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CENAS URBANAS

O poeta (re)cria uma cidade em quatro poemas

Publicado

Autor/Imagem:
Daniel Marchi

VISTAS DA CIDADE I

Passos
Pressa
Presos, em pedaços
As pessoas da cidade
Passam

Perdem posses
Pedem postos
São povo e parte
De um todo caótico
Em que me espalho

Vendo, sem espelho
Partem
Para um lugar sem pranto
Ou para nenhum lugar
Se podem.

VISTAS DA CIDADE II

Os arqueólogos do futuro hão de dizer
Após os cataclismos que varrerão
A débil vida sobre o chão que habitamos
O quanto nossa civilização
venerava deuses estranhos

Era uma civilização implacável

Havia um pobre jovem supliciado
Pendurado a uma estaca cruzada

Antropófagos
Comiam-no junto a um pedaço de pão
E seu sangue
Por vezes acompanhado de uma mulher
Que ensinava a um menino atento
Enquanto um velho de barbas brancas
A tudo observava, calado

Adoravam também a um homem quase nu com um cachorro
E uma mulher chorosa de cabelos compridos

Ainda, a um clérigo respeitável
Cuidando de uma pobre criança

Como dizem os arqueólogos
Dos antigos egípcios
E de seus deuses crocodilos e gatos.

Os arqueólogos do futuro
Nada descobrirão sobre os poetas
Que ficam desperdiçando, em vão, seus versos nas praças
Sem qualquer solenidade ou veneração.

VISTAS DA CIDADE III

Rua fechada
As vozes que vêm dela
Revoltas, protestos
A fúria em forma de vida
Resultado do desmando
Do descaso
Da má política
A polis invadida
A polis maldita
Frações do ar

Um menino carrega
o cartaz de protesto
onde se lê
BASTA!
Há os que clamam por
JUSTIÇA!

Mitos, marginais
Ordens itinerantes
Irmãos sem futuro
Há fome
Há fogo
Há foto
Frações do ar

Escadas intermináveis
Vielas sem saída
Sofrer quotidianamente
Para pagar

Pagar o quê?

Levam-me
Ordenam-se
Prendem-me
a visão é turva

Há futebol
Há carnaval
Há males que não são vistos

— É ponto facultativo.

O povo está feliz.

VISTAS DA CIDADE IV

Ocaso íntimo

Estavam
em simbiose

Era um caso
de mútua admiração?

Saindo de seus casulos
Viam-se
não como estranhos
mas como irmãos
acostumados

Iam da primeira
Para a terceira pessoa

Riam e faziam
confidências

Histórias cifradas

Horas preocupadas
despedaçavam-se
e juntavam suas partes

A chave e a fechadura

Respiravam e partilhavam
os mesmos pulmões
os pulmões
maltratados deste mundo

Um dia apenas
que já está distante

No outro
eram apenas estranhos
em lados opostos da cidade.

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Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é editor-executivo de Notibras, poeta, advogado e professor. Autor dos livros “A Verdade nos Seres” e “Território do Sonho”.

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