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GOLPE DOCE

UM RITUAL AO AMANHECER, UMA CONTA AO ENTARDECER

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi - Francisco Filipino

Sem cerimônias, ela abriu a cortina do quarto da minúscula casinha e o tirou da cama. Era cedo demais, fazia frio, e ele viajara uma centena de quilômetros na noite anterior para estar ali. Depois de uma noite intensa de paixão, ela disse que queria fazer um ritual nas águas do riacho próximo, renovar as energias, e precisava ser com o dia ainda nascendo.

— Mas dá pra tomar ao menos um café?
— Não, meu bem. Isso desalinha os chacras. Sabe quantos aditivos químicos eles colocam no café?
— Tá bem. Então vamos sem café…

Caminharam mil e quinhentos metros por uma trilha irregular. Ele chegou ofegante. Ela, plena, vestia uma saia comprida de tecido leve e uma blusa cor de terracota, com colares de pedras naturais no pescoço. A cabeleira era loura, esvoaçante e volumosa. Ele, de casaco corta-vento fechado até o pescoço, sentia frio e calor ao mesmo tempo: suava sob a roupa, mas abri-la significava apanhar um vento gelado e cortante.

Ela entrou no riacho de águas cristalinas, que desciam de uma montanha verde com estrépito. Ficou ali até a cintura, colocou-se numa posição incomum com as mãos e entoou uma espécie de cântico. Ele observava, entre atônito e curioso, e rememorava como haviam chegado até ali.

Ela, vinte anos mais jovem, despertara nele algo que andava adormecido. Sentira-se jovem e ousado o suficiente para cortejar uma moça que praticamente tinha a idade de sua filha mais nova. Ela, ora tímida, ora provocadora, aceitara os galanteios e se mostrara aberta. Conheceram-se ao acaso, durante um curso que a empresa em que ele trabalhava promovera numa associação cultural.

Ela se apresentara como artista plástica, em busca de patrocínio para a confecção de uma obra definitiva sobre as mazelas da guerra no Oriente Médio: uma reedição de Guernica, de Picasso, em outro contexto temporal e geográfico. Ele admirara a ousadia da moça.

Dali para o romance tórrido e clandestino foi um pulo. Construir um pretexto para ficar um fim de semana fora de casa, a fim de encontrá-la, nem fora tão difícil. A esposa não se importava. Havia anos viviam numa relação de pura indiferença. Ela sequer suspeitara — ou, se suspeitara, nada dissera. Ele podia fazer o que desse na telha.

Ele foi. No caminho, o coração batia forte: sentia-se um menino. Viajou de noite, após o trabalho, dizendo que era um compromisso profissional. Fora, na verdade, parar no sítio onde ela morava — um lugar lindo, talvez herdado, talvez alugado. Ele ainda não se sentia à vontade para perguntar.

Ali, na beira do riacho, reparava melhor nos traços dela: as tatuagens florais no braço, as sardas no corpo queimado de sol. Haviam feito amor na penumbra; não vira aquilo durante a noite.

Na volta para a casinha, deitaram-se mais uma vez antes de irem ao povoado mais próximo tratar de arrumar um almoço. Ela comia frugalmente: era vegana e não consumia glúten. Achava uma ofensa ao corpo ingerir produtos industrializados. Ele, se pudesse, almoçaria numa churrascaria, com doses generosas de cerveja belga.

Foram pessimamente servidos numa birosca onde a indefectível placa de “comida caseira” era prenúncio da displicência com a qualidade da comida e do atendimento. Ela mal tocou no prato e se deu por satisfeita. Comeu algumas verduras e legumes esturricados em azeite. Ele chegou a ficar mal-humorado de fome.

À noite, convidou-a para ir a uma cidade próxima; vira no Google um restaurante especializado em fondue. Foram, embora o cardápio não se adaptasse completamente às restrições alimentares da moça. Ao menos ele tomou um bom vinho. Riram, contaram histórias de suas vidas, trocaram confidências e ficaram ainda mais íntimos.

Ao voltarem para o sítio, ela ainda quis acender velas — não para iluminação, explicou, mas “para fechar o campo”. Ele, já tocado pelo vinho e pelo cansaço acumulado da viagem, assentiu como se entendesse. Na prática, queria apenas dormir — e dormir com ela — porque ainda havia naquele corpo jovem uma promessa de recomeço que o distraía do que era irrecuperável dentro de si. Deitou-se com a sensação de ter voltado no tempo; e, como todo retorno impossível, havia ali um quê de ridículo que ele evitava encarar.

Na manhã seguinte, ela já não tinha a doçura mística do riacho. Estava impaciente com o sinal do celular, irritada com o frio da casa pequena e com a poeira que, dizia, “baixa a vibração”. Ele preparou um café para si, escondido, como um adolescente que infringe regra doméstica. Quando ela sentiu o cheiro, veio com aquele olhar de quem recolhe um erro do universo.

— Você tomou café? — perguntou, sem elevar a voz, mas com uma autoridade inédita.
— Eu precisava. Ontem eu… — ele ia dizer “passei fome”, mas engoliu a frase. Não queria parecer mesquinho. Mesquinho era a realidade, não ele.
— Isso te deixa denso — ela decretou. — Mas tudo bem. Hoje a gente resolve umas coisas na cidade.

“A gente”, ele notou, foi dito com naturalidade. Soava como casal. E ele gostou, apesar do perigo.

Ela entrou no carro com a mesma serenidade com que entrara no riacho. Foi nesse intervalo, o sítio ficando para trás, o asfalto retomando seu domínio, a vegetação rareando, que ele viu o primeiro gesto que destoava daquela liturgia do “natural”. Ela tirou do bolso um maço de cigarros, de marca conhecida, com aquele celofane brilhante e industrial, e acendeu como quem acende uma ideia. Tragou fundo, aliviada. A fumaça preencheu o habitáculo. Ele sentiu o cheiro doce e químico e, por um segundo, lembrou-se da frase sobre aditivos e chacras.

— Mas… cigarro não desalinha? — perguntou, tentando soar leve, quase jocoso.
Ela riu, uma risada curta.
— Depende do cigarro. Esse aqui é mais “limpo”. E eu fumo só quando preciso aterrissar. Você não entende… é energia.

Ele não quis insistir. Até porque, no fundo, sabia que não era energia: era vício, como o café dele. A diferença era que ele não recobria o vício com uma cosmologia.

No semáforo, enquanto ela tragava, ele reparou melhor no braço dela, no desenho floral que subia e descia até o ombro. Não era um detalhe delicado; era um mapa inteiro. Ali havia tinta, agulha, a agressão calculada contra a pele — e, por mais que tatuagem hoje fosse banal, aquilo não combinava com a doutrina do corpo “puro”, inviolável, ofendido por glúten e por “produtos industrializados”.

Sentiu nascer uma pergunta incômoda. Não era moralista. Não era contra tatuagem. Era contra a incoerência performática, essa que se vende como superioridade espiritual.

Ela continuava falando, agora sobre a obra definitiva. Mostrou no celular imagens de bombardeios, crianças com poeira, ruínas. Disse que precisava “transformar dor em linguagem”, “fazer a arte sangrar”. “Reedição de Guernica”, repetiu, com brilho nos olhos, como quem repete um mantra que abre portas.

— Só que isso custa — acrescentou, com naturalidade, como se fosse uma lei imperiosa da física. — Tinta boa custa. Tela custa, amor. Aluguel de ateliê custa. E eu não vou pedir para qualquer um. Não dá pra misturar as coisas. Tem que ser alguém alinhado.

Alinhado. Ele ouviu a palavra como um elogio dirigido à carteira, não ao caráter.

Na cidade, ela pediu que ele a deixasse num salão. Não era um cabeleireiro qualquer: fachada elegante, vidro espelhado, uma recepção que parecia de clínica, café espresso servido em xícaras com logo (ironia das ironias), uma fileira de mulheres muito arrumadas, todas com o mesmo cansaço de quem se dedica à própria aparência como se fosse um dever.

Ela se olhou no espelho do carro, puxou uma mecha de cabelo e apontou a raiz escurecida.

— Tá vendo? Minha raiz já tá muito escura. Isso me derruba, cara. Eu fico sem brilho. E eu preciso do meu brilho agora!

“Preciso do meu brilho.” Ele poderia rir, mas não riu. Havia uma seriedade naquilo, meio teatral, a seriedade de quem tem o mundo como vitrine.

— Quanto custa isso?
— Depende. Mas eu faço com um cabeleireiro ótimo aqui. Ele não é barato. Só que é o único que não estraga.

Ele estacionou e, por instinto, abriu a carteira. Ela fez um gesto como quem recusa esmola — ainda que fosse isso.

— Não… assim não. Eu não gosto dessa energia de “me dar”. É ruim, gera karmas. Eu prefiro que você transfira. É mais… limpo. Eu te passo a chave.

Ele esperou no carro, olhando o movimento da rua, tentando não parecer velho. Acariciou um gatinho amarelo que vadiava por ali, pensou na esposa. Pensou na expressão “compromisso profissional”, dita na noite anterior com uma facilidade que o envergonhava. Pensou, também, na esposa como “sócia”, palavra que ainda não tinha usado, mas que se desenhava há anos: um contrato com vida dentro, agora reduzido a obrigações e direitos. E pensou na garota, vinte anos mais jovem, que o chamara de “meu bem” e o arrancara da cama sem cerimônias, como se ele pudesse recomeçar uma existência inteira por causa de um riacho. E como ela lhe mostrara novos repertórios e ritmos.

Quando ela saiu do salão, veio com o cabelo impecável, o mesmo louro volumoso, agora mais homogêneo, e com um sorriso satisfeito, de quem vence uma batalha íntima. Entrou no carro e, antes que ele perguntasse, já veio com o assunto como quem não pede mas informa.

— Deu mil e trezentos e cinquenta. Mas eu te mando depois certinho, tá? Eu odeio ficar falando de dinheiro. Me dá um nó no estômago.

Ele não respondeu imediatamente. Fez uma conta mental rápida: mil e trezentos e cinquenta por uma raiz. Que planta rara… O valor não o quebraria. Mas, de repente, não era o valor: era o gesto. Ela não perguntara se ele podia; ela presumira. Como presumira o “a gente resolve umas coisas”, como presumira que café era proibido, como presumira que o mundo devia se moldar à própria narrativa.

Ele dirigiu. O silêncio se instalou. Ela, no banco ao lado, abriu o celular e mostrou mais uma imagem: um rascunho de composição, com formas angulosas, um caos organizado.

— Eu queria te levar no meu ateliê — disse. — E queria ver se você topa… não como “ajuda”, mas como investimento no sentido. Eu preciso fechar a fase um. É tipo… uns quinze mil. Eu posso parcelar, claro. E eu coloco seu nome como apoiador. Isso é lindo. Isso te torna parte de algo maior.

Parte de algo maior. Ele sentiu, pela primeira vez, a palavra “parte” picar. Era exatamente o que buscava: ser parte de algo que não fosse o cansaço da própria vida. Mas havia ali uma mecânica, uma tecnologia de persuasão: ela vendia transcendência e cobrava em parcelas.

Ele olhou para o braço tatuado dela, para as unhas feitas, para o cigarro que ela acendera de novo assim que saíram do salão — “pra aterrissar” — e pensou, com uma clareza desagradável: nada ali era natural, nada ali era frugal, nada ali era contra a indústria. Era contra a indústria quando convinha; era a favor quando trazia conforto ou status. E, sobretudo, era contra a indústria como discurso de charme, como máscara. A máscara de teatro grego que ela usava não era de cerâmica: era de vocabulário. Uma vitrine de shopping center. Como essas marcas que se pretendem descoladas, mas são esnobes e elitistas.

Ele não era ingênuo a ponto de achar que pessoas são coerentes. Ninguém é. A vida não é. Mas percebia, agora, o tipo de incoerência que não é humana, mas estratégica. Interesseira.

Parou o carro num posto e disse que precisava usar o banheiro. Saiu, respirou o ar frio com uma espécie de alívio. No espelho, viu-se com os olhos mais cansados do que lembrava. Não era um homem rejuvenescido: era um homem tentando comprar a própria juventude com a moeda da disponibilidade. Teve vontade de rir de si, mas o riso não veio. Veio uma sobriedade quieta.

Quando voltou, ela estava no carro, mexendo no som, escolhendo uma playlist “pra elevar”. Ele entrou, fechou a porta e, antes de dar partida, falou sem raiva, o que, em certas horas, é mais duro do que qualquer explosão.

— Eu não vou fazer isso.
— Isso o quê? — ela perguntou, com a testa levemente franzida.
— Eu não vou financiar tua fase um. E, sinceramente, eu também não sei por que eu paguei teu cabelo.

Ela abriu a boca para responder, mas ele continuou, para não ser interrompido pelo encantamento:

— Você não precisa de mim. Você precisa do que eu posso pagar. E eu… eu não quero ser isso.

Ela ficou imóvel por alguns segundos. Depois veio o teatro — não o grego, mas o contemporâneo: performance de ofensa e vitimização.

— Nossa… que pesado. Você tá tão denso. Você tá sabotando a gente.
— A gente não existe — ele disse, e a frase saiu como se estivesse esperando havia anos dentro dele, pronta para qualquer ocasião. — Existe um fim de semana. Existe uma fantasia. Existe um homem velho querendo se sentir menino. E existe uma mulher jovem que sabe usar isso.

Ela o chamou de inseguro, de machista, de “presa do sistema”. Disse que ele não suportava uma mulher livre. Ele ouviu sem se defender. Não porque concordasse, mas porque compreendia a técnica: o golpe sempre inclui uma acusação moral contra quem recua. A recusa vira “falta de evolução”. Ele já tinha idade suficiente para reconhecer esse truque.

Levou-a de volta ao sítio em silêncio. Ela desceu sem se despedir, batendo a porta como se fechasse um ciclo espiritual. Ele ficou no carro alguns segundos, olhando a casa pequena que, na véspera, lhe parecera cenário de renascimento. Agora era apenas uma casa pequena, um sítio bonito, uma trilha de mil e quinhentos metros, um riacho frio — e um homem ridiculamente ofegante.

Dirigiu de volta à cidade grande. No caminho, lembrou da esposa com uma estranha ternura sem romance. Não porque a amasse de novo, isso seria invenção confortável, mas porque, ao menos com ela, não havia performance. Havia a secura honesta de uma convivência consolidada. Havia o acordo tácito de quem não se ilude mais e isso, por si, tem uma paz amarga.

Chegou em casa tarde. A esposa estava na sala, lendo qualquer coisa na tela do celular. Olhou para ele sem pressa.

— Como foi o “compromisso”? — perguntou, com voz neutra, sem curiosidade, sem ironia.

Ele hesitou. Não por falta de culpa. Culpa ele tinha, sim, mas por perceber que, ali, a verdade era menos importante do que o funcionamento do pacto.

— Foi… cansativo — respondeu.

Ela assentiu, como quem marca um item na lista.

— Amanhã tem a conta do condomínio. E o carro tá com barulho. Você viu?

Ele viu, naquele instante, com uma clareza quase cômica: voltara não para o amor, mas para a gestão. Para o mundo dos boletos, dos barulhos, das obrigações. Era isso que a vida deles era: uma sociedade de direitos e deveres, com um apartamento no meio, uma história antiga como cláusula geral, e um silêncio funcional como rotina.

Foi ao quarto, tomou banho, deitou-se ao lado dela. Não houve abraço. Não houve briga. Houve apenas um corpo ao lado de outro corpo, como duas presenças que já não fingem ser mais do que são.

Antes de apagar, pensou na palavra “alinhamento”, tão repetida no fim de semana. Talvez alinhamento não fosse chakra nenhum. Talvez fosse isso: parar de mentir para si, reconhecer o próprio tamanho e aceitar que certos rios — por mais cristalinos que pareçam — só servem para lembrar que a água é fria e que a juventude não volta por encantamento.

E, pela primeira vez em muito tempo, dormiu sem a expectativa infantil de que alguém o salvaria.

…………………….
Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é editor do Café Literário, juntamente com Eduardo Martínez. Poeta e contista, além de advogado e professor universitário no Rio de Janeiro.

 

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