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Pizza extra grande

VAR do TSE pode decidir pelo boneco que fala

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Autor/Imagem:
Mathuzalém Júnior - Foto de Arquivo

Ex-presidente no papel, mas nunca afastado do comando político da extrema-direita, Jair Bolsonaro avançou sozinho pela grande área da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, chutou cinco canelas, quebrou duas tíbias, três perônios e obrigou o próprio filho a derrubar na meia lua meio time do Partido Liberal. No futebol, isso seria um pênalti claríssimo e sem a necessidade de revisão tecnológica. Na política, o clã quer dar uma de João sem Braço, o famoso Migué, e dizer que um não sabia que furar os alheios é falta, deixando para o outro a desculpa que a bola estava na mão, mas foi mão na bola.

Como uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, o pênalti em um jogo de cartas marcadas pode ser questionado e até esquecido. O problema é que, em uma campanha presidencial polarizada, a marca da cal não pode ser escanteada. Deliberada e armada nos bastidores da residência ora usada como prisão domiciliar para produzir de tudo, menos propostas de governo, a falta em questão não foi uma faltinha qualquer. Condenado e oficialmente preso, Jair Bolsonaro está proibido pelo ministro Alexandre de Moraes de divulgar manifestações político-eleitorais por qualquer meio.

Além de toda a torcida do Flamengo, o clã e seus seguidores têm conhecimento de uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) vedando a manipulação digital de pessoas vivas ou mortas para favorecer ou prejudicar candidatos. São as chamadas “Deep fakes”. Portanto, a versão virtual que Flávio Bolsonaro usou do pai Jair no lançamento de sua candidatura ao Palácio do Planalto era de conhecimento de todos e, por isso, configura um ataque grosseiro à legislação eleitoral. Apesar da flagrante e ilegal manobra bolsonarista, eles acreditam que, mais uma vez, ficará o dito pelo não dito. Talvez!

É claro que o partido do principal adversário do faltoso bolsonarismo iria recorrer. E recorreu. Como o árbitro de campo nada marcou, o PT se utilizou do caminho natural: o da Justiça, o mesmo que Flávio e todo seu grupo usariam caso fossem eles os prejudicados. Ocorre que o juiz do VAR é ninguém menos do que o ministro Nunes Marques, atual presidente do TSE e primeira indicação de Bolsonaro para o Supremo Tribunal. Na possibilidade de Nunes Marques interpretar oficialmente a versão tecnológica do mestre como boneco, máscara e cartaz, ficará claro que, do umbigo para cima, o clã pode chutar onde quiser que não será pênalti, muito menos gol contra. Na melhor das hipóteses, o pênalti pode virar uma faltinha na marca do meio campo ou uma reversão de lateral.

Na pior, o ministro impor ao país que o pênalti pode ser convertido em tiro de canto na área adversária significará concordar integralmente com o desejo bolsonarista de torcer pela intervenção de Donald Trump na eleição brasileira. Aí, não haverá dúvida de que o magistrado do Brasil – e não da família Bolsonaro – optou por escrever meias verdades para não punir mentiras inteiras. Não sou jurista, político, tampouco candidato, mas não sou idiota para não saber que boneco, máscara e cartaz não falam. O óbvio ululante já está no forno da Justiça Eleitoral: o fantasmagórico boneco falante de Bolsonaro vai virar pizza extra grande.

Embora tênue e apenas imaginada como probabilidade, a expectativa é a de que Nunes Marques julgue de acordo com a legislação. Entretanto, para a maioria dos brasileiros que não aceita a terceirização de uma candidatura bolsonarista, o silêncio do ministro é gritante, algo como se fingir de morto diante do jogo sujo de jogadores que comprovadamente torcem para a partida eleitoral acabar no tapetão. Como a bola, o apito e a caneta punem os que preferem enlamear a biografia, a sugestão é que o juiz do TSE recorra ao VAR quantas vezes for necessário, de modo que não entenda que um avatar possa ser entendido como o 12º. jogador de uma equipe que se acostumou a ganhar no grito.

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Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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