Tietes de Satã
Boa ou ruim para o Brasil, a guerra é uma paixão indecente
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Tão ou mais angustiado do que correntista do Banco Regional de Brasília, tenho assistido às últimas invasões determinadas pelo czar – ou seria imperador? – Donald Trump sem passionalismo, sem ideologias e cada vez mais convicto de que, acima da tirania sanguinária, o líder dos republicanos norte-americanos é um Midas. Onde ele ataca tem petróleo. Foi assim na Venezuela, é assim no Irã e, antes deles, já foi assim no Iraque, na Líbia, na Síria, no Afeganistão e na Palestina. Os EUA não invadiram, mas controlam os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, o Catar e o Kuwait, todos largos produtores de petróleo.
Além de sortudo em relação ao ouro negro, Trump é um ótimo roteirista de séries de guerra. Tanto isso é verdade que, a cada novo capítulo, a trama diabólica cresce na preferência daqueles que, de frente para a TV, assistem a tudo como se estivessem procurando um novo assassino para Odete Roitman ou, quem sabe, uma justificativa para o fracassado golpe de 8 de janeiro de 2023. São os fulanos, beltranos e ciclanos que não estão nem aí para a morte em massa de inocentes. Como tietes de Satã e de seu discípulo israelense, esses tipos são aqueles que, no Brasil e no mundo, trabalham silenciosamente e atiram livremente em qualquer um que trabalhe por um futuro mais inclusivo.
Do meu catre envolto pela paz, afirmo que o mais odioso de uma guerra é a paixão que se tem por ela. Infelizmente, somos vizinhos ou convivemos diariamente com numerosas pessoas que pensam dessa forma. Como dizem os pacificadores, quem quer a guerra está em guerra consigo. Provavelmente Trump não se olha no espelho, pois, se o fizer, certamente será um homem morto. O mesmo presidente tem dito a aliados que os soldados estadunidenses são grandes guerreiros. Pura falácia de quem não tem coragem de lembrar que guerra não faz nenhum ser humano ficar maior ou menor.
Não aprecio, tampouco vibro com mísseis que acabam com esse ou com aquele bunker. Centenas de iranianos já viraram estatística. Também estão com Alá algumas dezenas de judeus e americanos. Enquanto isso, os EUA vendem mais armas, o preço do petróleo chega à estratosfera, o dólar sobe, as grandes economias claudicam, famílias perdem suas casas e seus entes queridos, trabalhadores ficam sem emprego e crianças sem escolas. É cada vez mais atual aquela velha história de que, quando os ricos fazem a guerra, são sempre os pobres que morrem.
Sou daqueles que têm certeza de que não há nada de bom na guerra, exceto o seu fim. Poucos sabem até onde irá a batalha entre EUA, Israel e Irã. No entanto, embora tudo esteja sujeito a mudanças nesse mundo de loucos, muitos acreditam que Trump e o Nobel da Paz definitivamente se perderam pelo caminho. Faz tempo que um não fala mais a língua do outro. Na verdade, nunca falaram. Em lugar de vibrar ou de torcer, mesmo de longe, lamento que a história de uma cultura milenar como a do Irã tenha ido para o buraco. A barbárie dos insanos líderes dos EUA já havia produzido isso no Japão e no Vietnã, entre outros países.
Não conheço a poetisa e artista plástica Inêz Oludé, mas me associo às suas lamentações sobre a cumplicidade e o apoio explícito de lideranças políticas, econômicas e sociais do Ocidente, inclusive do Brasil, às insanidades de Donald Trump e de Benjamin Netanyahu. A exemplo de Oludê, eu também vou chorar pelo fim do Irã como chorei por cada país agredido e cada semelhante morto pela sanha imperialista. Em recente artigo, a poetisa disse chorar principalmente pela humanidade que novamente perdeu o rumo e regrediu aos anos 40. Como brasileiro, não me interessa se um fará bem e outro mal para o Brasil. Diante de mais um conflito indecente e incandescente, me basta saber que, independentemente dos motivos da guerra, a paz sempre será mais importante do que eles.