Elas no poder
Buriti ficará com Celina ou Paula; Bia e Michelle levam vagas do Senado
Publicado
em
Não há clima nem espaço para os homens na corrida ao governo do Distrito Federal nas eleições de outubro próximo. O mofo de velhos panetones vai provocar uma reação alérgica de efeito retardado em José Roberto Arruda (PSD); desfigurado perante o eleitor, fará um breve papel de metamorfose ambulante, pulando do barco antes mesmo de a campanha começar. Já Leandro Grass, também conhecido como paraquedista do PT, será vítima dos próprios erros e do alto índice de rejeição de Lula em Brasília, repetindo, assim, o fracasso no pleito de 2022, quando caiu, verde que era, em meio à tempestade provocada por inconformados petistas-raíz.
Quanto a Ricardo Cappelli (PSB), responsável pelo caos na segurança pública – herança da época em que foi interventor nomeado por Lula -, e que carrega, ainda, a chama da corrupção do governo Rodrigo Rollemberg, é bucha de canhão para a legenda eleger um deputado distrital e talvez reconduzir o próprio Rollemberg à Câmara, mesmo que em nova suplência. Por fim, Kiko Caputo, antecessor de Ibaneis Rocha na seccional Brasília da Ordem dos Advogados do Brasil, e autodeclarado sucessor no Palácio do Buriti. Não passa de fogo de palha, com a fumaça soprando em direção a partido nanico que lhe dê visibilidade na telinha, para, no ano seguinte, tentar voltar à própria OAB.
Dito isso, vamos a elas, as mulheres, minhas amigas de gênero. Nessas horas, exploro minha intuição.
Na madrugada de temperatura baixa em Brasília deste domingo, 8, data que comemoramos o Dia da Mulher, ouso dizer que o ambiente político no entorno do Palácio do Buriti já começa a ganhar calor de pré-campanha. Entre os nomes que hoje aparecem com mais nitidez no horizonte de outubro, duas candidaturas ocupam o centro da cena. São Celina Leão (PP) e Paula Belmonte (PSDB). Em campos distintos, ambas procuram construir uma narrativa de maturidade política, sinalizando desde já que a disputa pode ser firme nas ideias, mas sem resvalar para ataques pessoais — uma escolha que, em tempos de radicalização, tende a ser observada com atenção pelo eleitorado da capital da República.
Celina Leão chega ao tabuleiro com a força institucional de quem ocupa a vice-governadoria e carrega o respaldo direto de Ibaneis Rocha (MDB), além da afinidade com o campo conservador ligado ao grupo político de Jair Bolsonaro. Sua eventual candidatura tende a defender a continuidade administrativa, apostando no discurso de estabilidade, obras e manutenção de alianças já consolidadas no poder local. A estratégia, nesse cenário, é apresentar-se como herdeira natural de um ciclo político que pretende sobreviver à troca de comando.
Do outro lado, Paula Belmonte tenta se afirmar como alternativa de renovação com base em um perfil de independência e diálogo, tendo ao seu lado o capital político de Antônio Reguffe, cuja imagem ainda preserva forte apelo junto a parcelas do eleitorado que valorizam sobriedade e distanciamento dos arranjos tradicionais. Se a promessa de ambas se confirmar, Brasília poderá assistir a uma disputa rara, com duas candidaturas competitivas, femininas, com divergências claras de projeto, mas sem a retórica agressiva que tantas vezes empobrece o debate público.
Abro agora parêntesis para voltar a falar sobre ‘eles’. É preciso lembrar que muitos homens devem a grandeza da vida aos obstáculos femininos que tiveram de vencer. Os meus foram muitos. Tantos que Deus me deu a graça de cuidar de quatro, pelas quais sempre fiquei de quatro. Mas enfatizo que marco global de reflexão sobre os direitos das mulheres, celebrando conquistas e reforçando a luta por igualdade de gênero, o 8 de março não é somente mais um Dia Internacional da Mulher. A data deve marcar a mudança masculina em relação à força do poder feminino em todos os setores da vida, inclusive e sobretudo no cenário da política partidária.
Boa ou ruim, já tivemos uma presidente da República. Certamente teremos outras e outras e outras. Ainda bem abaixo da média mundial e do desejado, a representação das mulheres no atual Congresso Nacional é a maior da história do país, correspondendo a cerca de 18% do total de 584 cadeiras. São 17,7% das vagas na Câmara dos Deputados e 19,8% no Senado. É um dever do homem aceitar, estimular e aplaudir a mulher empoderada, a mulher política, a mulher empresária, a mulher comandando a nação e as mulheres lavadeiras, empregadas domésticas, motoristas de ônibus e, principalmente, mães.
Ser mulher é sinônimo de coragem, de amor e de resiliência. O ideal é que não sejamos vistas por ninguém, principalmente pelas iguais, somente por nossos sentimentos ideológicos e por nossas cores partidárias. Somos partes de um mesmo espectro político e, independentemente do que é dito pelas lideranças na briga pelo poder, que as divergências entre homens e mulheres sejam exclusivamente da boca para fora. Internamente todos têm a obrigação de nos aceitar exatamente como somos.
Conforme a pregação da sempre primeira-ministra da Grã Bretanha, Margaret Thatcher, o sistema democrático não foi feito para garantir que os melhores sejam eleitos, mas para impedir que os ruins fiquem para sempre. Partindo desse pressuposto, no caso do Distrito Federal, além da manutenção de Erika Kokay (PT) na Câmara, não será nenhuma aberração o povo escolher Celina Leão ou Paula Belmonte para o Buriti, e Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, ambas do PL, senadoras. Leila do Vôlei (PDT), descerá para a Câmara. Alguns deverão torcer o nariz pela derrota dos seus, mas é assim que funciona a política, campo em que, pela lógica, para um ganhar o outro tem de perder. Se elas não forem capazes no exercício do mandato, que sejam trocadas em eleições futuras.
É assim que caminha a vida democrática. Caso se elejam ou se reelejam, elas merecerão todo o respeito dos diferentes, notadamente de seus adversários. O mais relevante é que, vencedoras, Bia e Michelle se juntarão à senadora Damares Alves (Republicanos) e, desse modo, estará cumprida a profecia de que o GDF e a representação local do Senado um dia seriam das mulheres. Entre outros, sobrarão o governador Ibaneis Rocha e o senador Izalci Lucas. Sucessora natural de Ibaneis, Celina Leão já deu mostras de que fará mais como eventual governadora do que imaginam seus detratores. O mesmo vale para Paula Belmonte. Quanto a Michelle Bolsonaro, a ex-primeira dama nascida na periferia da cidade, ela é vista por parte de seus aliados como uma herdeira do capital político de Jair Bolsonaro.
Pré-candidata ao Senado, Bia Kicis é deputada federal e, guardadas suas vibrações extremistas à direita, dispensa comentários a respeito de suas responsabilidades políticas. Portanto, que venham as eleições e que vençam os melhores. Ou, mais precisamente, as melhores. Porque, sem condições, a esquerda não tem como apresentar candidatos ou candidatas viáveis e com pesos idênticos. É assim que consolidamos a democracia. De direita ou de esquerda, o que posso dizer sobre as mulheres na política já foi dito por Margaret Thatcher: “Se você quer que alguma coisa seja dita, peça para um homem. Se você quiser que alguma coisa seja feita, peça para uma mulher”. Que elas brilhem e que jamais esqueçam que seus governados e representados pensam, agem e sonham diferente. Eis o mistério do respeito.
………..
Sonja Tavares é Editora de Política de Notibras
