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Lívia

A LOIRA TERRORISTA

Publicado

Autor/Imagem:
Maria Lúcia Flores do Espírito Santo Meireles - Foto Francisco Filipino

Lívia é sobrinha do meu esposo, linda, maravilhosa, boa pessoa, boníssima, aliás, e loira natural.

Fora criada com meus filhos, a melhor amiga da minha filha desde sempre. Não saía lá de casa. Viajávamos, ela ia junto. Normal, como a gente ama os filhos da gente.

Porém, depois dos quarenta, Lívia inventou de ser terrorista. Calma! Pra tudo tem uma explicação.

Lívia não se contentou em ser sobrinha só do lado do meu esposo, foi namorar meu primogênito sobrinho, meu primeiro amor. Sabe, quando a gente é adolescente e ganha um sobrinho?

É uma emoção indescritível. Eu ficava fazendo coraçãozinho escrito o nome dele, não o tirava da cabeça.

Todos os colegas achavam que eu estava apaixonada, como namorada, mas não era, era pelo meu quase filho.

Aí, pronto. Selou de vez o meu amor pela Lívia, dobrou o amor.

Meu cunhado é daqueles homens que passam em frente ao hospital só se não tiver outra rua para evitar. Forte como um touro, nunca adoecera, nunca precisou de tomar uma Cibalena na vida. Lógico, era totalmente sem nenhuma intimidade com médicos, exames, farmácia. Nunca foi cotidiano dele, nunca precisou.

Mas, como toda máquina, com o tempo vai dando um defeitinho aqui, outro ali, ele, com setenta, não conseguiu fugir à regra. Teve um problema de saúde médio, nem grave e nem à toa. Precisava de ir ao médico.

Com custa de muita oração e jejum da minha irmã, ele aceitou fazer uma visita ao médico. Mas, hoje em dia, nenhum médico dá diagnóstico por intuição, como antigamente, e pediu todos os tipos de exames possíveis e imaginários, para aproveitar a visita.

— Eu? Eu fazer esse tanto de exame? Mas não vou de jeito nenhum! — já saiu do hospital avisando.

Minha irmã não sabia o que fazer. Já tinha gastado todo o repertório de orações só pra conseguir fazê-lo chegar ao consultório. Pediu ajuda aos filhos, aos netos, inclusive, duas da área da saúde, uma médica e uma fisioterapeuta. Nada. Ninguém conseguiu convencê-lo.

A Lívia é farmacêutica e trabalha no SAMU, acostumada a ver horrores todos os dias. Minha irmã não conseguindo ajuda e Lívia só olhando, só matutando o que falar ao sogro.

Um dia, minha irmã, cansada, estressada, não aguentou, desabafou:

— Lívia, eu não sei o que fazer para seu sogro fazer os exames que o médico pediu.

Lívia cruzou as lindas pernas, segurou o queixo com a mão e ficou pensando… pensando… pensando.

— Pode deixar, eu vou falar com ele, mas você, que já trabalhou muitos anos em hospital, vai me ajudar.

Lívia chegou normalmente como se não quisesse nada e começou a falar com o sogro. E minha irmã confirmando e aumentando o máximo que podia. Eu queria até ter visto.

Meu cunhado ficou escutando e só arregalando os olhos, quase que a íris pulou fora. Realmente, eu não sei o que a Lívia falou, só sei que ela fez um terror tão grande, que meu cunhado disse:

— Eu vou! Eu vou!

Quase saiu correndo pra ir fazer os exames.

Conhecendo Lívia, como conheço, só fico pensando que vocábulos ela usou. Santo Deus!

Botou o terror.

Pra Lívia ter conseguido este feito, o terror foi incrivelmente terrível.

Virou A LOIRA TERRORISTA.

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