Ninguém é perfeito
Uma versão bem-comportada de um conto pesadito
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Escrevo contos eróticos. Ângela gostou de um deles.
Ela curtiu, agradeci e xavequei legal. Em seguida procurei no Face por ela, vi várias mulheres com o mesmo nome. Pedi amizade à que achei mais atraente – uma jovem negra com um sorriso lindo, radiante –, torcendo para que não estivesse teclando com a gata errada. Mas, graças aos deuses, era ela mesma. Foi assim que começou.
O lance seguinte veio dela: uma mensagem simpática dizendo que adorava meus contos. Respondi gentilmente, elogiando a beleza e em especial o sorriso dela. E lastimando não poder elogiar mais, pois não tinha visto o seu corpo.
– Você quer que mande uma foto? Só de calcinha? Ou nua? – perguntou.
– QUERO!! – respondi babando. Por sorte não estávamos usando vídeo, ela não viu o espetáculo deprimente da baba escorrendo por meu queixo e lambuzando minha barba. Fui em frente:
– Como agradecimento, vou escrever um conto erótico só pra você. – Ela se derreteu toda.
Ela estava nua na foto. Babei de novo com a visão de seus seios lindos e bundinha provocante. Aí fiz a minha parte, convoquei as musas do erotismo e da sacanagem (são moçoilas diferentes) para me inspirarem e mandei ver. Para surpresa minha, o conto saiu melhor que o esperado, tudo sugestivo, com pouquíssimas passagens ostensivas. No mesmo dia, mandei para ela o texto.
Ângela delirou de prazer.
– Nunca ninguém escreveu um conto pra mim antes, tesão (eu fora promovido).
– Você merece muito mais, deusa do erotismo (eu também a promovera). Agora, amor, a gente precisa se encontrar.
– Pensei que você nunca fosse pedir – respondeu com um risinho malicioso.
Outro favor dos deuses: morávamos no mesmo estado, a pouco mais de uma hora um do outro, eu no Rio e Ângela em Nova Friburgo. No dia seguinte, subi a serra fluminense. Havíamos marcado no começo da pracinha central de Friburgo. Parei o carro, desci e a avistei sentada num banco. Corri em sua direção. Ela me reconheceu de imediato.
– Guilherme! – exclamou com um sorriso radioso.
– Ângela! – sorri de volta.
Em seguida nos olhamos, sérios, e começamos a nos beijar.
Ela colou o corpo no meu e pareceu se abandonar em meus braços, mas estava bem ativa, sua língua se enroscava furiosamente na minha. Eu estava quase explodindo de desejo.
Minutos (que pareceram horas) depois, interrompi o beijo para perguntar, em voz rouca:
– Vamos pra um hotel?
– Vamos… – ela sussurrou.
Dez minutos depois, estávamos preenchendo a ficha do hotel. E aí a coisa pegou fogo.
Foi uma transa deliciosa. Findos os trabalhos, desabei, Ângela, porém, queria mais. Inebriada de prazer, os olhos semicerrados, murmurou:
– Agora me pega por trás, Murilo.
Murilo???!!!
Minha expressão mudou, e ela percebeu o que havia dito.
– Ah, que vergonha! Desculpa, amor! – falou sem graça. E explicou. – Murilo é o nome do meu ex, sempre fazíamos por trás, ele gostava e eu adoro.
Coloquei-a de quatro na cama, com alguma brutalidade (mas não muita, no fundo achei engraçado o ato falho) e falei, aparentando severidade:
– Vou pegar sim, vaca traidora. E pode me chamar de Murilo, se isso te der tesão.
Foi o que ela fez. E foi uma delícia.
Então é isso aí. Quando Ângela e eu transamos, na trilogia barba-cabelo-bigode, os dois primeiros episódios correm por conta deste humilde escriba. Mas, pro bigode, o Murilo é simbolicamente convocado (apenas simbolicamente, não gosto muito de festinhas) e pisa na avenida, saudando o público e pedindo passagem.
Fazer o quê? Ninguém é perfeito.