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Livro em branco

Vantagens e desvantagens da vida após a chegada realista da idade da razão

Publicado

Autor/Imagem:
Wenceslau Araújo - Foto Editoria de Imagens/IA

O pior da velhice é essa bagaça de “melhor idade”. Como melhor idade se não consigo mais sequer saber para que serve o bilau? Nada de anormal para quem, às vezes, não lembra mais onde está a caneta. Quando acho a caneta, não sei mais onde coloquei o papel. Quando consigo juntar os dois, perco os óculos. E quando acho os três, já não lembro mais sobre o que ia escrever. Perdão, mas estou vivendo aquela fase da vida em que toda risada sempre vem acompanhada de tosse contínua ou de um pum nada silencioso.

Quando vem a lucidez, aproveito e peço aos amigos e conhecidos para terem a delicadeza de usar um crachá. Apesar dos perrengues naturais do tempo, graças a Deus, estou vivo. Minha adolescência chegou ao fim. E daí? E daí é que, após algumas décadas de vida, quando tento manter minha cara de sexy, as pessoas à minha volta pensam que estou tendo um AVC. E daí é que, quando achei que já sabia de tudo, comecei a esquecer todos os meus segredos. Ou seja, minha vida hoje é um livro aberto.

Normalmente me beneficio das oportunidades para confirmar todos os boatos acerca da brochura. É um mal necessário. Me orgulho de ter vivido todos esses anos sem a necessidade de impor ou sugerir para depois explicar a função da pílula utilizada pelas mulheres quando os homens esquecem o saquinho de sacolé. Isso não é coisa da antiga. Com a idade que tenho, fosse hoje eu diria que o tal comprimidinho do dia seguinte ajuda a digerir o chouriço do dia anterior. Mais didático é impossível. Ainda bem que na minha época não tinha essa porcariada chamada evolução.

O que reafirmo dia após dia é que estou vivendo na relatividade e sou feliz. No meu tempo não havia a Baleia Azul, Betano, tampouco o Tigrinho. Daí que não há provas de minhas besteiras com a vaca amarela. No português de hoje, não há Facebook, Instagram ou X capaz de me indispor com o touro malhado. O tempo passou. Tantos anos valeram para eu descobrir que o homem é igualzinho a uma vassoura: sem o cabo não serve para nada.

Como velho babão, deixei de ser de esquerda ou de direita e passei a ser o centro das atenções na família. Voltando aos perrengues do tempo, passar da idade da razão tem vantagens e desvantagens. Por exemplo, não enxergo mais as letras de perto. No entanto, identifico de longe os falsos profetas e os mentirosos de plantão.  Sem papas e sem força na língua, a esses eu já consigo dizer o que meu avô Aristarco Pederneira me dizia quando soltava alguma besteira: opinião é igual a bunda. Não é porque você tem que precisa dar. Nunca esqueci essa máxima.

Aliás, hoje não dou a mínima para a história de que mais valem pedras no caminho do que nos rins. Envelheci, mas aprendi que excluir e bloquear é para os fracos. Os fortes visualizam e deixam no vácuo. Não sei o que estou dizendo. O que sei é que, assim como a virgindade, nunca mais recuperei minha adolescência. Curtindo adoidado o segundo século de vida, costumo dizer que sou do tempo de Napoleão, o ditador que, como Bom na Parte, não era tão mau como os livros o pintam. Vivo para contar história.

Tanto que, se um dia eu ficar trancado do lado de fora, converso com a fechadura. Afinal, comunicação é a chave de tudo. Tentei aprender inglês. Desisti logo na primeira aula. Nas boas-vindas, o professor tascou um thank you very much. Fugi correndo, pois entendi tranque o velho e mate. Não tive tempo sequer de confirmar com o teacher se o nome do pai da Malu Mother é mesmo o senhor Fother. Infelizmente, meu cartão de crédito e eu compartilhamos hoje o mesmo problema: somos rejeitados em todos os lugares

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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras

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