Maria
A história de um assassinato
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Maria estava especialmente feliz naquela manhã.
Depois de dezoito meses de terapia, grupos de apoio e uma difícil reconciliação com a família — a mesma que abandonara aos quinze anos, acreditando ter encontrado o amor — ela finalmente começava a sentir algo que há muito desconhecia: inteireza. Pela primeira vez em duas décadas, reconhecia-se como indivíduo.
Agora aos trinta e cinco anos, compreendia o quanto fora ingênua. Achava que o amor tinha dessas coisas. O primeiro tapa não pareceu tão grave, afinal, crescera acostumada às surras do pai. Quando vieram os socos, prometeu a si mesma que seria melhor, mais dócil, mais cuidadosa. Esforçou-se para agradar aquele que se tornara seu marido, mas, apesar de todo empenho, a violência não diminuía. Ao contrário: intensificava-se. Até o dia em que ele tentou matá-la.
Neste momento, reconheceu que as situações vivenciadas não eram normais. Observou que a dor persistente no peito era tão intensa quanto as marcas visíveis na pele. Constatações como o abandono escolar, a restrição de amizades, a proibição de trabalhar fora do lar e a imposição de estar sempre disponível para atender exigências humilhantes configuravam formas de violência. Tais ações revelaram-se tão graves quanto a facada sofrida quando decidiu buscar sua autonomia.
Ainda chorava ao lembrar da menina que fora. Na escola, diziam que era a melhor aluna, que se tornaria escritora. Havia nela um talento natural com as palavras. Chorava porque seus sonhos não foram esquecidos: foram arrancados. E com eles, vinte anos de vida.
Mas naquela manhã estava certa de que os anos ruins haviam acabado. Durante a terapia, foi incentivada a colocar seus sentimentos no papel. As primeiras linhas surgiram trêmulas, fruto do desuso e do trauma: ele, analfabeto, a proibia de escrever alegando quea existência de supostos amantes com quem ela poderia se corresponder com supostos amantes, mas no fundo, Maria sabia que a verdade era que: o monstro não podia admitir que a mulher, sua propriedade, soubesse ler e ele não.
Junto com sua autoestima recém adquirida, seus traços se tornaram mais firmes, assim como sua determinação em ser feliz, e logo começou a colocar no papel as histórias que povoavam sua mente — único recanto de seu corpo que conseguiu manter longe do domínio do assassino, durante seus anos no inferno.
Suas histórias começaram a circular na casa de apoio. Depois em outras casas. Logo, atravessaram portas maiores. Falava-se, com entusiasmo crescente, na possibilidade de um livro.
Ainda naquela mesma manhã, observando algumas crianças felizes brincando pelo parque, pensou que de sua antiga vida havia apenas uma coisa pela qual era grata: seu algoz não conseguira engravidá-la. Estremeceu ao imaginar que destino teria uma criança concebida em meio aos atos de abuso a que era submetida.
Em um desses momentos inexplicáveis, que somente os mais inspirados escritores entenderiam, Maria sentiu algo poderoso, um amor imenso irrompeu do seu peito e baixinho de forma quase inaudível falou:
—Quero ser mãe.
Ao pronunciar aquelas palavras, imaginou-se contando suas histórias para a criança que ainda não existia, e num jorro de ideias e sonhos reavivados, ela começou a tecer em sua mente a trama de uma linda história, um enredo de luta, esperança e bondade. Em sua fértil mente iam desfilando os personagens, surgindo cenários, tramas eram elaboradas e logo toda a história que imaginara estava delineada em sua mente.
Quando voltou a si, sorria. Tinha certeza de que aquela história seria a mais importante de todas. Escrevê-la seria um ato de amor — para o filho ou filha que ainda não fora gerado, mas que já habitava seu coração. Queria provar a essa criança que o amor ainda era o sentimento mais forte do mundo. Mesmo depois de tudo. Mesmo tendo sido privada dele por tanto tempo.
O que importava era o agora.
Aquela nova vida, onde seus sonhos tinham valor.
Aquela manhã já terminava quando, decidida a escrever os primeiros esboços da história que fervilhava em sua mente, levantou-se do banco em que estava sentada e caminhou apressada, quase leve, como se cada passo fosse um pequeno salto rumo ao futuro.
Era para aquela manhã terminar assim.
Mas o destino não respeita planos humanos, tampouco se sensibiliza com momentos grandiosos de descobertas pessoais. Se fosse esse o caso, daria um jeito de permitir que alguma distração qualquer atrasasse os passos de Maria, de modo que ela não estivesse exatamente no ponto da calçada em que um ônibus desgovernado subiu, após uma batida violenta, provocada pelo carro de um motorista que passará mal ao volante.
A distância entre o local da batida e o corpo de Maria, única vítima fatal do acidente, evidenciava a violência do impacto. Algumas testemunhas horrorizadas com a cena, lembravam-se nitidamente da expressão de felicidade da mulher pouco antes de sua morte horrível, mas ninguém nunca soube qual o motivo do sorriso.
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Talvez você esteja se perguntando por que o nome do conto é “A história de um assassinato”, afinal, a protagonista morre em um acidente comum.
De fato, sua morte física ocorreu de uma forma repentina, sem conexão com sua história de vida, algo a que todos nós estamos sujeitos. Por esse motivo é que sempre dizemos e ouvimos coisas do tipo: “Viva cada dia como se fosse o seu último, porque um dia será”.
O assassinato a que me refiro ocorreu bem antes, quando Maria (Nome tão comum para combinar com uma dor tão comum a tantas mulheres) foi privada de fazer as próprias escolhas, quando um homem (que no texto foi desumanizado por meio de expressões como algoz, assassino, monstro, mas no final das contas…um homem) aniquilou a escritora sonhadora para manter a posse sobre a mulher, enterrando em vida os sonhos de uma menina que, embora tenha recuperado a voz no último suspiro, teve sua obra mais importante interrompida não pelo metal do ônibus, mas pelo tempo que lhe foi roubado e que nunca mais voltará.