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Sobradinho

Um solitário fogão no ponto de ônibus

Publicado

Autor/Imagem:
Eduardo Martínez - Texto e Fogo

Há cenas inusitadas por todos os cantos deste planeta que, até onde me consta, continua redondo, apesar de uns tolos insistirem que é plano. Mas não estou aqui para arrumar pendenga com gente que assimila qualquer bobagem dita por aquele tio sem-noção no grupo do WhatsApp.

Sobradinho, ou melhor, Sobradinho II, um dos lugares bucólicos do Distrito Federal, onde é possível encontrar cavalos, vacas, frangos, aquele porco fujão, além dos simpáticos cães e gatos de rua. É um verdadeiro mundo animal, e que me traz, digamos, certa tranquilidade, quando vou visitar os meus sogros, a Martinha e o Valdir, que não trocam a cidade por nada. E olha que a minha mulher, a Dona Irene, e eu já insistimos para que eles se mudem para Porto Alegre ou alguma cidade praiana.

Pois lá fomos nós fazer uma visita aos pais da minha esposa. Obviamente que levamos a Bebel e a Clarinha, as nossas buldogues, pois somos da opinião que família é família e, por isso mesmo, ninguém pode ficar para trás. Como o papo estava agradável e a comida boa, acabamos ficando até tarde e, não teve jeito, dormimos por lá.

Na manhã seguinte, bem cedinho por sinal, a Clarinha encostou aquele focinho gelado na minha cara. Levei o maior susto. Seja como for, sabia que era hora dela e da irmãzinha darem aquela volta. E lá fomos nós.

Depois de andarmos bastante, vi uma cena inusitada. Aliás, inusitada é pouco. Esdrúxula! Um fogão. Sim, um fogão. Um solitário fogão no ponto de ônibus. Solitário, como se tivesse esperando pelo próximo ônibus, que, até aquele momento, nem sinal.

Observei aquela cena e, caso fosse eu poeta que nem o Daniel Marchi ou a Sarah Munck, faria uma poesia. Mas não, sou prosista. E comecei a imaginar a história por detrás daquele quadro.

Será que o fogão havia sido expulso de casa? O relacionamento com a geladeira teria esfriado? Uma traição! Sim, imaginei um caso entre a geladeira e o micro-ondas. Ou seria com o fogão elétrico?

Cheguei a me aproximar e até cogitei perguntar o motivo de tamanha tristeza. Talvez aquelas seis bocas quisessem desabafar. Todas mudas, murchas, caladas. Desisti, Chamei as meninas e fomos embora.

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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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