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João Cabral de Melo Neto

Versos esculpidos na pedra

Publicado

Autor/Imagem:
Edna Domenica e Gilberto Motta - Foto de Arquivo

“Pensar em João Cabral de Melo Neto é quase um axioma matemático, é a palavra exata no lugar exato: rigor e perfeição”
(Caetano Veloso em conversa com Chico Buarque sobre “Morte e Vida Severina”, de JCMN)

João Cabral de Melo Neto nasceu escultor de palavras; palavras de pedra. A pedra é presença constante ao longo de toda obra do gênio. A pedra/palavra, o verso, a métrica a ser buscada como os dias a serem vividos com os galos das madrugadas.

Ele nasceu no Recife, em 1920. Morreu no Rio de Janeiro, em 1999, com cegueira progressiva e deprimido. Porém, ao longo de oito décadas de vida, o “poeta-engenheiro” trilhou um dos mais belos e produtivos caminhos da literatura mundial. Sim, mundial.

Era chamado de poeta-engenheiro, tendo em vista o cálculo, a lapidação, a obsessão pela palavra certa no lugar certo e a objetividade de seu trabalho em versos, em prosa e na diplomacia brasileiro em diversos países pelo mundo.

João Cabral continua pouco lido pelo grande público, embora consagrado pela Academia Brasileira de Letras e ser o primeiro brasileiro a vencer o Prêmio Camões, a maior distinção literária em língua portuguesa.

“Ninguém lapidou as palavras, os sentidos e a pureza dos versos como João Cabral; o que o tornou um caso único mesmo em sua geração de 45 formada por extraordinários intelectuais da palavra”, escreveu sobre ele nada menos que o grande Antônio Cândido, escritor, intelectual e professor emérito da USP na área da Literatura.

PRODUÇÃO INÉDITA

JCMN escreveu em quantidade e qualidade. E em ritmo acelerado. Deixou uma obra ainda por ser pesquisada e revisitada em estudos acadêmicos. O acervo do autor, na Casa Rui Barbosa, reserva cerca de 40 poemas ainda inéditos e mais de 20 textos em prosa, além de entrevistas e material de extensa pesquisa histórico-documental a respeito das navegações espanholas e portuguesas que conduziram os europeus ao continente americano.

Sua obra é intensa, rica e inestimável. Considerado o “maior poeta da língua brasileira perfeita”, como o classificou Vinícius de Moraes, outro poeta de fino e lapidado trato.

Hermético, anti-lírico, demasiado racional, apaixonado pela perfeição são apenas alguns meros e subjetivos comentários da crítica especializada sobre ele. Todos distantes da verdadeira realidade do gênio do Recife.

A verdade é que João Cabral de Melo Neto distanciou-se da literatura produzida por seus contemporâneos. Poeta por excelência, rejeitou a sentimentalidade, a irracionalidade ou o verso subjetivo, adotando uma postura de reflexão crítica (e também auto reflexiva e autocrítica) marcada pelo rigor formal. Sua poesia é um exercício de linguagem, calcado no intenso trabalho com as palavras e em permanente estado de tensão.

Na obra de João Cabral, tudo é resultado de partos perfeitos, a exemplo de: Pedra do Sono (1942); O Cão sem Plumas (1950); Morte e Vida Severina (1955); A Educação pela Pedra (1966);

Entre as frases geniais dele, marcou-me o pensamento direto, no alvo que juntei entre tantos outros dele:

“Escrever é estar no extremo de si mesmo […] Um galo sozinho não tece uma manhã […] Esta cova em que estás, com palmos medidas, é a terra que querias ver dividida […] O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato”.
(Gilberto Motta).

Dentre os poemas de João Cabral de Melo Neto, escolho para análise, aqui:

OS VAZIOS DO HOMEM

Os vazios do homem não sentem ao nada
do vazio qualquer: do do casaco vazio,
do da saca vazia (que não ficam de pé
quando vazios, ou o homem com vazios);
os vazios do homem sentem a um cheio
de uma coisa que inchasse já inchada;
ou ao que deve sentir, quando cheia,
uma saca: todavia não, qualquer saca.
Os vazios do homem, esse vazio cheio,
não sentem ao que uma saca de tijolos,
uma saca de rebites; nem têm o pulso
que bate numa de sementes, de ovos.

2.
Os vazios do homem, ainda que sintam
a uma plenitude (gora mas presença)
contêm nadas, contêm apenas vazios:
o que a esponja, vazia quando plena;
incham do que a esponja, de ar vazio,
e dela copiam certamente a estrutura:
toda em grutas ou em gotas de vazio,
postas em cachos de bolha, de não-uva.
Esse cheio vazio sente ao que uma saca
mas cheia de esponjas cheias de vazio;
os vazios do homem ou o vazio inchado:
ou vazio que inchou por estar vazio.

In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.359-360. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira).

INDAGAÇÕES

A leitura do poema “Os vazios do homem” me trouxe indagações tais como:

1- O texto relaciona o espaço geográfico com as características sociais, físicas e culturais que descreve?

2- Busca inspiração no real? Aborda o cotidiano dos grupos humanos?

3- Está atento ao espaço em que se desenvolve a escrita?

4- Pode se reconhecer neste poema a verve do “poeta engenheiro”?

5 – A construção “racional e equilibrada” do poema “Os vazios do homem” tem a ver com o uso do ponto final por apenas três vezes? Esses pontos finais marcam tese, antítese e síntese?

6- A construção “racional e equilibrada” pauta-se no uso do substantivo e da locução adjetiva (preposição + substantivo)?

PERSONIFICAÇÃO E USO DO SUBSTANTIVO

O poema em questão discute a natureza específica do vazio humano em contraste com o vazio de objetos inanimados, como um casaco ou uma saca vazia.

Os vazios do homem quer sejam físicos ou metafóricos são personificados.

Físicos como um casaco vazio, por exemplo, e metafóricos como um vazio existencial. No poema os vazios sentem, isto é, são dotados de qualidades humanas, como os sentimentos. Logo, são personificados e a eles é conferida uma grande importância. O substantivo “vazios” está no plural, justamente para abarcar a sua polissemia.

A personificação no poema apoia-se no uso do substantivo – classe gramatical que dá nome a seres, objetos, lugares, sentimentos, ações, qualidades, etc., sendo fundamental para nomear tudo o que existe (real ou imaginário). Vejamos a sequência de substantivos precedidos ou não por um determinante (artigo definido, artigo indefinido, pronome indefinido, pronome demonstrativo):

1- *vazios* *nada* *casaco* *saca* *o *homem**; *os* vazios* *um* cheio* *uma* *coisa* *uma saca* não qualquer *saca* . *Os vazios* *esse vazio *uma saca* de tijolos, *uma saca* *o pulso*

2- *Os vazios* *uma plenitude* (gora mas *presença* ) *nadas* , *vazios* :

*a esponja* , **a esponja* , de ar vazio, *a* *estrutura**grutas* *gotas* *cachos* de bolha, de *não-uva* *Esse cheio* vazio *uma saca* mas cheia de esponjas cheias de vazio; *os vazios* do homem ou *o* *vazio*.

Os tipos de substantivos mais usados no poema são do tipo: comum, concreto (nomeia seres de existência própria, ex: saca), simples (um só radical, ex: vazios). Primitivo: Não se deriva de outra palavra (ex: cachos). Usa o substantivo composto: não- uva- um neologismo e refere a esse cheio vazio – que substantiva o adjetivo vazio por meio da metáfora. Esse adjetivo substantivado é classificado como abstrato o que o realça, por oposição ao uso frequente de substantivos.

Em conclusão, defendo que “o poeta engenheiro” usa a lógica na utilização das palavras que arquiteta na construção do poema ” Os vazios do homem”.
(Edna Domenica).

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Edna Domenica é cronista, poeta e pesquisadora da arte literária. Dedica-se ao PRCDC – “Programa de Recuperação Cognitiva e Dessensibilização de Cromofobia” (que tem parceria com a Igreja “Fora da ficção não há salvação”). Trata-se de um projeto de leituras dos autores: João Cabral de Melo Neto, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna, Chico Buarque de Holanda, Guimarães Rosa, Mia Couto, Conceição Evaristo. Para os casos mais graves de fobia ao vermelho: Marx e Engels.

Gilberto Motta é escritor, jornalista, professor/pesquisador que busca esculpir a dureza da pedra, o verso ácido, cortante, como João Cabral o fez e eternizou. Vive na Guarda do Embaú, litoral de SC.

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