Curta nossa página


Caveirão

Uma terça-feira aparentemente normal

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Rocha - Texto e Foto

Mais uma terça-feira aparentemente normal.

Antes de sair para o trabalho, olhos atentos aos noticiários locais e às rádios, tentando descobrir onde havia operação…

Até que vejo uma mensagem no Messenger:

— Tia, se você chegar e os “RADINHOS” estiverem na estação, tudo bem. Se não tiver ninguém, não desça! Siga direto no trem.

Estranhei a mensagem. Até então, não tinha ligado o nome à situação.

Sigo para a estação. Ao chegar à determinada localidade, olho atentamente para cima da estação. Estava movimentado.

O trem para. Desembarco e desço as escadas rumo à saída.

A rua, tão movimentada, para do nada.

Em um minuto, cadê as pessoas que estavam na estação?

Sumiram!

Continuei o trajeto das santas terças. Afinal, a escola ficava localizada a três esquinas da estação.

A música das caixas de som acopladas aos postes silenciou.

Sigo num silêncio insistente.

Entro na primeira esquina e me deparo com uma mulher arrumada, com as mãos para o alto.

Penso: regra nº 1. Agora, como moradora, nada de correr ou encarar.

Quando passo por ela, vejo um monte de homens armados — e bem armados — como se estivessem revistando-a e gritando com ela.

Sigo para a próxima esquina, onde entro à esquerda, já na rua da escola.

Olho de leve para trás.

Ninguém.

Ando um pouco mais rápido e me deparo com o “CAVEIRÃO” descendo a rua e atirando.

Não sabia, mas o carro corre!

Eu nunca tinha visto aquele bicho correr. Sempre devagar, quase parando. Aquela aparência pesada me fazia pensar que algo não sairia bem.

Antes que pudesse voltar à minha consciência, o carro já estava bem mais próximo e abaixo da metade da rua que dá acesso à famosa “Taquaral”.

Minhas pernas congelam.

Não sinto nada.

Por um segundo, escuto:

— Corre, tia!

Um senhor que trabalhava na academia da esquina me empurra sobre o muro e grita novamente:

— Corre, tia!

Quando olho, ele está caído no chão.

Uma das mãos sobre a barriga.

Sangrando.

Ele me olha.

Eu corri.

Mas corri muito!

Cheguei ao portão da escola em segundos, gritando, batendo, socando o portão para que abrissem.

Lá vem a tia do apoio, com a maior calma do mundo, catando chaves.

Foi um filme de terror real na minha vida.

Eu andava de um lado para o outro, aguardando o tiroteio acabar.

E não acabava nunca!

O que mais me impressionou é que, em meio ao tiroteio, as crianças não paravam de chegar.

Mas o evento não era em outro ponto da comunidade.

Era na rua da escola!

Eu chorei.

Tive raiva.

Ódio.

Vontade de evaporar.

Mas não tinha nada a fazer.

Só aguardar.

Os únicos caminhos que me fariam sair dali eram exatamente aqueles onde o CAVEIRÃO estava passando para cima e para baixo.

Somente às 15h12, a estação anunciou um trem.

O tiroteio tinha dado uma pausa.

Não me restou outra opção.

Passei a mão nas minhas coisas e meti o pé.

As meninas perceberam que eu estava altamente alterada, mas me deixaram ir.

Minha carne tremia.

Eu estava pálida e quente.

Imagino a minha cara naquele momento.

Segui para casa.

Minha pressão estava em 222/178 e não baixava.

Fui para o hospital.

Fiquei dois dias assim, pois nada melhorava…

Não retornei mais à escola.

Senti muito.

Muito mesmo.

Mas não.

Eu não tenho condições de passar por algo desse tipo de novo.

O tremor ao passar por um CAVEIRÃO ainda continua.

E, por muitas vezes, eu julguei e critiquei como as pessoas conseguiam viver e lidar com situações como essa.

Hoje eu entendo.

A questão é sobreviver nas condições que se pode e se consegue.

Cada um encontra uma maneira de continuar.

Graças a Deus, moro em um lugar tranquilo. Mas o acesso a qualquer outro ponto da cidade, muitas vezes, me faz passar por situações como essa.

Aí você pode se perguntar:

— Então, por que continua trabalhando em comunidade?

Porque muitas das enormes escolas “de nome” não pagam.

E, quando pagam, muitas vezes não oferecem a mínima condição para trabalhar como professor.

Então, a gente vai ficando.

Vai tentando.

Vai sobrevivendo.

Até que, um dia, o corpo diz que não dá mais.

Talvez seja isso que eu tenha aprendido naquela terça-feira aparentemente normal:

“sobreviver não significa estar bem.”

Às vezes, significa apenas conseguir chegar em casa.

E, no meu caso, chegar em casa significou entender que aquela terça-feira acabou há muito tempo.

Mas o corpo ainda não recebeu o aviso.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.