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Saudades do Alentejo

Vi-me desembarcar da estação de comboios

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Autor/Imagem:
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Meu amigo Aguinaldo Záckia Albert presenteou-me com seu livro Os sabores do Alentejo – história, vinhos e receitas. Lê-lo foi, para mim, uma experiência deliciosa. Não apenas porque o autor, enólogo renomado, cumpre o que promete no subtítulo, e conduz o leitor por um itinerário balizado pelo pão, o azeite e o vinho, todos os três de presença milenar na região; mas principalmente porque o texto de Aguinaldo abriu-me no peito as comportas da saudade e me vi a rememorar cenas que julgava esquecidas, eu que há 50 anos não piso no Alentejo.

Vi-me desembarcar da estação de comboios e atravessar, sob um sol escaldante, a enorme praça do Giraldo, para chegar à Escola Bento de Jesus Caraça, onde daria aulas de Sociologia e Economia. E descobrir, maravilhado, que o edifício, hoje integrado à Universidade de Évora, ficava a menos de 20 metros das ruínas magnificamente preservadas do templo romano de Évora, mais conhecido como templo de Diana. Lembro-me de ficar ali por um bom tempo, absorvendo cada detalhe das colunas coríntias, acariciando as pedras restantes, até penetrar na faculdade e iniciar minha curta carreira de professor universitário.

Lembro-me de levar meus alunos para as pedras do templo e ouvi-los extasiado, entoar cantos alentejanos, com seus melismas herdados dos séculos de ocupação árabe, tão semelhantes ao aboio dos vaqueiros nordestinos.

Lembro-me de ficar intrigado com o sotaque alentejano – alentjanu –, mais lento, mais arrastado, sem a comilança de vogais dos alfacinhas lisboetas e sem o ovo na boca da gente do Norte.

Lembro-me de jantar – uma única vez, que eu era um professor brazuca pobre – no restaurante O Fialho, um dos mais sofisticados de Évora. Estava com uma aluna que, digamos, arrastava um bonde por mim. Lembro-me de ter sido parabenizado, depois, por outras jovens alunas, por não a ter transformado em sobremesa. Sim, fui um mestre bem-comportado – e ademais, em 1975, na festa móvel da revolução portuguesa, não faltavam mulheres mais seguras de si, mais rodadas, para ornamentar minhas noites.

Lembro-me de participar de uma passeata noturna pelas ruas de Évora. Sob a luz do luar, as bandeiras vermelhas, em contraste com o casario branco, compuseram uma cena de uma beleza indescritível.

Tudo isso voltou-me de repente, ao ler o livro de Aguinaldo. E me fez dar uma guinada neste texto. Depois da longa introdução, ia contar um causo iniciado no comboio para Lisboa, mas decidi parar por aqui. O conto fica para o outra vez. Que o Alentejo lateja em meu peito.

Despeço-me com a paráfrase de uma estrofe da canção alentejana Semear salsa ao reguinho, de Vitorino Salomé. É dedicada, por motivos óbvios, ao poeta gaúcho Mário Quintana.

Não julgues por seu cantar

Que a vida tão bem lhe corre

O poeta é um passarinho

Tanto canta, até que morre.

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