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Puxando o tapete

Como no futebol, a política é um jogo onde também é preciso saber perder

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Autor/Imagem:
Heliodoro Quaresma - Foto de Arquivo

Um dos poucos países – talvez o único – em que boa parte do povo paga para ser infeliz, para sofrer, o Brasil de nossos dias é o país das idiossincrasias, da incoerência, da hipocrisia. Oh! Triste Brasil! Quando não é golpeado ou falham na sua condução, agem como crianças fanáticas pelo que não podem ter. O Brasil atual é a décima economia do planeta, está entre os melhores do mundo no futebol, no tênis, no tênis de mesa, no voleibol e no futsal. A maioria de nós fica triste porque não somos os primeiros. No entanto, estamos na 85º. posição do quesito educação e não há tristeza.

Estivemos prestes a perder nosso bem maior, a liberdade, e muitos se insurgiram – e se insurgem – porque as teses negacionistas, revanchistas, intolerantes e odiosas foram derrotadas. Ainda mais triste é perceber diariamente o quantitativo de pessoas que se dizem patriotas, mas só propagam pensamentos individualistas, egocentrista golpistas e, por consequência, tirânicos. É triste, mas é verdadeira a quantidade de brasileiros que precisam derrubar outros para se sentirem de pé.

Imagino que tristeza maior deve sentir aqueles que vivem fugindo da realidade e sempre acreditando em uma ilusão. São os que pagam para sofrer. Saem às ruas, acompanham manifestações, passeatas e carreatas por nada. Revivem um passado que, pelo menos agora, não voltará. Seria o chamado prazer de sofrer? Quem sabe o desejo de sofrer duas vezes. Esse tipo de sentimento normalmente ocorre com os que acham que já sabem tudo e, por isso, teimam em revisitar o impossível, mas não se permitem virar a página.

Tudo isso tem a ver com a dificuldade de convívio com a derrota. Esta semana, vimos um bando de torcedores pagar ingresso para chamar de sem-vergonha uma equipe e um técnico multicampeão. Pagaram para sofrer, ainda que o time do coração tenha aplicado ao adversário uma sonora goleada. Esqueceram que, para um ganhar, o outro tem de perder. Como dizem os mais sábios, saber perder e reconhecer o motivo de ter perdido é uma demonstração singela de caráter e respeito. Essa sapiência aquele grupo político não tem e, ao que tudo indica, nunca terá.

Faz quatro anos estamos assistindo ao grupelho que investe fortunas na queda de um adversário vencedor se afundar politicamente. Embora vista as mesmas cores dos imbecilizados torcedores que não aprenderam a perder, torcerei para que o clube que aprendi a amar perca o número necessário de partidas para que consiga alcançar a humildade de saber perder mesmo quando se queira ganhar. Com a mesma intensidade, torço para que aquele ex-presidente e seus indicados claudiquem até que seus seguidores aprendam que ganhar e perder são virtudes igualmente divinas.

Felizes aqueles que ainda não sabem tudo, pois estão tendo sempre uma oportunidade de aprender alguma coisa. A todos que defendem a paz e a harmonia entre os povos, a sugestão é para desperdiçar a chance de ser feliz por medo de não dar certo. Vencedor da soberba administrativa, o técnico demitido exclusivamente para atender os que pagam para sofrer deve servir de ideal pessoal. Ser admirado é bom. Entretanto, muito mais importante e sustentável é ser compreendido e, principalmente, ser respeitado. Ele é. Seu similar político, o comandante em chefe do país, também é. Oremos pelo Brasil que dá certo, apesar das pragas dos que se dizem patriotas.

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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha Remington como troféu na estante da sala, e escreve com seu Notebook artigos pontuais para Notibras

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