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O Lado B da Literatura

Vida e legado do escritor José Geraldo Vieira, radiologista das letras

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Autor/Imagem:
Cassiano Condé - Foto de Arquivo

O retratado de hoje em O Lado B da Literatura é José Geraldo Vieira (1897–1977), um gigante que viveu entre o rigor das lâminas de raio-X e a fluidez das páginas imortais. Nascido nos Açores e naturalizado brasileiro, ele construiu uma obra que, embora erudita e cosmopolita, mergulhava fundo nas crises da alma urbana, ganhando o respeito de nomes como Otto Maria Carpeaux e Manuel Bandeira.

Curiosamente, a trajetória de Vieira começou com uma pequena confusão biográfica. Embora tenha vindo para o Brasil com apenas alguns meses de vida, ele foi registrado novamente no Rio de Janeiro, o que gerou dúvidas históricas sobre sua real origem. Órfão aos 11 anos, foi criado por tios que lhe proporcionaram uma educação de elite, levando-o a estudar em Paris e, mais tarde, a especializar-se em radiologia em Berlim.

Na medicina, José Geraldo foi um pioneiro da radiologia no Brasil, profissão que exerceu com dedicação paralela à escrita. Há quem diga que seu olhar clínico para “enxergar o que está por baixo da pele” migrou para seus livros, onde ele dissecava a psicologia de seus personagens com precisão cirúrgica. Em seus consultórios, entre um exame e outro, ele gestava tramas complexas que fugiam do regionalismo em voga na época.

Sua estreia literária com o romance A Mulher que Fugiu de Sodoma (1931) foi um choque de sofisticação. Enquanto o Brasil redescobria o sertão, Vieira escrevia sobre a alta cultura, diplomatas e conflitos morais em ambientes urbanos. Seu estilo era marcado pelo uso do “fluxo de consciência”, técnica que ele dominava como poucos, influenciado diretamente por sua relação íntima com a obra de James Joyce.

Aliás, o trabalho de Vieira como tradutor é um capítulo à parte em sua biografia. Ele foi o responsável por verter para o português obras monumentais de Dostoiévski (O Idiota), Tolstói e o próprio Joyce. Diz-se que sua dedicação era tamanha que ele chegava a reescrever seus próprios livros mais de duas vezes antes de considerar a obra pronta, buscando uma perfeição que beirava a obsessão.

Um fato curioso sobre sua vida pessoal foi o seu segundo casamento com a também escritora Maria de Lourdes Teixeira, em 1949. A união consolidou um dos casais mais intelectuais da cena paulistana da época. Vieira, apesar de carioca por criação, acabou se tornando uma figura central na vida cultural de São Paulo, ocupando uma cadeira na Academia Paulista de Letras até sua morte.

Sua obra-prima, A Ladeira da Memória (1950), é um labirinto de recordações que coloca o leitor diante de um espelho da própria existência. Nela, o autor utiliza uma técnica poética rara, transformando o cotidiano em algo transcendente. Para críticos modernos e admiradores de longa data, Vieira não era apenas um escritor, mas um “contador de histórias” que se recusava a limitar a alma humana a fronteiras geográficas.

Apesar de tamanha grandeza, o autor enfrentou um período de silêncio editorial nas últimas décadas do século XX. Alguns atribuem esse afastamento ao fato de sua obra ser considerada “difícil” ou aristocrática demais para os padrões de um país que, por vezes, negligencia sua memória cultural. Felizmente, movimentos recentes de editoras independentes têm resgatado seus títulos originais para novas gerações.

A vida de José Geraldo Vieira foi, em si, um romance de múltiplos atos: o imigrante açoriano, o médico radiologista, o tradutor poliglota e o romancista incansável. Ele acreditava nas capacidades superiores do ser humano e nunca teve receio de retratar as grandes virtudes e dilemas éticos, mesmo quando o mercado literário parecia preferir caminhos mais simples.

Hoje, ler José Geraldo Vieira é fazer um convite ao pensamento profundo. É percorrer as ladeiras da memória de um autor que soube, como poucos, iluminar as sombras da alma humana com a luz da erudição e a precisão do seu olhar clínico. Seu legado permanece vivo para quem se atreve a abrir as portas de sua vasta e fascinante bibliografia.

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