Presidenciáveis, candidatos ao enriquecimento fácil e duvidoso e os eternos candidatos a candidatos continuam ocupando o horário político gratuito para despejar mentiras, falsas promessas e ilações que o povo não aguenta mais. Uma pena que, para boa parte deles, a cadeia nacional de rádio e televisão seja apenas no sentido figurado. Não fosse, certamente metade mais um dos brasileiros a essa altura estaria comemorando e não esbravejando contra os que, sabidamente, só pensam em se dar bem. O povo? O povo que se exploda.
Escrevo negativamente por dever de ofício. No entanto, não há como negar que eles estão fazendo o papel que, por omissão ou excesso de confiança, o próprio eleitor confere àqueles que buscam um futuro rico, sem sobressaltos e, em alguns casos, imunes e impunes, isto é, livres de qualquer punição. Na verdade, na maioria dos casos. Embora meia de metidos a patriotas sejam contrários ao sistema, a democracia é a “culpada” pela criação dessa casta que só pensa em se servir.
Conforme Mário Quintana, democracia é dar a todos o mesmo ponto de partida. “Quanto ao ponto de chegada, isso depende de cada um”. O problema é que, entra ano e sai ano, o cada um cada vez mais pensa somente em si. É o mesmo regime que permite, por exemplo, ao presidenciável Romeu Zema, dono de uma fortuna de R$ 128 milhões, falar pelo povo e para o povo. Infelizmente, podemos nos envergonhar de determinados democratas, mas, é por meio do sistema de igualdade política, que, da gaiola dos macacos, os desiguais gerem o circo.
Não por outra razão, Carlos Drummond de Andrade perpetuou a democracia como a forma de governo em que o povo imagina estar no poder. Apesar de todos os eventuais defeitos, ruim com ela, pior sem ela. Ainda sobre o horário político, ele deve ser considerado a essência da democracia, na medida em que, quem está do outro lado da telinha, se sente na obrigação de ouvir o que outro quer dizer por meio do rádio e da TV. Normalmente são besteiras e promessas nas quais nem mesmo eles acreditam.
Por exemplo, alguém precisa informar às futuras excelências que iminente é algo prestes a acontecer e eminente é alguém ilustre ou importante. Eles ainda estão longe da iminência de se transformarem em pessoas emitentes. Difícil de entender e de ouvir é a confusão sobre saneamento básico nada tem a ver com aquecimento global. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. São asneiras que fazem parte do dia a dia cartesiano do deputado Tiririca. Em outras palavras, não nos preocupemos, pois pior do que está não fica.
No jargão do Judiciário, o fato concreto é que temos de respeitar a liberdade de expressão, que também é uma das bases da democracia plena e absoluta. O problema dos programas políticos é que boa parte dos candidatos também confunde a caça ao voto com uma prova de títulos. Como cidadão e eleitor preocupado apenas com o trabalho de quem quer se transformar em pessoa pública, qual a importância de saber que ele (a) é enfermeiro, médico, professor, coronel, general, engenheiro ou jornalista?
Como o eleitor está careca, gordo e velho de saber que nunca se mente tanto antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada, sejam somente candidatos. Já é demais para os nossos ouvidos moucos. Democracia é uma via de mão dupla. Por isso, do mesmo modo que tenho de ouvir o que não quero, tenho o direito de dizer o que quero. Independentemente do cargo, o eleito terá de trabalhar indistintamente para a população brasileira. Portanto, o mínimo de que precisamos é a consciência de que todos pagam pela tolice dos bajuladores. O lado ruim da democracia é quando o povo que adora bajular não sabe utilizá-la.
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais

