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Vozes da Literatura

Uma conversa com Everton Viesba sobre literatura e afetividade

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Autor/Imagem:
Maria Amália Alcoforado - Foto Arquivo Pessoal

Em um mundo saturado por narrativas rápidas, consumo digital imediato e distorções da pós-verdade, a literatura de Everton Viesba surge como um ato de resistência e desaceleração. Transitando com precisão entre o rigor da observação quase jornalística e a liberdade da invenção ficcional, o escritor utiliza sua bagagem como educador e leitor crítico para tecer uma densa filosofia do cotidiano. Suas páginas não buscam respostas fáceis; antes, investigam como as pessoas sofrem, resistem e permanecem humanas em meio às contradições urbanas.

Na entrevista a seguir para a coluna Vozes da Literatura, Viesba destrincha o seu processo criativo, revelando como grandes nomes — de Machado de Assis e Castro Alves a Rubem Alves e Marilena Rosalen — moldaram sua bússola moral e seu olhar lapidado. O autor também discute o papel da crônica hoje, os limites da técnica na maturidade do escritor profissional e a importância vital do fortalecimento de coletivos e redes de apoio no mercado editorial contemporâneo. Uma leitura indispensável para quem enxerga a palavra como compromisso e empatia.

Como a sua bagagem como leitor de grandes clássicos molda diretamente a sua voz na escrita criativa, e de que forma ler criticamente ajuda a destravar o seu próprio processo de criação?

A leitura dos clássicos me ensinou que a literatura se fixa em nós quando consegue tocar aquilo que é humano — o sentimento, a emoção. Machado de Assis, por exemplo, em textos como Um Apólogo, mostra que uma grande reflexão pode nascer de uma situação aparentemente simples. Uma agulha, uma linha, um diálogo breve, e de repente estamos diante de uma crítica fina sobre vaidade, utilidade, reconhecimento e relações de poder. Isso me marcou aos 12 anos e segue hoje aos 33.

Ler criticamente me ajuda a destravar a escrita porque me ensina a olhar melhor, não só admirar os autores, mas perceber como constroem sentidos, como conduzem o silêncio, como escolhem uma palavra e não outra. Machado me ensinou a ironia e a precisão; Cecília Meireles, a delicadeza e a profundidade; Castro Alves, a força da palavra diante da injustiça; Rubem Alves, a capacidade de unir pensamento, beleza e educação. Quando escrevo, essa bagagem não aparece como imitação, mas como formação do olhar.

“A minha escrita é composta por uma filosofia do cotidiano”

A literatura contemporânea frequentemente flerta com a filosofia. Quais grandes pensadores ou correntes filosóficas servem de bússola moral e existencial para os conflitos que você desenvolve em suas páginas?

A minha escrita é composta por uma filosofia do cotidiano. Interessa-me muito a pergunta sobre como as pessoas vivem, sofrem, resistem, aprendem e permanecem humanas em meio às contradições do mundo. Paulo Freire é uma das minhas maiores referências. A Pedagogia do Oprimido e a Pedagogia da Autonomia não são, para mim, apenas obras pedagógicas, mas também obras éticas e literárias, porque tratam da liberdade, da escuta, da dignidade e da esperança como práticas cotidianas. Também me inspiro em autoras e autores que pensam a educação como experiência afetiva, prática e cotidiana. Marilena Rosalen, por exemplo, me ajuda a compreender que a afetividade no ensino não é mero discurso sensível, mas uma prática diária, feita de presença, cuidado, responsabilidade e compromisso com o outro. Essa perspectiva aparece na minha escrita quando observo pequenos gestos, relações aparentemente comuns e conflitos que revelam o modo como nos formamos na convivência.

Diante da hegemonia das mídias digitais e do consumo rápido de informação, qual é o espaço e a relevância da crônica urbana hoje, especialmente se comparada ao tempo de mestres como Rubem Braga e Drummond?

A crônica urbana continua necessária justamente porque vivemos em um tempo acelerado demais. Ela nos devolve a possibilidade de reparar enquanto as mídias digitais muitas vezes nos empurram para o consumo imediato, a crônica nos convida a permanecer diante de uma cena: uma feira de livros, uma mesa de café, uma conversa, uma fila, um gesto mínimo de gentileza ou indiferença. Rubem Braga e Drummond escreveram em outro tempo histórico, mas a força da crônica permanece porque a cidade continua produzindo espantos. O que mudou foi o ritmo da circulação, isto é, hoje, a crônica precisa disputar atenção com vídeos curtos, manchetes rápidas e algoritmos. Ainda assim, ela guarda uma característica singular: transformar o banal em experiência. A crônica é quase um ato de resistência contra a pressa. Ela nos lembra que a vida não cabe apenas no registro apressado.

Sendo a literatura e o jornalismo historicamente entrelaçados no Brasil, como você equilibra o rigor da observação dos fatos com a liberdade da invenção ficcional na sua produção literária?

Eu parto muito da observação, né. Há algo de jornalístico no modo como registro o mundo, aliás, como esboço meus rascunhos do mundo… presto atenção às cenas, aos detalhes, às falas, aos comportamentos, às contradições. Mas, quando esse material entra na literatura, ele deixa de ser simples relato e passa a ser elaboração. A fidelidade, nesse caso, não é sobre o fato bruto, mas à verdade humana que ele revela. A invenção ficcional me permite ampliar sentidos, proteger pessoas e criar camadas. Nem tudo precisa ter acontecido exatamente como está no texto, mas aquilo que o texto procura dizer precisa ser verdadeiro em termos humanos. Machado de Assis fazia isso com maestria: partia de situações reconhecíveis e as convertia em crítica, ironia e pensamento. Esse é um equilíbrio que me interessa muito: observar com rigor, escrever com liberdade e não trair a dignidade da experiência que originou a narrativa.

“A palavra poética pode carregar beleza, mas também indignação”

Escrever ficção em tempos de pós-verdade impõe novos limites. Como a literatura pode atuar como um refúgio da verdade humana ou uma ferramenta de denúncia em um mundo saturado de narrativas distorcidas?

Entendo e defendo que a literatura não disputa com a pós-verdade no mesmo campo… Ela não precisa gritar mais alto, nem fingir neutralidade absoluta. Sua força está em revelar aquilo que as narrativas distorcidas tentam apagar: a complexidade humana, a dor, a memória, a contradição, a delicadeza e a responsabilidade. Castro Alves é uma referência importante nesse sentido, porque mostra que a literatura também pode ser denúncia. A palavra poética pode carregar beleza, mas também indignação. Paulo Freire, por sua vez, ensina que não há palavra verdadeira que não seja também práxis, reflexão e ação sobre o mundo. Assim, a literatura pode ser refúgio, mas não como fuga. Ela é refúgio no sentido de lugar onde reorganizamos a consciência e reencontramos alguma honestidade diante da vida.

O domínio das técnicas específicas de cada gênero textual liberta ou aprisiona a criatividade? Como o conhecimento formal de estrutura diferencia um autor amador de um escritor profissional?

A técnica liberta quando deixa de ser uma prisão e passa a ser instrumento, naturalmente, conhecer estrutura, ritmo, ponto de vista, construção de personagem, tensão narrativa ou síntese poética não diminui a criatividade. Ao contrário, oferece caminhos para que a intuição encontre forma. A diferença entre um autor amador e um escritor mais maduro não está só no talento, mas na consciência do próprio fazer. O escritor revisa, corta, reorganiza e aceita que a primeira versão raramente é a melhor. Rubem Alves, por exemplo, tinha uma escrita aparentemente simples, mas profundamente trabalhada. A leveza, quando é boa, costuma ser resultado de muito rigor. A técnica não mata a emoção; ela impede que a emoção se perca.

Como você define o seu “lugar de fala” na literatura atual e de que maneira essa posição influencia a receptividade, as críticas e a conexão emocional com o seu público leitor?

Meu lugar de fala é a educação, pela leitura, pela experiência editorial, pela vida urbana e pela convivência com professores, autores e pessoas que escrevem a partir de suas próprias travessias. Não escrevo de um lugar neutro, mas escrevo como alguém que acredita na palavra como forma de presença, elaboração e responsabilidade. Esse lugar influencia diretamente minha relação com os leitores. Muitos se aproximam dos meus textos porque reconhecem neles cenas do cotidiano, angústias comuns, memórias afetivas e perguntas que também carregam. A conexão emocional nasce daí: de uma escrita que não pretende se colocar acima da vida, mas dentro dela. Escrever, para mim, é também escutar.

“A literatura não se sustenta pela genialidade individual”

O escritor Daniel Machi afirma que os autores precisam abandonar o egoísmo de querer aparecer individualmente em prol de algo maior, que é a própria literatura, criando redes de apoio mútuo para se fortalecerem e ganharem visibilidade. Você concorda com essa visão sobre o papel do coletivo no mercado editorial?

Concordo muito. A literatura não se sustenta pela genialidade individual, se fosse assim, estaríamos vivendo outros tempos a partir da genialidade de Machado e tantos outros. A literatura depende de redes, encontros, leitores, editoras, eventos, revistas, coletivos, professores e espaços de circulação. A ideia de autoria isolada é sedutora, mas limitada, mesmo quando escrevemos sozinhos, somos formados por muitas vozes. Minha trajetória na educação e no campo editorial reforça essa compreensão. Paulo Freire já nos ensinava que ninguém se forma sozinho. A formação é sempre relação. Na literatura, isso também é verdadeiro. Fortalecer outros autores não diminui a nossa própria voz, pelo contrário, amplia o campo literário. Quando um autor ajuda outro a existir publicamente, quem ganha é a própria literatura.

Escrever costuma ser um ato solitário, mas as oficinas de escrita criativa e os grupos de coletividade têm crescido. Como a troca de experiências e o feedback desses espaços impactam o refinamento dos seus textos?

A escrita tem uma dimensão solitária, mas ela não precisa ser solitária o tempo todo. Há um momento em que o texto precisa encontrar outros olhos. A troca, quando é feita com cuidado e honestidade, ajuda o autor a perceber excessos, lacunas, repetições e possibilidades que talvez ele não enxergasse sozinho. Na educação, aprendemos que o diálogo não é apenas conversa, mas método de construção de conhecimento e na escrita acontece algo semelhante. O feedback qualificado não deve apagar a singularidade do autor, mas ajudá-lo a chegar mais perto daquilo que deseja dizer. Uma boa leitura crítica não impõe uma voz externa; ela ajuda o texto a encontrar melhor a sua própria voz.

O escritor Eduardo Cesario-Martínez defende uma visão otimista de que a melhor geração de escritores é a atual, e que as futuras serão ainda melhores graças à democratização da escrita pela internet. Como você enxerga esse impacto da tecnologia na qualidade da nova produção literária?

Vejo a tecnologia com esperança e cautela. A internet democratizou o acesso à escrita, à publicação e à circulação de textos. Pessoas que antes dificilmente encontrariam espaço em editoras tradicionais hoje podem publicar, formar leitores, participar de comunidades e construir trajetórias autorais. Isso é muito importante. Mas democratizar a escrita não significa automaticamente qualificar a escrita. A tecnologia amplia possibilidades, mas o trabalho literário continua exigindo leitura, revisão, repertório, escuta e maturidade. Paulo Freire falava da importância da autonomia, mas autonomia não é espontaneísmo. Na literatura, também é assim, a internet abriu portas; cabe a cada autor atravessá-las com responsabilidade estética, ética e humana. IA pode ajudar, mas nem de longe a ferramenta deve te substituir.

“Escrever me ajuda a organizar angústias, afetos, memórias e inquietações”

A escrita criativa é um espelho ou uma fuga? De que forma o seu trabalho literário funciona como uma ferramenta de diálogo interno com as suas próprias angústias e, ao mesmo tempo, de debate com os problemas do mundo?

Para mim, a escrita é mais espelho do que fuga. Mas não um espelho imóvel, um espelho que devolve perguntas, desloca certezas e às vezes mostra aquilo que eu mesmo ainda não tinha conseguido nomear. Escrever me ajuda a organizar angústias, afetos, memórias e inquietações. Ao mesmo tempo, a escrita não termina em mim. Ela se abre para o mundo. Quando escrevo sobre uma cena cotidiana, muitas vezes estou falando também de desigualdade, pressa, solidão, trabalho, educação, vínculos, perdas e esperanças. Cecília Meireles me inspira muito nesse sentido: há nela uma delicadeza que não é fragilidade, mas profundidade. A escrita pode ser íntima e, ao mesmo tempo, pública. Pode nascer de uma dor pessoal e dialogar com uma dor coletiva.

Muitos autores constroem carreiras polímatas, dividindo-se entre outras profissões (como a ciência, o direito ou a educação) e as letras. Como a sua atuação fora das páginas alimenta a profundidade e a diversidade temática dos seus cenários e personagens?

A minha atuação na educação, na pesquisa, na formação de professores e no campo editorial alimenta minha escrita. A sala de aula, os eventos, os livros, os encontros com autores, as conversas com professores e estudantes, tudo isso forma um grande laboratório humano. Não no sentido frio da observação, mas no sentido vivo da experiência. A educação me ensinou a escutar histórias; a pesquisa me ensinou a olhar com método; a edição me ensinou a respeitar a voz do outro… Essas dimensões entram na literatura porque ampliam meu repertório de cenas, conflitos e personagens. Muitas vezes, a literatura nasce justamente desse cruzamento entre o vivido, o pensado e o sentido.

O mercado editorial atual exige que o autor seja também o seu próprio divulgador nas redes sociais. Como criar uma presença digital autêntica e engajar leitores sem deixar que as métricas de internet corrompam a essência e a profundidade da sua literatura?

Esse é um dos grandes desafios do autor contemporâneo. As redes sociais podem aproximar leitores, divulgar obras e criar comunidades muito bonitas em torno da literatura. Mas também podem produzir ansiedade, comparação e uma busca permanente por validação imediata. Acredito que a presença digital precisa ser extensão da voz literária, não sua substituição. O autor pode divulgar seu trabalho sem se transformar em refém das métricas. É preciso lembrar que curtidas não são necessariamente leitura profunda, e alcance não é sinônimo de permanência. Prefiro pensar as redes como espaço de encontro, não apenas de performance. A literatura precisa circular, mas não pode perder sua alma tentando agradar ao algoritmo.

Pensando nos espaços democráticos de publicação, como o Café Literário ou portais de jornalismo cultural, qual a importância desses canais na oxigenação do mercado e na revelação de novos talentos que enfrentam barreiras nas grandes editoras?

Esses espaços são fundamentais, afinal, oxigenam o mercado porque criam alternativas de circulação, visibilidade e reconhecimento. Muitos autores não chegam às grandes editoras não por falta de qualidade, mas por falta de acesso, rede, oportunidade ou enquadramento nos interesses comerciais do momento. Portais de jornalismo cultural, cafés literários, revistas, coletivos e editoras independentes cumprem um papel democrático importante. Eles ampliam a conversa literária e permitem que novas vozes sejam lidas. Como editor e autor, acredito muito nesses espaços intermediários, que aproximam quem escreve de quem lê. A literatura precisa de grandes casas, mas também precisa de janelas, varandas, praças e mesas compartilhadas.

“Escrevo porque acredito que as palavras ainda podem criar pontes”

Para encerrarmos, se você pudesse escolher apenas uma única mensagem, angústia ou reflexão para imortalizar na mente de quem lê a sua obra hoje, qual seria?

Talvez eu quisesse deixar a ideia de que permanecer humano é uma tarefa cotidiana… Se uma pessoa terminasse de ler um texto meu e sentisse vontade de olhar melhor para a vida, para alguém ou para si mesma, eu já consideraria que a literatura cumpriu algo importante. Escrevo porque acredito que as palavras ainda podem criar pontes. E, em alguma medida, sigo aprendendo com Machado, Freire, Cecília, Castro Alves, Rubem Alves e tantos outros que escrever também é uma maneira de cuidar do mundo.

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Everton Viesba é professor, escritor, editor e pesquisador na área da Educação. Mestre em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e doutorando em Educação, atua com formação docente, educação ambiental, sustentabilidade, tecnologias educacionais e redes de colaboração. É líder da Rede Movimentos Docentes e editor na V&V Editora, com ampla experiência na organização de obras acadêmicas, literárias e educacionais. Sua escrita transita entre a crônica, a reflexão pedagógica e a literatura do cotidiano, marcada pelo olhar sensível para as relações humanas, a vida urbana, a educação e os pequenos acontecimentos que revelam a complexidade do mundo. Ocupa a Cadeira 13 da Academia de Letras do Brasil, seccional Santo André. 

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