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Cinema & Memória

Uma oração para Luis Armando

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Autor/Imagem:
Brígida de Poli - Texto e Fotos

Tenho lido nas redes sociais alguns comentários indignados com o sucesso internacional de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Fº, por tratar-se de “ mais um filme sobre a ditadura”. “Patriotas” alegam que o cinema brasileiro explora demais o tema. Na realidade, nossos vizinhos que também viveram décadas sob o regime militar, têm um número muito maior de produções a respeito. Argentina e Chile, diferentemente do Brasil, não jogaram os horrores dos anos de chumbo para debaixo do tapete. Mesmo com a população dividida – polarização é do jogo político – os dois países mantêm vivas as terríveis lembranças daquele período. No cinema chileno há, no mínimo, dez filmes importantes sobre o autoritarismo que durou de 1973 a 1990.

Nesta crônica divido com o leitor uma experiência vivida em Santiago do Chile sobre a importância da memória, não para remoer a dor, mas para evitar que algo assim se repita. Dedico-a à família de Luis Armando Valenzuela Figueroa e a de todos os que, tragicamente, ilustram o calçamento em frente à casa amarilla da rua Londres, 38.

(B.)

Não conheci Luis Armando pessoalmente. Soube dele quando eu passeava pelas ruas de Santiago do Chile, muito alegre e curiosa, como costumamos ficar quando estamos viajando. Caminhava pelas ruas Paris-Londres na continuidade do bairro Lastarria, o mais charmoso da cidade, com seus animados bares e restaurantes, quando notei no calçamento as placas com nomes.

Parei diante da bela casa amarela, localizada no n° 38, para tentar entender do que se tratava. Na parede, um mosaico explicativo: Centro Secreto de Detención, Tortura, Desaparición y Extermínio – 1973 a 1975. Pesquisei na hora e descobri que ali tinha funcionado a sede do Partido Socialista do Chile até o golpe, militar que culminou com a morte do presidente Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. Ao tomarem o poder, os militares transformaram o prédio em centro de reclusão clandestina da DINA – Diretoria de Inteligência Nacional, a polícia política chilena encarregada de combater oposicionistas ao novo regime.

Olhei para meus pés sobre a placa e li nela o nome de Luis Armando Valenzuela Figueroa, 23 anos. Entendi então que ele era um dos mil e cem aprisionados naquele sobrado, onde foram oficialmente assassinados ou dados como desaparecidos noventa e seis jovens, entre eles duas mulheres grávidas. Chocada, quase em transe, fotografei a placa de ferro fundido com o nome de Luis Armando, uma entre noventa e cinco.

Olhando as inscrições notei que todos os mortos tinham menos de trinta anos de idade. Eram, em sua maioria, estudantes ligados a algum partido de esquerda, corrente política que assumira o governo chileno através de Salvador Allende, em 1970.

Desconheço detalhes da vida de Luis Armando, mas descobri que ele foi arrancado de casa pela DINA, junto com seu padrasto e levado para aquela que seria chamada mais tarde de “a casa do terror”. Também era conhecida como “ la casa de las campanas” por estar próxima da Igreja San Francisco e o toque dos sinos serem a única ideia de localização que os detidos, levados vendados até lá, tinham para saber onde estavam. Naquele prédio em frente ao qual eu me encontrava, Luis fora torturado, morto e dali teve seu corpo levado embora para algum lugar incerto e não sabido.

Pensei logo no desespero da mãe dele, da esposa – apesar de tão jovem, consta dos documentos onde pesquisei que Luis Armando era casado – na angústia de seus tios, primos e amigos, buscando notícias de alguém que jamais voltaria para casa.

O governo militar de Augusto Pinochet negou a existência desse centro clandestino de detenção e tortura durante muito tempo e chegou a trocar o número do prédio de 38 para 40, mas, desde 2010, a casa amarela virou “Monumento Histórico do Chile”, um memorial e museu aberto ao público.

Entendi ser uma forma, não de alimentar a dor, mas de criar mecanismos para que no se olvide y no dejes que vuelva a suceder.

A mim, a turista que caiu em prantos no meio da rua Londres ao tomar conhecimento dos horrores praticados naquele local, coube fazer uma oração ao jovem Luis Armando Valenzuela Figueroa que não conheci, mas poderia ter sido filho de algum amigo, meu sobrinho, meu filho…Enquanto eu rezava baixinho, os sinos da Igreja San Francisco começaram a tocar.

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