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A Poesia não vem

Um paraíso de cheganças

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Autor/Imagem:
Sarah Munck

Todas as noites, quando chegava em casa, eles estavam ali. Havia naquele modo de me receber algo que me transformava em “chegada”.  Em toda a minha vida, nunca fui tão recebida por um lugar.

Não importava o que eu trazia na bagagem. Os olhares eram sempre os mesmos: atentos, ternos, como se nada em mim precisasse ser justificado. Foi naqueles olhares que, pela primeira vez, me senti em casa.

Certa vez, anos atrás, sentada no quintal da minha mãe, meu mundo desmoronou. Estava sozinha. Não. Bob estava lá. Ele sentou-se diante de mim, encarou-me profundamente e pousou a pata direita dianteira em meu peito, como se, ao fazê-lo, dissesse: “Estou por aqui”. E isso bastou. Eu nunca mais me esqueci daquele dia.

Quando minha filha e eu chegamos da maternidade, os primeiros a reconhecê-la foram Gaia e Hachi. Com ela ao colo, parei diante da grade da porta. Trocamos um longo olhar. Eles a reconheceram. Dali em adiante, nunca houve uma brincadeira no quintal ou uma contação de história em que eles não estivessem presentes. Cada um ao seu modo: Gaia, com seu jeito silencioso de estar por perto. Hachi, com sua alegria que parecia não caber no corpo.

Depois, veio a vez de apresentá-la a Tom, que transformou o ronronar em um mecanismo de alerta e cuidado mais atento que qualquer sistema de segurança. Ao lado de Pom, ele fez da casa um território de pequenas travessuras: um salto inesperado, um canto improvável para se deitar.

Antes deles, houve Bidu: preto, de pelos esvoaçantes, queimados pelo sol de tantas tardes. Meu primeiro cão amigo. Com ele, e depois com os outros animais, fui aprendendo que a amizade também cabia nessas pequenas cumplicidades: no calor do sol, quando esticamos o corpo no quintal de casa; no pulo de alegria no reencontro; na bola esquecida na varanda; na espera silenciosa do anoitecer, as patas sujas de lama, aquela alegria miúda.

Hoje, o silêncio que ocupa os cantos da casa tem o peso da saudade. Mas há o que permanece: o quintal, as histórias, os caminhos que fizemos juntos. Como se, mesmo depois da partida, ainda coubéssemos em cada pedacinho dessa estrada que se chama nós.

Para Hachi, talvez o céu não seja o paraíso dos preás, mas um imenso jardim de garrafinhas multicoloridas com as quais você amou brincar. Em cada uma, um perfume floral. Um coquetel daquela arvorezinha que você tanto amava mascar. Talvez nelas ainda estejam nossos caminhos pelo mato, seus cheiros, nossas risadas.  Quem sabe, um dia, eu também possa abrir uma delas e fazer minha chegança.

Até breve.


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Sarah Munck Vieira (http://sarahmunck.substack.com/) é poeta, professora e pesquisadora, natural de Juiz de Fora (MG). Graduada, mestra e doutora em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), é professora efetiva do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais (IF Sudeste MG). Recebeu menção honrosa no Prêmio Ria Livraria e é autora dos livros de poesia O diagnóstico do espelho (Mondru, 2023) e Esquecemos os nomes dos pássaros (Funalfa/Provérbio, 2025). É colaboradora do Café Literário, de Notibras.

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