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Lobby rentável

Vorcaro, Lulinha e Roberta mexem com o Brasil dos negócios

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Autor/Imagem:
João Zisman - Texto e Imagem

Oskar Schindler não chegou à Polônia ocupada pelos nazistas como herói. Queria ganhar dinheiro. Membro do Partido Nazista e inicialmente movido por interesses próprios, aproximou-se de oficiais, cultivou relações, distribuiu presentes e subornos e aprendeu a circular entre homens poderosos de um regime criminoso. O personagem eternizado por A Lista de Schindler começou, portanto, como alguém que compreendeu muito bem o valor do acesso.

A extraordinária transformação ocorreria depois. Schindler passou a utilizar relações, dinheiro e influência para proteger seus trabalhadores judeus e salvar mais de mil pessoas. A causa acabou suplantando o interesse que originalmente o movera, mas o instrumento permaneceu essencialmente o mesmo: saber chegar a quem tinha poder.

Essa história ajuda a compreender uma distinção que o debate brasileiro frequentemente embaralha. Conhecer autoridades, defender interesses e tentar convencer quem decide não constitui, por si só, qualquer irregularidade. Empresas, sindicatos e organizações fazem isso permanentemente. É lobby e, quando transparente, integra o funcionamento normal de uma democracia.

A fronteira é ultrapassada quando o que se negocia deixa de ser argumento ou representação e passa a ser a capacidade, verdadeira ou alegada, de interferir sobre quem exerce função pública. O lobby procura convencer quem decide; o tráfico de influência transforma a promessa de chegar a quem decide em vantagem.

É nesse ponto que Daniel Vorcaro ajuda a compreender a escala contemporânea do mercado da proximidade. As investigações sobre o Banco Master revelaram uma extensa rede de relações atravessando mercado financeiro, política e estruturas do Estado, com viagens e despesas de políticos pagas pelo banqueiro, interlocuções sob investigação dentro do Banco Central e até a suspeita de participação de seu entorno na elaboração de uma emenda apresentada no Senado.

As responsabilidades criminais ainda precisam ser individualizadas e julgadas. Politicamente, entretanto, o desenho já permite uma observação: Vorcaro parece ter percebido que depender de uma única porta era pouco. Era melhor construir corredores.

O episódio envolvendo Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, apresenta outra dimensão do mesmo fenômeno. Em mensagens analisadas pela Polícia Federal sobre uma negociação relacionada a medicamentos à base de cannabis, Roberta, amiga do filho do presidente, teria afirmado representá-lo e escreveu uma frase especialmente reveladora: “Eu sou o Fábio”.

Isso não demonstra que Lulinha tenha autorizado Roberta a falar em seu nome ou participado de qualquer irregularidade. Sua defesa nega envolvimento, a investigação prossegue e a própria Procuradoria-Geral da República afirmou não haver, até aqui, provas de que ele tenha recebido recursos desviados do INSS. A relevância da frase está em outro lugar: alguém considerou economicamente importante apresentar-se como portador daquela proximidade.

Vorcaro e o episódio envolvendo Roberta não são situações equivalentes, nem precisam ser. Eles ajudam a enxergar diferentes manifestações de um mercado muito mais antigo do que ambos, no qual conhecer alguém, conseguir uma reunião, frequentar determinados ambientes ou simplesmente convencer terceiros de que se tem acesso a quem decide pode adquirir valor próprio.

O Brasil sofisticou seus mecanismos de controle, criou regras de compliance, controladorias, portais de transparência e sistemas eletrônicos de compras, mas continua tendo dificuldade para iluminar essa região situada entre conhecer, representar, influenciar e vender influência. Ela tampouco pertence a um partido ou governo. Mudam presidentes, sobrenomes e interlocutores; permanece a percepção de que determinadas portas se abrem mais facilmente para quem conhece a pessoa certa.

Talvez Schindler seja um bom ponto de partida justamente porque sua história demonstra que acesso e influência não possuem moral própria. Ele começou utilizando ambos para ganhar dinheiro e terminou recorrendo aos mesmos instrumentos para salvar vidas.

Numa democracia, ninguém precisa ser impedido de conhecer políticos, procurar ministros ou defender interesses. O que precisa estar claro é quem representa quem, qual interesse está sendo defendido e por que determinadas portas se abriram.

O problema não começa quando alguém conhece quem está no poder. Começa quando essa proximidade ganha preço e alcança outra dimensão quando deixa de ser oportunidade para se transformar em modelo de negócio.

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Texto publicado originalmente no Hojepr

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