EMANUELLE NASCIMENTO
8 DE MARÇO: QUANDO MATAM UMA MULHER, O MUNDO PERDE FUTURO
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Há algo de profundamente contraditório no modo como o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher. Multiplicam-se flores, homenagens institucionais e discursos apressados sobre força feminina. Mas, fora dos palcos simbólicos, a realidade permanece atravessada por uma pergunta incômoda: o que significa celebrar mulheres em uma sociedade onde tantas ainda precisam lutar simplesmente para permanecer vivas?
Ser mulher nunca foi uma experiência simples. É uma condição marcada por ambivalências. Há dores que nascem da desigualdade, da violência e das estruturas que historicamente tentaram restringir nossa presença no mundo público. Mas há também alegrias profundas: a capacidade de criar redes, produzir conhecimento, transformar espaços, reinventar a própria vida quando tudo parece desmoronar.
Ser mulher é, ao mesmo tempo, carregar o peso de séculos de exclusão e a potência de quem constantemente reorganiza o mundo ao seu redor.
A filósofa Simone de Beauvoir escreveu que ninguém nasce mulher, torna-se mulher. A frase, muitas vezes repetida, continua radical porque revela algo essencial: a condição feminina é produzida socialmente. Ela é moldada por expectativas, normas e relações de poder. O que chamamos de “ser mulher” é resultado de uma história longa de disputas políticas, culturais e simbólicas.
Essa história, no entanto, também é marcada por violência. No Brasil e em muitos outros lugares, mulheres continuam sendo assassinadas justamente por serem mulheres. Cada feminicídio não é apenas uma tragédia individual; é um sintoma de uma ordem social que ainda considera os corpos femininos disponíveis para controle, punição ou eliminação.
Quando uma mulher é morta, não se interrompe apenas uma vida. Interrompe-se uma rede de relações, afetos e possibilidades. Destrói-se uma memória em construção, um projeto de futuro, uma presença que organizava o cotidiano de outras pessoas.
Mas há algo ainda mais profundo nessa perda.
A pensadora Vandana Shiva argumenta que as formas de dominação que exploram a natureza são historicamente conectadas às formas de dominação que exploram as mulheres. Ambas derivam de uma lógica que transforma vida em recurso, existência em objeto. Quando essa lógica se radicaliza, ela destrói simultaneamente corpos femininos e ecossistemas.
Não é coincidência que muitas das lutas contemporâneas pela preservação da vida ambiental, social ou comunitária sejam protagonizadas por mulheres. Em diferentes partes do mundo, são elas que organizam redes de cuidado, resistência e sobrevivência.
Matar mulheres, portanto, não é apenas eliminar indivíduos. É fragilizar as estruturas invisíveis que sustentam a vida cotidiana. É produzir desertos sociais onde antes existiam vínculos.
Por isso o 8 de março não pode ser reduzido a uma data comemorativa. Ele é um momento de memória, de denúncia e de imaginação política. Um convite para perguntar que tipo de mundo estamos construindo quando metade da humanidade ainda precisa lutar para existir com dignidade.
Ser mulher é atravessar dores reais. Mas também é carregar uma capacidade extraordinária de reconstrução. A cada geração, mulheres transformam perdas em linguagem, silêncio em pensamento, exclusão em movimento político.
Talvez seja justamente essa capacidade que assuste estruturas de poder: a capacidade de continuar criando vida social, cultural, intelectual mesmo quando tentam nos apagar.
Se há algo que o 8 de março deveria nos lembrar, é que a existência das mulheres nunca foi apenas uma questão privada. Ela é uma questão civilizatória.
Porque quando matam uma mulher, não matam apenas um corpo.
Diminui-se o mundo.
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Emanuelle Nascimento, colaboradora do Café Literário, além de escrever textos para outras editorias de Notibras