria (contos/ed. Patuá/2023), Todas as faces do Lençol (poesia/ed. Arpillera/2025) e Filha do brasil (romance autoficcional/ed. da Autora/2025). Sua escrita é diálogo para compreensão de si e do outro.

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