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Fé cega

Lula pode até ser ruim, mas mito no Brasil é mero sinônimo de blá blá blá

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Autor/Imagem:
Sonja Tavares - Foto de Arquivo

Frequentemente atribuída ao escritor e cronista Luís Fernando Veríssimo, a frase “Resignemo-nos à ignorância, que é a forma mais cômoda de sabedoria” é usada para refletir, muitas vezes com ironia, sobre como evitar que o conhecimento profundo seja mais confortável ou sábio do ponto de vista da tranquilidade social. Será que o fato de saber me coloca em vantagem em relação àqueles que acham que sabem alguma coisa? Como só sei que nada sei, tenho certeza de que não. O que sei é que, onde a ignorância grita arrogantemente, o silêncio, com elegância, ensina.

Aprendi com os velhos de minha adolescência que, na política brasileira, a ignorância tem certeza de tudo. Segundo meus mestres informais, o que duvida é a sabedoria. Por isso, não perco mais meu tempo discutindo com alguém realmente afeito à estultice. O silêncio tem sido minha principal resposta a quase tudo que faz bem ao ego dos que acreditam ser mais inteligentes do que todos que os rodeiam. Embora sempre me aborreça, por meio de minha quietude fico em paz com minha consciência e não aborreço ninguém. Às vezes, a mudez traz respostas que nem todas as palavras conseguem explicar. É o meu exercício diário de paciência.

O modismo de nossos dias é a confortabilidade da ignorância política. Ela não exige leitura, cultura, crítica, tampouco coragem. A única exigência é a fé cega. Para os que têm um mínimo de consciência, o que sobra é a vergonha futura. Considerando que, mais do que os velhos, os novos homens públicos precisam da ignorância do povo que representa para o que status se mantenha, não há dúvida de que a idolatria por determinados políticos é proporcional à ignorância sobre a política. Sejamos de direita, de esquerda, de centro ou de coisa alguma, a informação correta é a única arma eficaz contra a ignorância.

Não sou vinculada a partidos políticos, muito menos a seitas ideológicas. No entanto, defendo e apoio naturalmente a democracia e todos aqueles que lutam pela manutenção do sistema como a forma capaz de impedir que cheguemos no inferno. Portanto, prefiro o que “rouba, mas faz” àquele que prega honestidade, jura probidade, promete honradez, sustenta correção e blasfema retidão, mas se apodera do dinheiro alheio para se sustentar fora do poder. Pior são os que acreditam neles. São os fanáticos. Seja qual for o fanatismo, ele leva o cidadão e a cidadã à cegueira, à falta de bom senso, à insensatez e, principalmente, à irracionalidade.

Não tenho vocação partidária, mas tenho lado. Hoje, aposto minhas fichas em qualquer um que mostre contrariedade às propostas da extrema-direita. Não sou Lula, mas estou Lula porque não há hipótese de imaginar o regresso daquele bolsonarismo tacanho ao comando administrativo, econômico e político do Brasil. O retumbante fracasso da gestão é a garantia de que estou do lado certo. Respeito os contrários e normalmente me silencio diante das provocações. Só não me calo quando me indagam a respeito das ressalvas diárias a Jair Bolsonaro. Como elogiar alguém que, como político, sempre foi no sentido oposto à democracia.

Não me escondo, mas raramente obtenho resposta quando peço uma (somente uma) razão para que parte dos brasileiros considere Bolsonaro mito. Dizer que Lula é ladrão está fora de moda. Enfim, para que um seja perfeito, lindo, salvador da pátria e acima de qualquer suspeita, o outro deve ser imperfeito, feio, enterrador da pátria e suspeito acima de tudo. O que vemos é exatamente o contrário. Lula é ruim, mas está na terceira encarnação como presidente e bem próximo da quarta. Bolsonaro mal conseguiu concluir uma. Que alguém me dê um (apenas um) indicativo de que Bolsonaro é melhor do Lula. Perdão pela insistência, mas desnecessário, pois até o professor de tirania Donald Trump já percebeu quem verdadeiramente entende o mapa do riscado político e quem definitivamente já foi riscado do mapa político.

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Sonja Tavares é Editora Política de Notibras

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