Curta nossa página


Beatriz fabulosa

Uma estrela muito especial

Publicado

Autor/Imagem:
Gilberto Motta - Texto e Foto

*Nos últimos anos tenho trabalhado num pequeno livro ainda inédito – em produção editorial – inspirado em histórias e fábulas contadas por minhas duas filhas, Maria Fernanda e Sofia, que me lembro do tempo da primeira infância delas. Hoje estão crescidas, adultas e seguindo as suas jornadas pela vida. Criei, então, a personagem Beatriz, Bea, menina de uns sete, oito anos e sua amiga inseparável, Alpha, a Estrela D’alva. São pequenas crônicas despretensiosas, algumas já publicadas aqui no Café Literário. O livro começa com essa crônica, “Uma Estrela Muito Especial”. São crônicas da menina Beatriz/Bea, ora pequena, ora adulta em lembranças… Nome do futuro livro, “Variações Sobre a Língua dos Anjos”.

[…] Eu devia ter uns quatro anos quando meus pais perceberam que eu era criativa e especial. Desse tempo, lembro-me de sonhos e narrativas bem maluquinhas. Fui crescendo e meus pais ouvindo minhas histórias com toda atenção e cumplicidade. Jamais me desanimaram quanto a eles. Ao contrário, eles sempre foram a favor dos sonhos e me incentivaram a tê-los e a lutar para que eles se realizassem.

— Sabe, filha, está vendo aquela estrela? –disse meu pai certa noite.

— Qual, pai?

— Aquela mais brilhante… Lá… Aquela pode ser sua estrela!

Lembro-me de o pai dar uns toques que fui entender tempos depois.

— Será a sua estrela. Então coloque seu sonho nela. Faça uma viagem imaginária e deposite tudo lá na superfície brilhante. Depois, finque uma bandeira com seu nome, como os astronautas fizeram quando chegaram à Lua. Entendeu, filha?

— Entendi, pai! Isso significa que os meus sonhos vão se realizar?

— Se você acreditar de verdade, tudo indica que sim. O importante é você desejar e lutar por seus sonhos. Mas tem uma condição: todas as noites olhe bem firme para sua estrela e pense no sonho que está plantado lá.

— Como se eu estivesse colocando água no meu sonho com um regadorzinho amarelo, né pai?

— Isto, filha, alimentando, mas alimentando todos os dias.

Então me acostumei a sonhar. Era só querer; cada desejo eu colocava nas mãos de Alpha, o nome que dei para a minha estrela. Nunca perguntei a mim mesma por que dei esse nome a ela. Gostei de Alpha –acho que é grego- e pronto: ficou!

Entre mim e Alpha há absoluta confiança; cumplicidade mesmo: ela sabia tudinho sobre mim, e eu… Bem, eu só sabia o endereço dela. E tem coisa mais “massa” que saber o endereço de alguém de quem você gosta?

Às vezes eu me irritava com Alpha, porque ela fingia ter esquecido um ou outro pedido meu. Em compensação, quando lembrava, eu lhe prometia mil e uma coisas: um céu azul ao invés da escuridão do universo, um chapéu novo para cada uma de suas pontas, todas elas cintilantes. Uma vez cheguei a prometer pra ela um jeito dela aparecer num comercial da televisão; um comercial de xampu. Eu mesma inventei o texto. Qualquer coisa assim:

“Estrelas que brilham usam Estrelex”… Daí era só dar uma voltinha, piscar os olhos e as meninas do mundo inteiro ficariam morrendo de inveja!

Minha estrela Alpha tinha certeza de uma coisa: eu só não abriria mão do sonho que tinha plantado nela. Isso nunca! Nunquinha mesmo! Ela que não fosse louca de não me ajudar! Outro detalhe ficou muito claro entre a gente: desejo era uma coisa, sonho era muitíssimo mais. Eu até podia ceder quanto aos desejos, mas quanto aos sonhos nem morta!

E assim a gente ia rolando papo, tocando a vida e frequentemente alguém nos surpreendia:

— Falando sozinha, Bea?

— Tô falando com a Alpha.

— Com quem?

— Ah! Esquece…

Se eu contasse não ia adiantar mesmo! Então eu ficava com a melhor companheira que alguém poderia imaginar: eu mesma! Não que eu fosse uma menina solitária. De jeito nenhum. Apenas por ser um pouco precoce e egoísta, pensava que não havia necessidade de dividir algumas coisas com ninguém. Meus sonhos, por exemplo, até hoje são só meus. Mas, estranhamente, tenho a impressão que meus pais sabem tudo sobre eles. Mas, talvez seja apenas impressão…

ENFIM, MAIO!

Acordei com um olho no calendário. O outro, na janela do quarto para ver o Sol.

Então confirmei que, enfim, o primeiro dia de maio despertava comigo de forma luminosa e elétrica: muito massa! Os outros meses do ano passam como foguetes. Mas maio, não: parece sempre nunca chegar!

Corri para o banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes e espantei o soninho que teimava em me atormentar. Aí o dia começou pra valer. E era, enfim, o primeiro dia de maio!

Filha única, quase seis anos, eu era a princesa da casa, ou melhor: a rainha absoluta do apartamento. Naquela manhã, o papai saiu mais cedo para o trabalho. Nossa… Eu estava sozinha, sem ninguém pra me dizer o que fazer. Na verdade, eu sabia que mamãe estava dormindo, pois trabalhou no doutorado da universidade até tarde da noite anterior e tinha o direito de acordar mais tarde. Nem notei direito a falta do papai.

As coisas de casa ficavam para a mamãe, por mais que eu desse uma forcinha apesar de ainda pequenina. Tínhamos a D. Cida, a faxineira, que vinha uma vez por semana pra fazer o que minha mãe chamava brincando de “limpeza geral do lixão”. Cida era a nossa salvação.

Eu tinha peninha da mamãe, que, mesmo se esforçando, não conseguia manter a pose das outras mães que eu conhecia. A mãe da Júlia, por exemplo, parecia atriz de novela, com aquele cabelo todo cheio de brilhos e colares e roupas de shopping. Mamãe não era assim. Ela era ativa o tempo todo. Fazia e trabalhava no doutorado e ainda tinha de cuidar de mim e da casa. Então, estava sempre com o mesmo tênis, a calça jeans, as camisetas de todos os dias e aquele cabelinho amarrado na nuca. Mamãe não era dada a frescuras e sempre me ensinou a valorizar mais o que a gente tem dentro da cabeça e do coração do que fora dela, mas o fato é que ela estava sempre com aquele ar cansado, o rosto pálido e pesquisando no computador.

Fui até a cozinha e comecei a arrumar a mesa para o café.

E lá veio minha mãe.

— Bom dia filha querida! Você acordou mais cedo hoje? –perguntou ela ainda de olhos fechados.

— Claro, né! Já é maio! –respondi animada.

— O mês do seu aniversário…Não esqueci, filha!

— Vamos lá, Mãe, pode deixar que eu arrumo a cama pra você.

— Obrigada, meu amor! Vou tomar um banho rápido; tenho reunião na universidade daqui a pouquinho. Você já está prontinha para a escola, certo? Parabéns!

Tadinha da mamãe, sempre correndo com a bolsa cheia de livros, tomando café “pelo nariz”, atrasada e com alguma pesquisa por fazer. Eu tinha que ajudar, não é verdade?

— Mas você não vai nem comer o mamão, Mãe? –perguntei lamentando.

— Não dá tempo, filha! Tomo um suco na lanchonete lá.

Peguei minha mochila “com rodinhas”, a lancheira e resolvi perguntar antes que mamãe abrisse a porta do apartamento para sairmos.

— E o papai?

— Foi mais cedo para o trabalho e vai almoçar por lá mesmo.

Respondeu sem muito ânimo, mas eu já estava acostumada com o jeito de mamãe, poucas palavras e então fomos.

Quando falo do jeito calado de minha mãe, preciso deixar claro que não é uma coisa ruim, nada, nada não. Eu seria injusta. Na verdade, é o jeitão dela, mas ninguém sabe dar tanto carinho quanto ela.

Papai é diferente. Meio “maluquinho”, sempre colorido, festeiro e inventando estripulias. Fala sobre tudo, sabe de tudo e se comunica como pouca gente que conheço. É o melhor contador de histórias e construtor de castelos de areia que já vi em toda a minha curta vidinha. Ele sempre “bagunça o pedaço”. É, eu me identifico com ele. Minha mãe diz sempre que “eu sou ele de saias, com cinco anos, com cabelos compridos, loirinhos e cacheados”. O meu pai é “meu pai” e também o “pai de minha Estrela Alpha”. Já falei pra você da Alpha, né?… Então. E vamos em frente que é mês de Maio, meu aniversário!

Estou ficando velha demais…imagina só: dia 26 farei 7 anos!!!! Uau… Pode?

…………………

*Nota do autor: Nas próximas edições aqui do Café Literário, sempre que possível publicaremos mais uma crônica contada pela Beatriz, a Bea, tá. Até lá!

Gilberto Motta é escritor, jornalista, pesquisador das redes sociais, aposentado na comunicação da universidade e louco pelas his/estórias de Bea. Vive na Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.