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Aprendizado fascinante

Abrindo as páginas do Livro Tibetano dos Mortos

Publicado

Autor/Imagem:
Marco Mammoli - Texto e Imagem

Poucos textos religiosos despertam tanto fascínio no Ocidente quanto O Livro Tibetano dos Mortos, conhecido em sua língua original como Bardo Thödol. Considerado um dos escritos mais importantes do budismo tibetano, o livro não é um relato sobre a morte em si, mas um manual espiritual destinado a orientar a consciência no momento de morrer e no período que se segue ao falecimento.

De acordo com a tradição tibetana, entre a morte física e um possível renascimento existe um estado intermediário chamado bardo, que dura até 49 dias. É nesse intervalo que a consciência, livre do corpo, atravessa experiências intensas e decisivas. O Bardo Thödol surge justamente como um mapa para essa travessia, com o objetivo maior de conduzir à iluminação e libertar o ser do ciclo de renascimentos, conhecido como samsara.

Diferentemente de religiões teístas, o budismo tibetano não se centra na adoração de um deus criador. Sua ênfase está no desenvolvimento espiritual individual e no treinamento da mente. A tradição integra ensinamentos do budismo Mahāyāna com práticas tântricas do Vajrayāna, combinando meditação, rituais e visualizações de divindades, entendidas não como seres externos, mas como expressões simbólicas da própria mente. O objetivo final dessa prática é alcançar a budeidade ou o estado de iluminação plena. Nesse nível de realização, a mente se liberta de ignorância, sofrimento e dualidade, reconhecendo diretamente a verdadeira natureza da realidade. Segundo o budismo tibetano, todos os seres possuem potencial inato para alcançar esse estado, chamado também de “grande libertação”.

O nome Bardo Thödol pode ser traduzido como “Libertação pela Audição no Estado Intermediário”. A obra foi concebida para ser lida em voz alta por um lama ou monge ao moribundo e, depois da morte, por até 49 dias. A crença é que, mesmo após o corpo cessar suas funções, a consciência permanece capaz de ouvir e compreender as instruções. Essas orientações ajudam o falecido a reconhecer visões, memórias e aparições pós morte como projeções da própria mente, evitando o medo e o apego que poderiam levá lo a um novo renascimento involuntário. O foco central é o reconhecimento da chamada “Clara Luz”, considerada a essência luminosa e primordial da mente. O texto descreve o processo pós morte em três fases simbólicas, cada uma representando níveis de dissolução da mente e confronto com a realidade:

• Chikhai Bardo: corresponde ao momento da morte, quando os elementos físicos se dissolvem e a Clara Luz primordial se manifesta. Segundo a tradição, este é o instante de maior possibilidade de alcançar o nirvana.

• Chönyid Bardo: conhecido como o “Vislumbre da Realidade”, é marcado por visões de divindades pacíficas e coléricas, estados oníricos e ilusões kármicas. O desafio é manter a lucidez e não sucumbir ao medo.

• Sidpa Bardo: é a fase em que surge o impulso para renascer. A consciência revê suas ações passadas e pode experimentar julgamentos simbólicos, como a figura de Yama, o senhor da morte.

Um lama pode orientar o falecido a “fechar a porta do ventre”, evitando um renascimento compulsório.

Caso a consciência não reconheça a verdadeira natureza da mente, acaba sendo conduzida a um novo nascimento, determinado pelo karma acumulado. Além de descrever o pós morte, o Livro Tibetano dos Mortos apresenta uma visão ampla da vida. Para o budismo tibetano, a existência é cíclica, movida pelo karma, o conjunto de ações, palavras e pensamentos. O sofrimento é visto como inerente à condição humana, pois tudo é impermanente: prazer, saúde, juventude e até a própria vida.

Romper o samsara significa superar a ignorância sobre a natureza da realidade, reconhecendo o vazio, a impermanência e a ausência de um “eu” fixo. A iluminação, nesse contexto, não é um prêmio pós morte, mas um despertar profundo da mente. Frequentemente comparado ao Livro dos Mortos Egípcio, o Bardo Thödol compartilha com ele a função de guia para a jornada após a morte.

Ambos são textos sagrados, utilizados em rituais funerários e dependentes da recitação por especialistas. Também descrevem provas, julgamentos e encontros simbólicos no além. As diferenças, porém, revelam visões de mundo opostas. O texto egípcio buscava garantir ao morto uma vida eterna no além, nos Campos de Iaru, preservando a identidade pessoal (o ba e o ka). Já o livro tibetano propõe justamente o contrário: transcender a individualidade e romper o ciclo de renascimentos.

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Marco Mammoli, Mestre Conselheiro e membro do conselho do Colégio de Magos e Sacerdotisas.

Interessados podem entrar em contato direto com o Colégio dos Magos e Sacerdotisas através da Bio, Direct e o Whatsapp: 81 997302139.

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