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Deuses silenciosos

As lendas que navegam sobre o Eufrates e o Tigre

Publicado

Autor/Imagem:
Ana Paula Mendonça, Especial para Notibras - Foto Editoria de Artes/IA

Antes que os homens desenhassem fronteiras, antes que reis erguessem muralhas ou sacerdotes escrevessem em tábuas de argila o destino dos povos, já corriam, serenos e profundos, os rios Eufrates e Tigre. Entre suas margens nasceu não apenas a agricultura ou a primeira cidade: nasceu também o mistério.

Há quem diga que, em certas madrugadas sem vento, quando a névoa pousa rente à água como um véu de sacerdotisa antiga, ainda se ouvem vozes vindas do fundo dos rios — murmúrios em línguas esquecidas, como se os antigos escribas da Mesopotâmia continuassem registrando, invisíveis, o movimento do mundo.

Os velhos pescadores da região contam que o Eufrates jamais foi apenas um rio: ele seria um caminho líquido por onde transitavam mensagens dos deuses. Cada mudança súbita de corrente, cada redemoinho inesperado, cada reflexo estranho na superfície poderia significar um aviso de Enki, senhor das águas profundas, aquele que conhecia os segredos escondidos sob a terra e dentro da alma humana.

Segundo antigas tradições sumérias, quando a lua surgia muito vermelha sobre as águas, espíritos antigos deixavam os templos soterrados e caminhavam sobre as margens em silêncio, procurando nomes esquecidos, juramentos quebrados e promessas não cumpridas. Não eram espíritos de vingança — eram guardiões da memória, porque naquela terra esquecer sempre foi considerado uma forma de profanação.

Já o Tigre, mais veloz e imprevisível, sempre foi visto como rio de presságios. Diziam que suas águas guardavam a impaciência dos céus. Quando subia repentinamente, os sacerdotes interpretavam não apenas uma cheia, mas um diálogo entre os homens e Ishtar, deusa do amor, da guerra e das paixões violentas. O rio parecia refletir seu temperamento: ora suave, ora devastador.

Há também uma lenda quase esquecida segundo a qual, nas noites em que duas estrelas pareciam tocar o horizonte ao mesmo tempo, uma embarcação de luz atravessava silenciosamente o encontro invisível entre as correntes. Dentro dela viajaria um antigo rei sem nome, condenado a navegar eternamente porque desejou conhecer o segredo da imortalidade sem compreender o peso do tempo. Muitos associam essa sombra líquida ao eco distante de Gilgamesh, que, segundo os poemas antigos, buscou além das águas aquilo que nenhum homem conseguiu reter: a eternidade.

Em certas aldeias, ainda se acredita que árvores muito antigas próximas às margens não devem ser cortadas. Diz-se que nelas repousam pássaros que não pertencem inteiramente a este mundo — aves que teriam visto o nascimento de cidades como Uruk e Nínive e que carregam nas penas fragmentos de histórias jamais escritas.

Talvez por isso os rios da antiga Mesopotâmia nunca tenham sido apenas geografia. Eles são arquivos vivos. Cada corrente arrasta barro, ruínas, ossos de impérios e também símbolos que resistem ao tempo.

Porque onde a água passa, a memória permanece.

E há quem acredite que, se alguém permanecer em silêncio absoluto à beira dessas águas antes do nascer do sol, poderá ouvir algo raro: não o barulho do rio, mas o som do passado respirando.

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