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Anísio e o jogo

Véio de programa

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

O problema de Anísio era o jogo. Desde a adolescência, gostava de fazer uma fezinha no bicho, apostava nos burros, coisas assim. Já idoso, foi levado pelo tsunami das bets, e aí foi uma desgraça. Perdeu tudo, cobriu- se de dívidas, não tinha grana para a comida, muito menos para suas sagradas apostas…

Não que tivesse perdido muito, pois nunca nadou em dinheiro; é que sobrevivia com pouquíssima grana. Viúvo, sem filhos, recebia uma aposentadoria de merda, mas que, ainda assim, cobria o aluguel do muquifo e lhe garantia um troco para o trago nosso de cada dia e seu vício de jogo. Era isso que as bets lhe haviam roubado.

Anísio percebeu que teria de descolar um trampo. Só não sabia em quê. Mas, certo dia, tomou uma decisão: “Vou ser garoto de programa. Garoto não, véio de programa. Não, senhor de programa. Estou com 72 anos, tenho muita lenha pra queimar. E ainda gosto do vucovuco…”.

Refletindo melhor, optou pela “marca” de véio de programa, tinha mais impacto. Descartou em seguida trajes de garotão ou mesmo de um homem jovem, ficaria ridículo. Sua imagem, cuidadosamente elaborada, seria a de um maduro atraente, sabedor das coisas, que tivesse a manha – algo que se aproximasse de um Sean Connery pós-Indiana Jones. Quanto às legendas para sua foto, de terno e colete, optou pela velha “Enquanto eu tiver língua e dedo, de mulher não tenho medo”, e improvisou uma nova afirmação: “Como não tenho dente, minha chupada é a mais quente”. Postou a foto elegante com essas barbaridades de texto na dark web, indicando meios de contato, e aguardou as respostas das eventuais clientes.

Para agradável surpresa sua, estas acorreram em massa. Havia as taradinhas – ou, em termos científicos, politicamente mais corretos, as portadoras de uma parafilia designada como gerontofilia, a atração sexual por pessoas mais velhas. Foi essa moçada fissurada na velharada que lhe deu os meios de ir pagando suas dívidas e, aos poucos, voltar a fazer uma fezinha no bicho, a apostar nos burricos, coisas assim.

Havia também o que ele chamava de taradosas, quer dizer, taradas idosas, de idade similar a sua. No fundo, não eram taradas, nem sequer muito interessadas em sexo: sonhavam com um chinelo velho pra um pé doente calçar. Queriam mesmo era juntar os trapinhos e envelhecer a dois. Ele fingia não perceber as insinuações de amigação e sempre conseguia uns trocos com elas.

E assim ele foi vivendo, envelhecendo, pagando aos poucos suas dívidas, jogando com um mínimo de responsabilidade, fugindo das bets como o diabo foge da cruz. Mas então apareceram uns boys lixo taradões, atraídos por sua propaganda de uma chupada sem dentes, inesquecível. Anísio não fugiu da raia, os rapazes adoraram, e o pior é que ele também. Desde então, vive preocupado: “só faltava, a essa altura do campeonato, adquirir um vício novo, o de pagar para chupar trolha de boy lixo!”

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