Contágio
As palavras do policial soaram gentis, mas inflexíveis
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Foi em 2021, no auge da pandemia.
– Senhora, infelizmente o teste pra Covid 19 deu positivo. A senhora não poderá prosseguir viagem.
As palavras do policial soaram gentis, mas inflexíveis, de acordo com o protocolo. Foram ditas por baixo da máscara e a mais de 2 metros de distância da janela aberta do carro da mulher. Lembrou do resultado do teste e teve um arrepio. “Ela está altamente contagiosa, se eu chegar mais perto vou me ferrar”, pensou, enquanto aguardava a reação dela. Esperava uma crise de choro, algo assim, mas a mulher o surpreendeu.
– Infectada, é? – perguntou Ludmila, com um sorriso perigoso. – Ótimo! – e acelerou com tudo, rompendo a barreira sanitária policial na entrada de São Sebastião.
– Detenham aquela louca! – berrou o chefe do destacamento. – Mas não se aproximem, ela está cheia de coronavírus, infecta só de olhar!
Uma viatura com dois policiais saiu em perseguição. A mulher dirigia devagar, como se estivesse apreciando a paisagem. Ou esperando a aproximação do veículo. Este a alcançou e um dos policiais ordenou, com um megafone, que estacionasse.
– Claro que sim – respondeu a fugitiva, também por megafone. – E explicou aos surpresos policiais. – Estava esperando a chegada de vocês, por isso dirigia tão devagar – Estacionou o carro, largou o megafone, abriu a porta e saiu. Duas máscaras, uma sobre a outra, cobriam sua boca e narinas. Estava de luvas e segurava uma sacola e uma garrafa de álcool gel.
– Agora precisamos conversar – disse, a uma distância de 3 metros da dupla. – Na verdade não fugi, quis atrair um ou dois de vocês, não podia fazer minha proposta diante de todo o destacamento, não tinha como, ia sair caro demais – deu um risinho. Em seguida abriu a sacola, tirou dois pacotes, borrifou-os com o álcool e atirou-os aos pés dos dois.
– Em cada pacote há 2500 reais em notas de 200 e 100. Cada cédula recebeu uma aplicação de álcool gel, mas podem repetir a coisa, proteção nunca é demais. E grampeadas nos pacotes estão cópias de todos os meus documentos, entre eles os do automóvel. Pra mostrar que não pretendo sumir…
– O que a senhora quer de nós, dona? – perguntou um dos policiais, impaciente.
-Só que me deixem chegar à praia da Baleia, em São Sebastião. Vou ficar duas horas numa casa que aluguei, depois volto pra São Paulo. Tomarei cuidado, sei do estrago que uma pessoa infectada pode causar – riu por dentro, sabia mesmo. – Vocês só precisam furar um pneu, trocá-lo e, na volta, dizer que tiveram de colocar o estepe e por isso não me alcançaram. Ou apenas falam que furaram um pneu, duvido que o chefe de vocês vá conferir. Não é pedir muito por 5 mil reais… – deu um sorriso cúmplice e calou-se.
– Boa viagem, dona! – disse um policial, sorrindo.
Ao entrar na casa, Ludmila verificou que faltavam 40 minutos para a chegada do ex-marido e de sua atual mulher, 25 anos mais nova do que ele. “O traidor sempre foi pontual”, pensou. “Pelo menos isso”. Abriu um excelente Bordeaux, despejou cuidadosamente o líquido num decantador de cristal e, com uma careta, cuspiu dentro dele. “Ele sempre gostou de um bom vinho francês, vai gostar desse, mesmo batizado”, pensou. Colocou-o na mesa, junto a três taças, e foi retocar a maquiagem e mudar de roupa. Queria estar bem bonita quando a vadia chegasse.
Os dois mostraram-se meio sem graça quando entraram na casa. Mas Ludmila os abraçou, beijou-os, foi uma perfeita anfitriã, parecia confirmar a proposta que havia levado o ex-marido até ali: “Você está em São Sebastião, Heitor, também vou estar lá. Numa casa verde no início da praia da Baleia, mando o número por whatsapp. Espero você e sua mulher amanhã para jantar. Afinal, somos civilizados, podemos ser, se não os melhores amigos, pelo menos cordiais um com o outro”.
Ludmila serviu o vinho e notou, satisfeita, que eles esvaziaram a taça. Encheu novamente as três e partiu para o ataque final.
– Ruth, você é tão bonita… E tão gostosa… Não admira que Heitor esteja apaixonado! – aproximou-se da mulher mais jovem, deu-lhe um selinho e depois um tórrido beijo de língua. Ruth levou um susto, hesitou mas terminou correspondendo, sempre gostara de beijar mulheres e se perder em seus braços.
Ludmila afastou-a suavemente e se aproximou de Heitor com um sorriso insinuante, colando seu corpo no dele.
– E você, Heitor, precisa estar em plena forma para dar conta dessa potranca. Mas tenho certeza de que consegue, sempre foi uma fera na cama! – e acariciou lá embaixo o ex, que a beijou com sofreguidão.
Uns 2 minutos depois, quando pararam de se beijar, a anfitriã viu o casal trocar um discreto sinal de assentimento.
“Eles estão prontos para uma festinha a três”, pensou. “O filho da mãe sempre adorou um ménage, fez alguns comigo e deve fazer o tempo todo com a biscatinha”.
Hora do banho de água fria.
– Sabem, pensei em transarmos os três, podia ser gostoso – os dois fizeram apressadamente que sim, em silêncio. – Mas… não. Você, Heitor, vai passar no vestibular pra corno, com essa vaca. E você, Ruth, é uma vagaba, pode me passar uma doença venérea!
Abriu um sorriso radiante, pegou a bolsa e foi para a porta.
– Então, queridos, tomem todo o vinho e trepem à vontade. A casa está alugada até amanhã ao meio-dia. Tchauzinho.
Saiu para a rua, entrou no carro e seguiu para São Paulo. Os dois muito provavelmente haviam recebido uma carga brutal de coronavírus. O resto estava nas mãos dos deuses, senhores da vida e a morte.