Verdade verdadeira
No Brasil plural, o melhor de tudo são os brasileiros
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Água de morro abaixo, fogo de morro acima e o Brasil plural continua cada vez mais singular quando a referência é o povo, a maior riqueza do país. Aliás, é bom lembrar que povo algum existe por causa do rei. No entanto, a existência de um rei depende exclusivamente do povo. Impossível uma verdade mais verdadeira. É por isso que o tempo passa, o tempo voa, os líderes vão e vêm, mas o povo permanece. Lembrando o revolucionário Joseph Stalin, ex-primeiro-ministro da União Soviética, apenas o povo é imortal.
Com base nessa clássica sentença, faço minhas as sábias palavras de Nelson Rodrigues, para quem se Euclides das Cunha fosse vivo teria preferido o Flamengo e Canudos para contar a história do povo brasileiro. Eu incluiria o Corinthians e, talvez, uma associação entre o Vasco da Gama, Palmeiras, Cruzeiro, Grêmio, Bahia, Beija-Flor, Portela e Mangueira. Quem sabe juntando essa multidão pudéssemos evitar que os sucessivos governos sistematicamente transferissem para o povo toda sua fúria, incompetência e sofrimento.
Infelizmente, ainda está longe o dia em que, mesmo com traços, personalidades, características e comportamentos diferentes, o povo brasileiro internalizará a ideia de que, unido, é mais forte do que qualquer governo. Mesmo me autodeclarando um bom observador, nem sempre consigo visualizar nuances a respeito dos viventes desse ou daquele estado. Entretanto, o que anotei ao longo da vida já é suficiente para, caso queira, escrever um livro com pelo menos meia dúzia de páginas engraçadas sobre os nacionais.
Em meu Estado de origem, o Rio de Janeiro, convivi – e convivo – com artistas, anarquistas e punguistas. Estado politicamente recém-descoberto pelo restante do país, Santa Catarina virou o esconderijo preferido de bolsonaristas e golpistas. Governado por um militante satanista, Minas Gerais é a terra de Tiradentes, de Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves e de Itamar Franco, o presidente brasileiro que refugou, mas nunca esqueceu a perna cabeluda do carnaval carioca.
Coração e locomotiva do país, São Paulo só descarrila em épocas de chuvas e desengrena por falta de títulos continentais de futebol. Mudando de assunto e continuando no mesmo, agentes secretos, masoquistas, sexualistas, proctologistas, urologistas, economistas e vigaristas estão por toda a parte. A turma de maioria malvista se encontra no máximo dois dias e meio em Brasília, onde está instalada a maior colmeia da nação. Nela, boa parte dos 513 deputados e 81 senadores ou está fazendo cera ou está voando por aí. Saindo do chimarrão gaúcho e das moquecas baiana e capixaba, chego ao Paraná, onde se plantando tudo dá.
Falando deste Brasil sem fim, não há como esquecer os gastronômicos nortistas, os simpáticos goianos e mato-grossenses do Sul e do Norte, tampouco os hospitaleiros nordestinos. Fico imaginando Alagoas como celeiro de marechais, curtindo o reggae do Maranhão, comendo o bode do Piauí, sentindo a brisa pernambucana e espantando as Piranhas de Sergipe. Tudo é muito interessante, mas nada se assemelha ao Ceará, cujo gentílico se identifica com o judeu, pois é encontrado em qualquer lugar do mundo. O empresário François du Crabe (Chico do Caranguejo) é o diferencial para o Estado, no qual ou se é turista, motorista ou humorista. Realmente o melhor das viagens são as histórias engraçadas que sobram para contar. E o melhor do Brasil. Obviamente que são os brasileiros.
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Wenceslau Araújo é Editor-Chefe de Notibras