Diante do incontestável, inédito e vergonhoso escândalo envolvendo o Supremo Tribunal, nada melhor do que aproveitar o domingo para narrativas mais amenas, mas também sérias. Então, vamos lá. Consumo obras de autores de variadas nacionalidades e perfis. Um dos preferidos, o alemão Friedrich Nietzsche é o dono de uma das frases mais simbólicas dos tempos atuais: “Os pensamentos são as sombras dos nossos sentimentos, sempre mais escuros, mas vazios e mais simples”. Atingimos o topo de uma existência em que, por vezes, as pessoas não querem ouvir a verdade porque não desejam que suas ilusões sejam destruídas. São os vendilhões da Pátria, para os quais a fé cega é sinônimo de ignorar tudo o que é verdade.
Acabou o amor em forma de poesia, as palavras em forma de amor, a literatura em nome da paz e as flores em forma de protesto. E o que restou? A dor de saber que o amor, a poesia e o protesto viraram paliativos contra o verdadeiro patriotismo, contra alguns iguais e contra os cornos exagerados. Eu já cantei I can’t get no, também conhecida por Satisfaction, sem saber que um dia ouviria Caneta Azul. Pior do que me imaginar de Fuscão Preto foi trocar 50 reais por Aquele 1%. Depois de uma longa prosa com Morfeu, despertei justamente após a épica fase em que sobrava anarquia organizada e reuniões comunitárias com objetivos sérios e coletivos.
Acordei já sem as jovens tardes de domingo. O que era devaneio musical virou viagem pelo mundo da inspiração e da incapacidade de contar histórias em estrofes e por meio de versos. Em suma, silenciaram o que calava fundo na alma libertária e ávida por um futuro de sabedoria. Quem do meu tempo nunca se imaginou ao lado de Paulo Diniz tomando Um chope pra distrair. Os sonhos de consumo eram chegar aos Canteiros do Fagner, ajudar a Sá, Rodrix e Guarabyra caçando a baleia do Mestre Jonas e, se desse, se unir a Belchior na tentativa de também ser um Rapaz latino-americano.
As letras tinham histórias e as melodias invariavelmente recebiam tratamento especial sobre partituras bem definidas. Os ídolos não eram fabricados do dia para a noite, tampouco mereciam descartes na mesma proporção. Apesar da Namoradinha de um amigo meu, o amor sem multiplicidade estava na moda. De Calhambeque, de Mustang cor de sangue ou de Brasília amarela, todos estavam sempre em busca dele. Como dizia uma antiga, mas viva cantante da Jovem Guarda, era o Tempo do amor, da Alegria, alegria e da seriedade e temperança no Supremo Tribunal Federal.
O negacionismo, as desventuras, as facadas, as brigas públicas entre juízes e o velho da cabeça branca não passavam de invenções dos que sofriam do mal da falta do que fazer. Antes somente uma coisa que atingiam os corações apaixonados e punham na cabeça dos homens, hoje as punhaladas e os chifres são modismos entre os popstars. Sangram da cabeça aos pés e não há mais qualquer forma de conviver sem eles. Hoje, se faz com até oito pessoas, mas o compositor diz que seu coração será sempre da outra. Não sei se me compadeço ou se me convenço da necessidade do chifre de tarraxa, aquele que o homem tira quando quer parecer acima de suspeitas.
Tudo bem que tenha acontecido com Sinhozinho Malta e Grazi Massafera, mas é demais dizer que cornitude e traição são assuntos dos assuntos. Desde menino do pré-primário aprendi que chifre dói e foi feito para doer. Portanto, para quem não dispõe de cantilogência enciclopédica ou não tem perfil de corno manso, o melhor caminho ainda é se manter longe do Domingo de manhã, esquecer a gíria porto-alegrense Deu pra ti e se apegar de vez a Jorge da Capadócia. Daí, quem sabe o telefone toca novamente e, de repente, você dá de cara com os alquimistas chegando. Não se preocupe, pois, parafraseando Jorge Ben, Errare humanum est.
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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

