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Peso da cruz

Fogueira da vaidade queima dinheiro público no São João do Cerrado

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Autor/Imagem:
José Seabra - Foto Editoria de Artes/IA

Cláudio Abrantes sempre soube escolher bem seus figurinos. Vestiu-se de Jesus Cristo no Morro da Capelinha, ganhou votos, ganhou mandato, ganhou carreira. O problema é que, longe do calvário cenográfico e das palmas emocionadas da plateia, a política cobra pecados bem mais terrenos. E coube ao Tribunal de Contas do Distrito Federal fazer o papel que ninguém gosta: o do apóstolo que pergunta onde foi parar o dinheiro.

O TCDF fechou o cerco. Desta vez, não é perseguição, não é martírio, não é encenação. É papel, número, termo de fomento e R$ 450 mil de recursos públicos gastos no chamado “Maior São João do Cerrado”, um evento que, segundo a denúncia, virou uma espécie de fogueira da vaidade, com muito brilho, muito artista mas pouca explicação.

Noventa e cinco por cento do dinheiro teria sido torrado em cachês artísticos. Noventa e cinco. A Lei 13.019/2014, aquela que exige cooperação real entre Estado e sociedade civil, virou figurante numa peça em que o protagonista é o repasse puro e simples. E Abrantes fez o milagre não da multiplicação dos pães, e sim o da velha multiplicação de contratos.

O detalhe constrangedor é que essa história não começa agora. Em outubro de 2025, o TCDF já havia pedido esclarecimentos. A Secretaria de Cultura simplesmente não respondeu. Preferiu o silêncio bíblico, aquele que antecede a negação de Pedro. Agora, ganhou mais dez dias. Dez. Nem no deserto Moisés precisou de tanto prazo para explicar seus atos.

E o problema não é só o São João de Abrantes. O buraco é bem mais fundo — e coletivo. Em 2023, 79% dos recursos de parcerias culturais simplesmente não foram analisados ou não tiveram prestação de contas concluída. Em 2024, o índice segue obsceno: 71% do dinheiro público sem comprovação adequada. O milagre aqui é outro: o de fazer sumir números sem precisar de água benta.

A Secretaria de Cultura parece ter transformado a análise de contas numa via-crúcis interminável, onde processos se acumulam como pecados não confessados. Enquanto isso, os eventos florescem, os palcos crescem, os cachês engordam e a transparência, que deveria ser sinônimo de moralidade, continua crucificada.

Cláudio Abrantes, agora no PSD, carrega um peso que nem a cruz cenográfica do Morro da Capelinha ajuda a aliviar. Pelo andar da carruagem — ou pelo peso da cruz — nem Jesus faz milagre administrativo. Mesmo porque, o Tribunal de Contas não aceita parábola. Quer nota fiscal, planilha, recibo e explicação.

No fim das contas, o problema não é fazer festa. O problema é fazer festa com dinheiro público, sem explicar direito, achando que fé resolve o que só a contabilidade pode esclarecer. Cláudio Abrantes precisa entender que política não é teatro religioso. E o TCDF, definitivamente, não está na plateia para aplaudir.

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José Seabra é CEO fundador de Notibras

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