Curta nossa página


Entre a sobrevivência e a revolução

O que significa dizer que ela será feminista?

Publicado

Autor/Imagem:
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Quero acreditar e luto acreditando que a revolução será feminista. Mas a crença, por si só, não altera estruturas. Ela precisa se converter em prática, organização e estratégia. A pergunta que se impõe é direta: como transformar convicção em transformação concreta quando, simultaneamente, precisamos lutar para não morrer?

Dizer que a revolução será feminista não é repetir um slogan. É afirmar que qualquer reorganização real da sociedade precisará enfrentar o patriarcado como sistema político. Silvia Federici demonstrou que o controle sobre o corpo das mulheres foi condição histórica para a consolidação do capitalismo. Angela Davis evidenciou que gênero, raça e classe operam de forma indissociável. Não se trata de uma pauta identitária isolada, mas de reestruturar as bases da exploração social.

Mas como fazer isso?

Tatuar no braço é afirmação simbólica. Escrever textos é disputa narrativa. Entrar na política institucional é ocupação de espaço decisório. Nenhuma dessas ações é irrelevante. A transformação social ocorre em múltiplas frentes. O erro está em supor que exista um único caminho ou um gesto suficientemente grandioso que resolva o problema estrutural.

A antropóloga Rita Segato argumenta que a violência contra as mulheres é uma mensagem de poder dirigida a toda a sociedade. Se a violência é mensagem, a resposta precisa ser contra-mensagem articulada. Isso implica fortalecer redes de proteção, pressionar por políticas públicas eficazes, disputar orçamento, exigir responsabilização estatal. Implica também disputar imaginários, porque a cultura legitima ou deslegitima práticas.

Entretanto, há uma tensão real: como fazer revolução quando estamos sob ameaça? Como organizar o futuro quando o presente exige sobrevivência? Essa é a condição histórica das mulheres, sobretudo das mulheres negras e periféricas. A luta feminista, no Brasil, nunca foi apenas por igualdade abstrata; foi luta por vida. A própria formulação de Lélia Gonzalez já indicava que não há emancipação possível sem enfrentar o racismo estrutural que define quem vive e quem morre.

Talvez a pergunta “como resolver o problema da sociedade?” precise ser deslocada. Não se trata de resolver sozinha, nem de esperar um evento revolucionário súbito. Trata-se de acumulação histórica. Movimentos sociais, produção acadêmica, ocupação institucional, educação crítica, mobilização jurídica, organização comunitária. Revoluções são processos, não atos isolados.

Ao mesmo tempo, é legítimo reconhecer o cansaço e o medo. A cada feminicídio, a cada estupro coletivo, a cada estatística, o corpo social feminino é lembrado de sua vulnerabilidade. Mas a vulnerabilidade não é sinônimo de impotência. É precisamente porque há risco que a organização se torna urgente.

A revolução será feminista se for coletiva. Se não reproduzir as hierarquias que critica. Se incorporar a interseccionalidade como prática e não apenas como conceito. Se compreender que não basta ocupar espaços; é necessário transformá-los.

Talvez não veremos o “resultado final”. Mas veremos deslocamentos. E cada deslocamento importa.

Entre tatuar no braço, escrever textos e disputar eleições, a pergunta mais estratégica talvez seja: onde minha ação produz mais efeito estrutural? E, sobretudo, com quem estou articulada?

Porque nenhuma mulher faz revolução sozinha. E nenhuma sociedade se transforma sem enfrentar, de forma radical, as estruturas que autorizam que nos matem.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.