Delicadeza
A primeira vez que vi Porto Alegre
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A primeira vez que vi Porto Alegre
era primavera.
A cidade me enganou com delicadeza.
As árvores estavam acesas de flores,
as ruas tinham cheiro doce,
e o vento carregava pólen como promessa.
Eu espirrava alegria
como quem descobre um lugar
onde o peito cabe inteiro.
Se tivesse vindo no verão,
no calor que pesa sobre o asfalto,
talvez tivesse fugido para sempre.
Talvez tivesse confundido intensidade com excesso
e ido embora antes de entender.
Mas era primavera,
e a cidade me tomou pela mão
sem que eu percebesse.
A segunda vez que vi Porto Alegre
achei que o verão fosse brincadeira.
Um exagero passageiro.
Fui ficando.
Ficando…
Entre um calor e outro,
entre um vento sul e outro,
aprendi a esperar a próxima estação.
Hoje,
mesmo quando o céu pesa e o ar queima,
há algo aqui que me respira por dentro.
Não sei se foi o pólen,
ou o engano inicial,
ou essa forma discreta de pertencer.
Só sei que agora
não consigo mais ir embora.