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Esse cara é ele?

Vergonha na terra de Charles e no quintal de Biden

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Foto/Imagem:
Mathuzalém Júnior* - Foto Reprodução/Thenews2

Nesses frenéticos e loucos tempos de redes sociais, normalmente utilizadas no banheiro, nos melhores momentos de reflexão escatológica, é sempre bom estarmos atentos ao que estamos produzindo no local e, principalmente, ao que vamos escrever para reprodução em série. Os sábios nos aconselham a pensarmos uma, duas, dez vezes antes de qualquer expressão que possa se tornar pública. Também é de bom alvitre nos alinharmos à sabedoria popular, cujos ditados realçam um velho aconselhamento de vida: de bom ou de ruim tudo que dissermos um dia poderá ser usado contra nós. Aí entram em cena os provérbios que se repetem por gerações. São populares, mas os que eles querem dizer servem para peões, artistas, empresários, empregados, burgueses e até formadores de opinião.

Sem vocação didática, mas com algum conhecimento de causa, diria que os efeitos desses ditos são particularmente desastrosos para os homens públicos, especialmente os políticos, inclusive e sobretudo o presidente da República. Por mais que não saiba ou não queira, este tem obrigação de se expressar conforme a liturgia do cargo. Recapitulando, na maioria dos casos as formulações do povo não são captadas como deveriam. Por exemplo, dizer que o peixe morre pela boca não é apenas uma simplória metáfora. É mais do que isso. É uma clara tentativa de mostrar ao interlocutor como faz bem a qualquer diálogo ser sucinto e saber administrar as palavras.

Melhor ainda é a recomendação de prudência e ponderação quando somos lembrados de que moscas e mosquitos não entram em boca fechada. Acho que a pior das advertências é aquela que recebemos quando, por razões diversas, insistimos em monólogos. Quem fala demais acaba dando bom dia a cavalo é sinônimo de não permitir que o outro se pronuncie. Todos são interessantes e merecem reflexões diárias de quem vive do convencimento alheio. Um dos mais usuais, o peixe morre pela boca deve – pelo menos deveria – ser o primeiro item da cartilha de boas práticas do presidente Jair Messias Bolsonaro.

Embora seja ignorado por sua excelência, o ditado é usado para lembrar que, assim como o peixe tem de estar atento ao abrir a boca para morder uma isca, temos de tomar cuidado ao abrirmos a boca para falarmos alguma coisa. As recentes viagens do presidente a Londres e Nova York falam por si. Transformar um velório e um funeral reais e a tribuna da Organização das Nações Unidas em palanque eleitoral foi demais para os olhos e ouvidos de povos providos de sabedoria, conhecimento e capacidade de discernir entre a verdade e a mentira, entre o discurso de paz e o de ódio, entre a possibilidade de uma vitória estrondosa e o desespero de uma amarga derrota.

Vergonhosa do ponto de vista da representação diplomática e desrespeitosa quanto à obrigatoriedade de mostrar a seus pares a verdadeira situação da nação que dirige, a participação do presidente brasileiro em mais uma assembleia da ONU foi mais do que lamentável. Deprimente talvez sintetize de forma mais clara a transferência do comitê eleitoral bolsonarista para essas duas capitais. Se soou de modo normal para alguns, para mim foi acachapante Bolsonaro informar para dezenas de líderes mundiais que seu principal concorrente na disputa presidencial está de 11 a 16 casinhas à frente dele. Eu teria vergonha. Eu fiquei envergonhado de ser brasileiro com o que ouvi.

E daí? O povo do mito gostaram (o erro de concordância é proposital). Acho até que adoraram. Vergonhoso, mas, para a turma do cercadinho, valeu porque foi na terra do Rei Charles III e no quintal de Joe Biden, o Tio Sam. Meus caros, para mim foi ainda pior ter sido lá, onde não existe desinteligência. Entendo. Não é o meu, mas respeito o gosto alheio. Por falar em respeito, respeitosamente deixo aqui uma pergunta direta: É esse o cidadão que vocês acham preparado para mais um mandato presidencial? Mais um não, porque o primeiro está acabando sem nunca ter existido. Cartas para o Castelo de Windsor, onde o corpo da ultrajada Rainha Elizabeth II está sepultado.

*Mathuzalém Júnior é jornalista profissional desde 1978

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