Nhonhoco
Um rapaz sem-noção
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Observei, em Piadas e contos (já publicado por Notibras), que era uma pena não poder basear um texto na piada do Nhonhoco, “obra-prima do humor da 6ª série”. Mas depois pensei, por que não? O resultado está aqui.
Se os pais de Nuno tivessem permanecido em Portugal, ele seria um parvo. Mas o casal deixou a terrinha para se fixar em plagas tupiniquins, e ele cresceu para se tornar um bobo, um otário ou alguns termos mais cabeludos para designar um carinha sem noção.
A rigor, seu problema não era bobice ou otarice, e sim credulidade. Nuno tinha vários amigos, confiava neles – e a tigrada usava e abusava do pobre portuga.
Aos 17 anos, com a explosão de hormônios dessa fase da vida, o problema se agravou. Nuno e a namoradinha um ano mais jovem sonhavam em ir pra cama, seria a primeira vez dela, só que ele não sabia como encaminhar a coisa. Tinha uma vaga desconfiança de que não pegaria bem dizer-lhe:
– Dá-me (conservava uma regência lusitana castiça) a/o … – e designar a parte do corpo da moçoila por onde iniciaria os trâmites. E tinha quase certeza de que não seria adequado deixar uns trocos na mesinha da cabeceira, como costumava fazer com as profissionais do vucovuco que por vezes visitava. Desesperado, pediu conselhos aos amigos – e ouviu barbaridades.
Um deles chegou a dizer-lhe:
– Tu apaga a luz e tira toda a roupa. Depois acende e, com o bicho apontando pra ela, dá uma risada de monstro, Uar uar uar, bate no peito que nem um gorila e berra, Tá na hora da onça beber água!
Para sorte da moça, depois de analisar bem os prós e contras, o luso rejeitou a sugestão.
Outros amigos deram-lhe conselhos para enfrentar o problema das ereções frequentes, useiras e vezeiras em uma fase na qual ver uma saia, ou a batina de uma freira – até mesmo de um padre – é motivo de excitação. Uma das instruções que fez mais sentido estipulava:
– Tu precisa distrair a fera. Então pergunta a ela algo como, “Senhorita, tem visto dom Eduardo, príncipe da Ruritânia?” Enquanto ela se distrai, pensando em qual dos Eduardos que conhece pertence à realeza, tu coloca o troço pra cima, encostado à barriga. E pensa na tua vó nua, isso é tiro e queda pra baixar.
Certa vez, ao pegar um ônibus lotado, Nuno foi apresentado ao traseiro de uma jovem. Baixinha, feinha, jeito de crente, mas sabem como é, ele vivia na ponta dos cascos, qualquer prazer divertia. Ele jura que foi por acaso, não para usufruir da encoxada; seja como for, ao se tocar lá embaixo, percebeu que sua braguilha estava aberta. Para fechá-la, teria de mover a mão entre sua calça e a bunda da rapariga, havia grandes chances de levar um tapão no meio dos cornos.
Naquele momento, vagou um lugar ao lado e a moça sentou rapidinho. E passou a olhar fixo pra ele, ou melhor, para sua cintura – a rigor, para sua virilha.
Constrangido, lembrou-se das instruções para “distrair a fera”, o que lhe daria tempo para fechar a barguilha. Mas descartou o “príncipe da Ruritânia”, nunca que aquela crentinha iria conhecer alguém da realeza. Então improvisou. Sorriu pra ela e perguntou:
– Oi. Você conhece Nhonhoco?
Os olhos da jovem lançaram chispas. A resposta foi imediata, cortante como uma lâmina:
– Conheço sim. E se botar pra fora, começo a gritar e tu vai ser linchado!