O frágil gigante
Uma reflexão sobre a formação do masculino
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Hoje escrevo aos homens. Esta é uma reflexão fundamentada em anos de observação, leituras e análises comportamentais. O ponto de partida foi um encontro, há alguns anos, com um homem que se tornou o catalisador dos meus estudos.
Conhecemo-nos no ambiente de trabalho. A princípio, uma amizade cordial, embora certas nuances já denunciassem que algo fugia à normalidade. Em pouco tempo, surgiram as piadas depreciativas — aquelas “brincadeiras” que carregam a função velada de diminuir a mulher, especificamente a mim. Vieram também as autoafirmações constantes: a gabolice sobre o próprio corpo, o inventário de conquistas amorosas e a narrativa de que todas eram inevitavelmente seduzidas por ele.
Eu o observava e via, por trás da carapaça, uma fragilidade latente. Entendi que as interrupções constantes eram, na verdade, uma incapacidade de sustentar um diálogo em nível intelectual equivalente. Há, contudo, um fator agravante: a crença atávica na superioridade masculina.
O homem educado sob o dogma de que é superior pelo simples fato de ser homem, ao confrontar-se com uma mulher que ele reconhece como igual ou superior, não sabe lidar com a própria vulnerabilidade. Certa vez, exausta das tentativas de depreciação, revidei. Atingi seu ego e o vi adoecer por dias. O diagnóstico foi perturbador: como alguém com um ego tão inflado pode ser, simultaneamente, tão inseguro?
Percebi que essa patologia não é direcionada apenas às mulheres. Em discussões entre homens, o que se vê frequentemente são comportamentos que remetem a crianças de oito anos — uma ausência de argumentos e uma incapacidade absoluta para o debate maduro. E isso nos leva à pergunta inevitável: onde estamos errando na formação de nossos meninos?
Ao nascer, homens e mulheres habitam o mesmo patamar de potencial intelectual e emocional. Durante os primeiros anos, o desenvolvimento é paritário. Contudo, por volta dos sete ou oito anos, as trajetórias divergem drasticamente. É quando o menino começa a internalizar a ideia de superioridade, manifestando os primeiros sinais de aversão ou desejo de submissão ao feminino. Enquanto as meninas são levadas a uma introspecção precoce e ao senso de coletividade, os meninos são empurrados para uma repressão emocional que, muitas vezes, atrofia sua maturidade.
É melancólico observar homens potencialmente geniais aprisionados em uma estrutura onde só lhes restam o grito, o murro ou o bate-boca estéril. A crença na diferença intrínseca entre os gêneros está condicionando o homem a uma incapacidade intelectual e emocional assustadora.
Basta observar a dinâmica das redes sociais. Diante de comentários racistas ou infantis, a resposta imediata de outros é o eco da mesma ignorância. É um ciclo de raciocínio restrito, uma “mente de ervilha” que se multiplica.
Precisamos compreender que essa suposta superioridade é, na verdade, uma cela. Enquanto não repensarmos a base dessa educação, continuaremos a produzir homens emocionalmente analfabetos, incapazes de sustentar o peso da própria humanidade.
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“Apaixonada pela vida em todas as suas formas! Mãe, avó, artesã do crochê e escritora por vocação. Encontro inspiração na natureza e tranquilidade nas trilhas da montanha. Palavras e linhas são minhas ferramentas para criar e compartilhar amor.”
Autora de três livros publicados, colunista e integrante de uma comunidade literária.
Atualmente reside em Cachoeiro de Itapemirim-ES.