CENAS URBANAS
O poeta (re)cria uma cidade em quatro poemas
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VISTAS DA CIDADE I
Passos
Pressa
Presos, em pedaços
As pessoas da cidade
Passam
Perdem posses
Pedem postos
São povo e parte
De um todo caótico
Em que me espalho
Vendo, sem espelho
Partem
Para um lugar sem pranto
Ou para nenhum lugar
Se podem.
VISTAS DA CIDADE II
Os arqueólogos do futuro hão de dizer
Após os cataclismos que varrerão
A débil vida sobre o chão que habitamos
O quanto nossa civilização
venerava deuses estranhos
Era uma civilização implacável
Havia um pobre jovem supliciado
Pendurado a uma estaca cruzada
Antropófagos
Comiam-no junto a um pedaço de pão
E seu sangue
Por vezes acompanhado de uma mulher
Que ensinava a um menino atento
Enquanto um velho de barbas brancas
A tudo observava, calado
Adoravam também a um homem quase nu com um cachorro
E uma mulher chorosa de cabelos compridos
Ainda, a um clérigo respeitável
Cuidando de uma pobre criança
Como dizem os arqueólogos
Dos antigos egípcios
E de seus deuses crocodilos e gatos.
Os arqueólogos do futuro
Nada descobrirão sobre os poetas
Que ficam desperdiçando, em vão, seus versos nas praças
Sem qualquer solenidade ou veneração.
VISTAS DA CIDADE III
Rua fechada
As vozes que vêm dela
Revoltas, protestos
A fúria em forma de vida
Resultado do desmando
Do descaso
Da má política
A polis invadida
A polis maldita
Frações do ar
Um menino carrega
o cartaz de protesto
onde se lê
BASTA!
Há os que clamam por
JUSTIÇA!
Mitos, marginais
Ordens itinerantes
Irmãos sem futuro
Há fome
Há fogo
Há foto
Frações do ar
Escadas intermináveis
Vielas sem saída
Sofrer quotidianamente
Para pagar
Pagar o quê?
Levam-me
Ordenam-se
Prendem-me
a visão é turva
Há futebol
Há carnaval
Há males que não são vistos
— É ponto facultativo.
O povo está feliz.
VISTAS DA CIDADE IV
Ocaso íntimo
Estavam
em simbiose
Era um caso
de mútua admiração?
Saindo de seus casulos
Viam-se
não como estranhos
mas como irmãos
acostumados
Iam da primeira
Para a terceira pessoa
Riam e faziam
confidências
Histórias cifradas
Horas preocupadas
despedaçavam-se
e juntavam suas partes
A chave e a fechadura
Respiravam e partilhavam
os mesmos pulmões
os pulmões
maltratados deste mundo
Um dia apenas
que já está distante
No outro
eram apenas estranhos
em lados opostos da cidade.
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Daniel Marchi (@prof.danielmarchi) é editor-executivo de Notibras, poeta, advogado e professor. Autor dos livros “A Verdade nos Seres” e “Território do Sonho”.