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ESPECIAL - Renato Russo

Que país é esse? Sujeira pra todo lado…



Carolina Paiva e Nair Assad

Numa noite de julho dos idos de 1983, circulando num palco minúsculo do projeto Rock Voador, a bordo de uma camiseta de cor branca e calça jeans, ambos puídos, um Renato Russo ainda desconhecido mostrava à plateia do Rio de Janeiro, sua cidade natal, a que viera.

Ali, cantando num timbre único e balançando-se de modo singular enquanto o público ia à loucura com suas letras, Renato começou a cravar seu nome na história do rock nacional. De lá para cá nada mudou. Nas favelas/No Senado/Sujeira pra todo lado/Ninguém respeita a Constituição/Mas todos acreditam no futuro da nação.

Desde então, o cenário musical brasileiro ganharia mais que um cantor talentoso, figura politizada, inteligente, sensível e um letrista de mão cheia, mas sim um poeta. Algumas de suas conjecturas, por exemplo, traduzem os tempos atuais.

“Olha, a ignorância é vizinha da maldade. Isso é batata. Mas o que acontece no Brasil, eu acho que talvez seja o último estágio. Isso vem desde o descobrimento. Para cá vieram ladrão, louco, preso político, entendeu? Essa corja está aí até hoje. O povo, mesmo, está todo mundo ciente disso”.

Quis o trágico destino que Renato, de sobrenome Manfredini na certidão, nascido na madrugada de 27 de março de 1960, em uma clínica do Rio de Janeiro, falecesse em outra madrugada, a de 11 de outubro de 1996, no mesmo Rio que já conhecia e admirava o artista que se tornou uma espécie de mito da música nacional. Um mito vencido por complicações desses vírus que andam espalhados por aí.

Renato viveu curtos 36 anos. Tempo suficiente para deixar seu trabalho imortal. Um tempo, porém, que contrariou o objetivo do próprio cantor.

“Vou escrever um livro quando chegar aos 50 anos. No fundo, quero ser imortal”, contava Renato Russo.

Esse seu lado imortal vingou. Tanto, que o trabalho e a vida dele começam a ser revitalizados a partir de outubro. Serão muitas homenagens, como uma exposição com as suas relíquias no Museu da Imagem e do Som, em São Paulo; o lançamento de uma caixa especial, pela Universal Music, com toda a obra solo do artista; um musical que estreia 11 de outubro no Rio; lançamento do filme “Eduardo e Mônica”; e ainda, a nova edição da biografia “Renato Russo, o filho da revolução” de Carlos Marcelo.

Tudo para recordar e comemorar obra e personalidade 20 anos após a despedida do letrista, cantor, poeta e exímio entendedor do espírito brasileiro.

“O que a gente precisa é de decência, sabedoria, comida e trabalho para as pessoas. E foda-se o resto. Eu não falo isso demagogicamente. Eu não preciso mentir, eu nunca menti. Quer dizer, eu já menti aqui e ali, mas não é aquela coisa: ‘Oh, ele é falso… Ele atira em sua própria gente para provar que não é um deles’. Isso tudo está voltando, a gente está no fim dos tempos”.

Frases assim e canções emblemáticas do astro permanecem fortes como o mito construído em torno da figura de um homem de temperamento ansioso e drásticas oscilações de humor. Um homem que se transformou em uma das pessoas mais emblemáticas da história da redemocratização brasileira, com suas opiniões apresentadas em canções que funcionavam como feixes de pólvora, ateando fogo em um Brasil que tentava domar o dragão da inflação e que respirava por vida.

“Eu prefiro falar numa linguagem simples, mas dizendo coisas que realmente me são caras, preciosas, tipo: ‘Disseste que se tua voz fosse igual à imensa dor que sentes, teu grito acordaria não só a tua casa, mas a vizinhança inteira’. Isso poderia ter sido escrito há dois mil anos, como pode ter sido escrito agora. Daqui a dois mil anos, ainda vai existir vizinhança”.

Com pensamentos assim, não por acaso, Renato continua a atear fogo na cena musical e política brasileira ao longo dos últimos 20 anos, mesmo sem a sua presença física.

Que País É Esse?, composta quando Renato Russo tinha apenas 15 anos, por exemplo, se tornou grito de guerra nas recentes manifestações políticas espalhadas pelas ruas de todo o país. Facetas de quem nasceu para nunca ser esquecido. […] Brasil vai ficar rico/Vamos faturar um milhão/Quando vendermos todas as almas/Dos nossos índios num leilão.

“No fundo, quero ser imortal”, ele dizia.

E você é, Renato.

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