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Gastronomia master

Zepelim sai de cena e deixa arraial de 5 mi

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Francisco Filipino

Fã incondicional de Chico Buarque, gosto de eventualmente tomar emprestada a genialidade dele. Como estamos em mês de férias, decidi escrever esta crônica dominical inspirada em Geni e o Zepelim, Flor da Idade e Quadrilha. Tudo para lembrar que há governos que se parecem com festas juninas com direito a bandeirinhas coloridas, sanfona desafinada e promessas de quentão para todo mundo.

Contudo, quando o mês vira a folha do calendário e junho entrega o bastão a julho, descobre-se que a fogueira continua acesa. Mudam apenas os figurinos, onde as quadrilhas deixam de ser apenas coreografias e algumas aprendem a dançar sem precisar do marcador.

No centro do arraial, um personagem atravessa a praça como se tivesse saído de uma ópera bufa. Não carrega um milhão no bolso, porque isso seria coisa de amador. Leva cinco milhões, suficientes para embarcar em quantos Boeings e Airbus desejar, como quem troca de chapéu entre um aeroporto e outro. Dinheiro, afinal, também gosta de fazer turismo quando sai do bolso alheio. É precisamente quando o Zepelim vira coisa do passado e Geni ganha ares de modernidade.

De quem assiste do lado de fora, os olhares se dividem. Uns fingem não ver, enquanto outros aplaudem. Porém, há sempre quem encontre uma explicação técnica para aquilo que o cidadão comum chamaria apenas de absurdo. É a velha alquimia do poder de transformar escândalo em procedimento administrativo e privilégio em necessidade institucional.

Mas, como tudo na vida, a música também muda. O salão se transforma num grande baile de máscaras. Todos brindam, sorriem e se abraçam. Um elogia o outro, que retribui o elogio ao terceiro, que já havia levantado um brinde ao primeiro. O vinho corre generoso, como se o deus Baco tivesse decidido instalar seu gabinete provisório bem ao lado do gabinete oficial. Nessa confraria etílica, não existem adversários, mas taças levadas pela sobrinha de Betuel.

As taças, aliás, têm um curioso poder de apagar memórias. Quem ontem apontava o dedo, hoje segura a garrafa; e quem prometia faxina passa a discutir apenas a melhor safra. O aroma das uvas parece anestesiar consciências, e, entre um gole e outro, os discursos sobre moralidade evaporam antes mesmo de alcançar o teto.

O povo a tudo assiste do outro lado da cerca. Comprou ingresso sem saber e pagou pela iluminação, pela banda, pelos fogos e até pelo vinho que jamais degustará. Acompanha o espetáculo como quem olha a vitrine de uma confeitaria fechada aos domingos.

As bandeirinhas continuam balançando ao vento, o sanfoneiro insiste no mesmo compasso, o locutor anuncia mais uma dança de quadrilha e só então o público sorri, acreditando tratar-se apenas de tradição popular.

Mas há quem conheça os passos ensaiados longe dos holofotes que levam a casamentos combinados, alianças improvisadas, trocas de pares e muita gente jurando inocência enquanto dança perfeitamente sincronizada. Como diria Chico, é gente que parece viver na Flor da Idade.

Não é de hoje que os arraiais do poder confundem folclore com realidade. Apenas aperfeiçoaram a cenografia, com roupas mais caras, aviões maiores, adegas mais sofisticadas e as justificativas mais refinadas. Não me levem a mal, porque volto Chico para lembrar que este ano, como nos anteriores, tem Quadrilha no arraial.

O problema é que toda festa acaba. Nessas ocasiões, a fogueira vira cinza, as bandeirinhas rasgam, o vinho termina, a sanfona silencia, e, quando amanhece, sobra apenas a praça coberta de copos descartáveis, promessas vazias e pegadas que levam exatamente ao velho costume de transformar o poder numa festa privada, paga com o dinheiro de quem sequer foi convidado para dançar.

Post scriptum – Em Goiás, terra de Celina Leão, parcerias master de gastronomia prometem fazer o eleitor de Brasília regurgitar tudo a caminho das urnas.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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