Curta nossa página


Coração da Capital

A história e o legado arquitetônico da Superquadra 105 Sul

Publicado

Autor/Imagem:
Salete Sampaio - Foto Divulgação

Erguida nos primeiros sopros de vida de Brasília, a Superquadra 105 Sul permanece como um dos marcos mais autênticos do projeto urbanístico de Lúcio Costa. Construída integralmente pelo antigo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IAPI), a quadra é um testemunho vivo do esforço hercúleo que transformou o cerrado em capital federal. Seus blocos, projetados pelo renomado arquiteto Hélio Uchôa, guardam as memórias dos primeiros habitantes que chegaram ao Planalto Central.

O que mais chama a atenção de especialistas e visitantes é a disposição singular de seus edifícios. A 105 Sul detém o título de única quadra em Brasília onde todos os prédios estão posicionados de forma perpendicular ao Eixo e rigorosamente paralelos entre si. Essa configuração não foi um capricho estético, mas uma solução técnica inteligente de adaptação ao terreno, garantindo uma harmonia visual que define a identidade do local desde a sua conclusão, em 1960.

A arquitetura da quadra também se destaca pelo refinamento nos detalhes e nos materiais escolhidos. As fachadas principais são caracterizadas por esquadrias e venezianas de madeira do tipo guilhotina, conferindo um charme clássico aos blocos. Já na parte posterior, o uso de cobogós de cerâmica vermelha remete diretamente às influências de Lúcio Costa no Parque Guinle, no Rio de Janeiro, criando uma conexão estética entre a nova e a antiga capital.

Internamente, os apartamentos foram pensados para oferecer conforto às famílias dos pioneiros, com metragens generosas que variam entre 131 e 165 metros quadrados. Enquanto a maioria das unidades possui três dormitórios, os blocos A, K e I abrigam as plantas maiores, de quatro quartos. Foi justamente em um desses edifícios que nasceu o primeiro apartamento-modelo decorado da cidade, servindo de vitrine para o estilo de vida moderno que Brasília prometia ao mundo.

Além da relevância arquitetônica, a 105 Sul foi palco de momentos cruciais para a vida social do Distrito Federal. Em 1961, a quadra sediou a primeira Festa dos Estados, originalmente concebida como um evento junino para arrecadar fundos para a Casa do Candango. Organizada por damas da sociedade brasiliense, a celebração cresceu e se tornou uma das tradições mais queridas da cidade, reforçando o papel da quadra como um centro de convivência comunitária.

Enquanto a Asa Sul consolidava sua ocupação de forma acelerada, o desenvolvimento residencial atravessava o Eixo Monumental em direção ao Norte. Somente em 1966, a Asa Norte veria sua primeira superquadra totalmente concluída, a SQN 312. Com 864 apartamentos destinados inicialmente a funcionários públicos vindos do Rio de Janeiro e do Ceará, a 312 marcou o início de uma nova fase na habitação consolidada daquela região.

Outras áreas pioneiras, como a SQN 408 Norte, projetada por Milton Ramos, e as chamadas “unidades de vizinhança” do Conjunto São Jorge, também começaram a dar forma à Asa Norte no início da década de 60. No entanto, foi a entrega completa da infraestrutura dessas primeiras quadras que permitiu a ocupação real e efetiva do setor norte, que até então seguia um ritmo diferente do desenvolvimento visto no setor sul.

Hoje, ao caminhar pelos pilotis da 105 Sul ou observar a arborização consolidada das pioneiras da Asa Norte, percebe-se que essas quadras são muito mais do que endereços residenciais. Elas representam a materialização de um sonho urbanístico e social. Preservar suas características originais, desde os cobogós até a disposição dos blocos, é manter preservada a própria certidão de nascimento de Brasília e a história de quem a construiu.

Publicidade
Publicidade

Copyright ® 1999-2026 Notibras. Nosso conteúdo jornalístico é complementado pelos serviços da Agência Brasil, Agência Brasília, Agência Distrital, Agência UnB, assessorias de imprensa e colaboradores independentes.