Sem mantras
Federalização do BRB entra no radar do Banco Central
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O 2 de março não foi um dia qualquer na política brasiliense. Foi o dia em que a crise do Banco de Brasília deixou de ser um cochicho técnico entre diretores engravatados e virou assunto de plenário, corredor e gabinete fechado. Depois de quase 12 horas de reunião — com longos trechos a portas trancadas — Nelson Antônio de Souza avisou, sem rodeios dramáticos, que sem o PL nº 2.175/2026 o banco pode enfrentar inviabilidade operacional. Na tradução política isso significa que o problema não ficaria restrito ao balanço; respingaria no funcionalismo, no mercado e no próprio governo.
Pode-se negar em público, mas o fato é que o BRB já entrou no radar do Banco Central para uma eventual federalização. E quando esse fantasma começa a circular, não é porque o céu está azul. Nelson, que chegou a marcar e desmarcar entrevista com Notibras sem motivação aparente, não apresentou aos deputados argumento inédito. Repetiu, com pequenas variações de tom, o mantra oficial. Algo do tipo “insegurança jurídica gera instabilidade, que gera restrição de mercado, que gera efeito dominó”. A narrativa mistura alerta técnico com senso de urgência política. O recado aos distritais foi direto, ou seja, votar sob pressão pode ser desconfortável, mas não votar pode sair mais caro.
Ao admitir falhas na condução do processo envolvendo o Banco Master, o presidente buscou vestir o figurino da transparência responsável. Reconheceu tropeços, mas tratou o passado como capítulo encerrado. O foco, segundo ele, é garantir os instrumentos legais para recompor patrimônio, sustentar a solvência e evitar que o banco perca musculatura operacional. O banco funciona, insiste a direção. Mas precisa de oxigênio jurídico para não entrar em asfixia institucional.
O problema é que, enquanto o Executivo pede pressa, a própria Câmara decidiu puxar o freio. A Consultoria Legislativa produziu uma nota técnica robusta recomendando a rejeição do projeto na forma atual. O documento aponta ausência de estimativa formal de impacto orçamentário-financeiro compatível com a Lei de Responsabilidade Fiscal, lacunas na compatibilidade com LOA, LDO e PPA, inexistência de avaliação econômica prévia dos bens públicos envolvidos e riscos jurídicos na modelagem patrimonial. De quebra, levanta dúvidas sobre limites de endividamento e capacidade de pagamento do Distrito Federal.
Não é discurso inflamado de oposição em microfone aberto. É parecer técnico interno. E isso muda o jogo. A votação deixa de ser ato protocolar e vira confronto explícito entre a narrativa de urgência do Executivo e o diagnóstico formal da própria Casa.
Surge, então, a tal emenda distrital, vendida como ponte possível. Exige plano formal de retorno econômico ao DF antes de qualquer aporte, com metas, prazos e mecanismos de compensação. É o colete à prova de desgaste político para quem cogita votar “sim”, mas não quer sair chamuscado. Ainda assim, as fragilidades apontadas não evaporam; apenas ganham embalagem mais palatável.
Nos bastidores, a palavra “federalização” circula com intensidade crescente. Oficialmente negada, extraoficialmente debatida. Para alguns, seria saída técnica caso o impasse persista. Para outros, rearranjo político de maior alcance. Há ainda quem sustente que, para o cidadão comum, a eventual incorporação por banco federal não representaria prejuízo direto, dada a robustez dessas instituições. O simples fato de essa hipótese ter deixado o sussurro e alcançado as conversas francas já revela que o debate extrapolou a tramitação de um projeto.
O que está em jogo não é apenas um texto legislativo. É a escolha de qual risco assumir: aprovar um projeto que a consultoria recomenda rever — e assumir o desgaste futuro — ou rejeitar a proposta e conviver com a narrativa de inviabilidade operacional propagada pela direção do banco e pelo Palácio.
Diferentemente de outras votações estratégicas do governo, desta vez o automático emperrou. Doze horas de explicações não produziram consenso instantâneo. E, em Brasília, quando o consenso não nasce no mesmo dia, é porque o cálculo político ficou mais complexo do que o governo previa. O BRB, afinal, saiu do cofre técnico e entrou na arena. E, na arena, principalmente quando montada em ano eleitoral, o que decide não é só planilha, mas em especial, o poder.
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Carolina Paiva é Editora do Quadradinho em Foco