Farda incolor
Sucessão pega fogo com política invadindo os quartéis da PM baiana
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Na Bahia, o calendário eleitoral ainda nem vestiu oficialmente o uniforme de combate, mas os corredores do poder já exalam cheiro de pólvora política. Não se trata daquela pólvora literal, que a criminalidade espalha diariamente pelas ruas e vielas do estado, impondo ao cidadão a rotina amarga do medo. O que existe em solo baiano é outro tipo de combustão, que envolve suspeita, vigilância silenciosa e o desconforto institucional que surge quando a política resolve espiar por dentro dos quartéis.
Bastou um gesto espontâneo, um cumprimento efusivo em ambiente festivo, um vídeo curto capturado em meio ao ruído carnavalesco, e pronto: em poucas horas, grupos de mensagens de policiais, gabinetes discretos e rodas de conversa da oposição passaram a mastigar a mesma pergunta. Afinal, até onde um oficial pode ir quando a simpatia política escapa da moldura privada?
A exoneração de um oficial superior de função estratégica, oficialmente tratada como ato administrativo, ganhou imediatamente a musculatura dos fatos que ninguém consegue manter apenas no Diário Oficial. Porque, na Bahia como no resto do Brasil, papel aceita carimbo; mas bastidor aceita interpretação, e isso, em ano pré-eleitoral, costuma correr mais rápido que viatura em corredor livre.
Na superfície, tudo parece obedecer ao ritual burocrático, onde cargos mudam, funções se reorganizam, governos remanejam quadros como quem move peças sem explicação pública detalhada. Mas, por baixo da mesa, onde repousam os cotovelos da política real, a leitura é menos inocente. Há quem enxergue ali o velho recado cifrado, de que a farda tem regulamento, mas também tem fronteira invisível, onde a opinião precisa andar em passo medido.
A questão é que a Bahia de 2026 transformou a segurança pública em arena principal da disputa eleitoral. Não por acaso, porque quando o medo cresce nas cidades, cresce junto a tentação de converter o uniforme em argumento político. Cada operação policial vira discurso; cada indicador de violência vira munição retórica; cada gesto de um militar passa a ser lido como sinal de alinhamento ou resistência.
E então surge o paradoxo. É quando se exige neutralidade absoluta de homens treinados para obedecer à hierarquia, mas ao mesmo tempo se observa cada palavra deles como se carregassem, no bolso da farda, a senha secreta do humor eleitoral das ruas.
Nos grupos internos da corporação, o episódio virou espécie de novela de capítulos curtos e versões longas. Uns juram que tudo não passou de coincidência administrativa. Outros garantem que coincidência, em véspera de disputa majoritária, costuma ser apenas o nome elegante que se dá ao desconforto político. Há ainda os mais antigos, veteranos de plantão, que repetem em tom quase filosófico: quando a política entra pelo portão principal, a disciplina costuma recolher-se ao fundo do pátio para não ser confundida.
O problema maior é que a corporação virou espelho involuntário de uma disputa que não nasceu nela, mas nela se reflete. Porque segurança pública pesa em voto, e voto pesa em poder. E onde há poder em jogo, até silêncio passa a ser interpretado.
Na prática, o que está em curso na Bahia é um ensaio delicado de algo maior, quando se vê a tentativa de manter separadas duas forças que historicamente vivem em tensão permanente; de um lado a autoridade institucional e, de outro, a conveniência eleitoral.
A farda, por definição, não deveria escolher palanque. Mas o palanque, quase sempre, faz esforço para enxergar na farda um aliado silencioso. A pré-campanha na Bahia tem tudo para seguir um rumo próprio. É na terra de todos os santos onde, antes de o eleitor ouvir o primeiro jingle oficial, os quartéis já escutam, ao longe, o barulho das urnas.
