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Tempo guardado

Voltar não é reencontrar: uma crônica do passado

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Autor/Imagem:
Renan Damázio - Francisco Filipino

Há algumas semanas, eu estava conversando com a minha mãe no apartamento onde ela mora. É o mesmo apartamento em que, durante muitos anos, moramos nós quatro: eu, minha irmã, meu pai e ela. A conversa começou sem grandes pretensões, dessas conversas que a gente tem quando está um pouco nostálgico, meio cansado, sem muita expectativa sobre o resto do dia. Era uma conversa pós-almoço. Eu havia comido um delicioso nhoque que ela preparou com muito carinho.

Em algum momento, falei para ela sobre uma coisa em que tenho pensado bastante. Ser sensível e perceptivo demais é uma faca de dois gumes. Às vezes, isso ajuda. Você percebe coisas que outras pessoas não percebem, entende mudanças de humor, guarda detalhes, identifica o ambiente. Mas existe outro lado, menos bonito. Você também fica mais exposto ao que acontece ao seu redor. Algumas coisas entram em você com uma facilidade absurda e, depois, simplesmente não saem.

Ela perguntou o que eu queria dizer com aquilo. Olhei para o sofá onde estávamos sentados e falei que conseguia me lembrar de muita coisa daquele apartamento com uma precisão que, às vezes, até me incomodava. Não era simplesmente lembrar de uma cena. Era conseguir quase reconstruí-la.

Eu conseguia me colocar naquele sofá e imaginar uma tarde qualquer, provavelmente por volta das quatro horas, quando o dia já começava a mudar de cor e o sol entrava de um jeito diferente pela janela. Junto com a imagem, vinha o cheiro do café no fogão. O barulho da água correndo na pia. A louça batendo enquanto minha mãe lavava os pratos e preparava alguma coisa para mais tarde, provavelmente o jantar. São detalhes completamente banais. Talvez justamente por isso tenham ficado.

Depois, eu me lembrava da minha irmã, Lorena, saindo correndo do quarto. Ela atravessava o corredor, entrava na sala, pulava no sofá e pegava o controle para colocar algum desenho. Quase sempre era Nickelodeon. Bob Esponja, provavelmente. Eu acabava assistindo junto com ela. Primeiro um desenho, depois outro, depois algum seriado. Quando a gente percebia, já tinha passado boa parte da tarde, e era assim até meu pai chegar do trabalho.

Eu me lembro da chegada dele também. A porta abrindo, ele entrando em casa, deixando as coisas no quarto, colocando a bolsa em algum lugar, falando alguma coisa com a minha mãe. Depois vinha a comida. Ele sentava conosco, perguntava o que estávamos assistindo, fazia algum comentário sobre a televisão e, em determinado momento, colocava no Jornal Nacional. Nós esperávamos terminar. Depois, ele dizia que podíamos voltar para o que estávamos vendo. E pronto. A vida continuava. Na época, não havia nada de especial nisso. Era apenas mais uma tarde, mais uma noite, mais um dia entre tantos outros.

Hoje, olhando para trás, é justamente isso que me impressiona. Eu não me lembro só das pessoas. Lembro do som da televisão, do cheiro do café, da água batendo na louça, da voz da minha mãe, da minha irmã correndo pela casa. Lembro até de como a luz parecia naquele horário. É uma memória que não ficou guardada apenas na cabeça. Ficou em algum lugar do corpo.

Não posso deixar de mencionar que, às seis, o poste de luz próximo à entrada do nosso apartamento, com lâmpada incandescente, gerava um aspecto crepuscular. A cigarra sempre cantava nessa hora. Comíamos biscoito cream cracker com requeijão, fatias de bolo de cenoura e, vez ou outra, recebíamos a visita de minha avó, de tios ou de vizinhos. Eles se sentavam à mesa de madeira maciça — a mesma até hoje —, e ríamos de suas histórias.

Quando terminei de contar, minha mãe começou a rir. Disse que era estranho, porque eu tinha conseguido levá-la para um período da vida que ela mesma já não conseguia acessar daquela maneira. Ela não tinha aquelas lembranças tão nítidas. E, depois de pensar um pouco, disse que aquilo era uma coisa boa. Eu concordei. Talvez fosse mesmo.

Naquele dia, inclusive, pedi para ela cortar meu cabelo porque eu precisava me arrumar para uma audiência nos dias seguintes. Depois, saí do apartamento e comecei a descer as escadas. E foi aí que outra parte da memória apareceu.

Lembrei de mim sentado naquelas mesmas escadas com o Bruno Mendes e com o Gabriel Guarnieri, meus amigos. Lembrei das conversas, das brincadeiras, de coisas que hoje já integram uma amizade de mais de dez anos. Passei pelo canteiro de flores e folhas que continua lá. Caminhei pelo bloco do condomínio, que ainda existe praticamente do mesmo jeito, embora esteja mais degradado e a manutenção tenha decaído expressivamente. Andei pelos mesmos caminhos, passei pelos mesmos lugares e, por alguns minutos, tive uma sensação estranha de familiaridade. Uma sensação de sempre. Era tudo igual e não era.

Talvez esse seja um dos aspectos mais difíceis de perceber quando a gente cresce. Você pode voltar ao mesmo lugar, encontrar as mesmas escadas, os mesmos prédios, as mesmas árvores, o mesmo caminho e, ainda assim, não encontrar aquilo que estava procurando. O que você procura não está mais ali. Nunca esteve, na verdade. O lugar apenas serviu de cenário para uma época que acabou.

Continuei andando pelo condomínio. Passei pelo morrinho da subida do nosso bloco e fui descendo em direção à saída. Coloquei os fones de ouvido e deixei de prestar atenção aos sons ao redor. Talvez porque já tivesse escutado demais naquele dia. Talvez porque eu não quisesse acrescentar mais nada àquela sensação.

Eu tinha me despedido da minha mãe pouco antes, com um beijo, e já estava quase na hora de ir embora. Era por volta das seis da tarde, e eu precisava voltar para casa. Enquanto caminhava, fiquei pensando que talvez a pior parte de voltar a determinados lugares seja descobrir que eles continuam existindo, porque seria mais fácil se tudo tivesse desaparecido.

Se as escadas tivessem sido demolidas, se o canteiro não existisse mais, se o apartamento tivesse outra aparência… seria mais fácil dizer que aquilo acabou porque o lugar acabou. No entanto, o lugar continua quase intacto. O que mudou fomos nós.

As pessoas cresceram. Algumas foram embora. Outras já não ocupam aqueles espaços da mesma maneira. Meu pai não chega mais em casa como chegava naquela época. Minha irmã não atravessa mais o corredor correndo para colocar Bob Esponja na televisão. Minha mãe continua ali, mas também carrega consigo uma versão dela que só existe naquela lembrança. E eu, por mais que ainda consiga me sentar naquele sofá e reconstruir uma tarde inteira, já não sou aquele menino.

Talvez seja isso que significa sentir demais. Não é apenas lembrar do que aconteceu. É conseguir sentir a ausência daquilo que aconteceu.

E, naquele dia, enquanto caminhava para fora do condomínio, percebi que voltar não significa necessariamente reencontrar. Às vezes, voltar serve apenas para confirmar que o tempo passou.

Ainda assim, existe alguma coisa bonita nisso. Penso que, se por alguns segundos eu consigo sentir novamente o cheiro do café, ouvir a água caindo sobre a louça, escutar a televisão ao fundo e lembrar da minha irmã correndo pela sala enquanto esperávamos meu pai chegar, talvez aquela época não tenha desaparecido completamente.

Talvez algumas coisas simplesmente mudem de lugar. Saem da nossa vida e vão morar na nossa memória. E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos anos, basta uma tarde, um sofá ou o cheiro de café no fogão para eu voltar, por alguns segundos, para casa.

 

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Renan Damázio é cronista e poeta, autor de Pássaros na janela. Seus textos transitam entre a memória, o cotidiano e as delicadas zonas de silêncio da experiência humana. Colabora com o Café Literário, de Notibras.

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