Orelhas cortadas
Xandão age rápido, aborta Lava Jato 2.0 e cova dos leões cresce
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Algo de podre, dizia o velho bardo, ronda os corredores do poder em Brasília. Mas, se Shakespeare tivesse nascido às margens do Paranoá, talvez não escrevesse tragédias, e sim inquéritos sigilosos que poderiam receber o carimbo de apócrifos, como os de Andrei Rodrigues, diretor-geral da Policia Federal.
No Brasil, o Hamlet da Polícia Judiciária não segura uma caveira. Tem em mãos dossiês, e antes da pergunta “ser ou não ser”, desconversa sobre quem autorizou. E tudo isso na esteira de um escândalo financeiro que abala o país.
Enquanto isso, as orelhas continuam enganadas por versões sucessivas — oficiais, extraoficiais, oficiosas e ofendidas. Os olhos seguem vendados, não por falta de luz, mas por excesso de sombras. E as raízes do enredo, como em toda boa peça política tropical, brotam sempre da mesma terra. Justamente na capital onde tudo começa, nada termina e quase tudo vaza.
A República, que deveria ser edifício de mármore, virou condomínio hereditário. Há apartamentos ocupados por dinastias, coberturas alugadas ao poder do momento e subsolos onde repousam papéis que nunca morrem, mas apenas aguardam a estação das delações.
Nesse cenário, a Polícia Federal caminha como quem atravessa um campo minado carregando fósforos. Age com pressa de quem recebeu sinal verde ou imaginou ter recebido. E quando delegados antigos, de cabelos já prateados pela prudência, recusam atalhos perigosos, surgem novos quadros vindos das fronteiras do mapa, seduzidos por chefias reluzentes como medalhas antes da batalha.
O método é conhecido, do tipo devassa primeiro, pergunta depois. Promessa vaga, esperança líquida e sede ao pote, porque sempre houve sede ao pote na política brasileira. O problema é quando o pote é a própria lei.
Do outro lado da praça, o Supremo observa em silêncio, enquanto pastas circulam como cartas anônimas numa cidade pequena. Vazamentos seletivos lembram chuva fina; ninguém vê de onde vem, mas todos saem molhados.
Sem que Andrei espere, surge o contra-ataque. Alexandre de Moraes, o ministro de punho firme transformado em personagem folclórico antes mesmo de virar nota de rodapé, decide interromper a marcha desordenada. E manda Andrei parar, recolher, rever, explicar. Porque, na liturgia do poder, há sempre o momento em que a toga pesa mais que o distintivo.
A reação da Polícia Federa produz o silêncio barulhento que sempre existiu em Brasília. Nessa Torre de Babel prestes a ser implodida, ninguém admite erro, ninguém recua de fato. No fundo, todos aguardam o próximo vazamento, como quem espera o próximo capítulo de uma novela judicial escrita a muitas mãos, embora sem nenhuma assinatura.
Fala-se em nova operação redentora, agora a Lava Jato 2.0, A Revanche. Algo para repetir a história com pinceladas de limpeza moral reciclada. O país, especialista em segundas temporadas de si mesmo, já viu esse roteiro. O povo, atento, sabe que cruzadas começam com trombetas e terminam em notas técnicas.
A pergunta essencial, porém, continua sem resposta: Quem manda? Na teoria, a lei. Na prática, o intérprete da vez. Nos bastidores, talvez o medo, encravado como instituição permanente na política nacional.
Se a Polícia Judiciária investiga, alguém autoriza. Se ninguém autorizou, alguém imaginou que poderia. E quando a imaginação vira método, a República entra em terreno movediço.
A partir daí, delações pairam no ar como nuvens de verão, uma vez que podem criar tempestade ou apenas ameaçar. Enquanto isso, o Planalto segue descrito em sussurros como abrigo de velhos fantasmas digitais, aqueles que nunca se aposentam, mas simplesmente trocam de senha. É o velho Gabinete do Ódio com nova fantasia.
O Brasil, país que transforma crises em rotina e rotinas em esquecimento, assiste mais uma vez à dança entre espada e balança. Contudo, nenhuma das duas costuma vencer. Os méritos vão para o tempo, o arquivista implacável que reduz heróis, vilões e salvadores a simples nomes em processos amarelados.
No fim, talvez Shakespeare estivesse certo. Não há tragédia maior que a dúvida. E o Brasil continua perguntando, diante do espelho rachado do poder, quem investiga o investigador? Dar carta branca a um subordinado para agir nos subterrâneos em ano eleitoral, pode ter consequências desastrosas. Xandão agendou visitas, Toffoli fez viagens públicas, e Lula recebeu extra-agenda. Se Daniel resolver falar, a delação jogará muita gente na cova dos leões.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras
