LINGUAGEM RASA
A MANIA DO “PEEEERFEITO” E A PREGUIÇA DE EXPLICAR
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Que vontade de sair gritando a cada meio metro que ando na rua. Coisa irritante o mundo se tornou nos últimos tempos… Mas, assim, uma coisa específica tem me tirado a paz cada vez que escuto: a palavra “peeeeerfeito”
“Esse short ficou peeeeerfeito”; “esse hotel é peeeeerfeito”; “essa garrafinha da Shopee de 29,90 é peeeeerfeita”; “esse filme é peeeeerfeito”; “esse café da loja tal é peeeeerfeito”; “olha o banco de couro desse carro, peeeeerfeito”.
Oh minha gente, em que momentos a gente começou a usar perfeito pra tudo e esqueceu o resto das palavras que aprendemos no pré-primário? Pelo amor de Deus, me lembra do Sr. Ladir de Tomá-la Dá-cá que toda e qualquer opinião que ele tinha de dar, tudo era “mara”.
Gente, o que tá acontecendo?
Não estou dizendo que precisamos, de agora em diante, sermos todos palestrinhas, até porque isso já tem muito já por ai, assim como a palavra ” peeeeerfeito “. Mas acho que deveria ser minimamente aceitável deixarmos de ser rasos.
O filme é bom não somente porque os atores são os queridos do momento, mas sim porque o roteiro tem coerência, surpreende pela fotografia, respeita a regra dos terços, abre diálogos e espaços para que possamos falar sobre aquele tema de forma leve e necessária.
A calça é ótima porque o caimento dela faz com que nossas pernas fiquem mais alongadas e assim ela se torna uma boa opção para pessoas que são mais baixas e querem se sentir mais altas.
O hotel apresenta acomodações mais do que limpas, camas extremamente confortáveis e com um atendimento que vai além do habitual, com pessoas atentas às necessidades de cada hóspede…
Estamos nos acostumando com formadores de opiniões engajados em velocidade em apresentar coisas, e talvez nos esquecendo do mais básico: fundamentos e opiniões que fazem sentido.
Cadê a justificativa?
Eu me recordo que, no ensino fundamental, havia uma professora que sempre falava pra gente “porque sim e porque não não é resposta”. E ela sempre explicava que sim e não são coisas apenas de pessoas que não sabem o porquê estão dizendo aquilo — obviamente o que ela dizia não valia e acho que não continua valendo para os nossos pais, não é mesmo?
No ano passado, enquanto eu trabalhava com eventos numa casa de cultura, tive a mesma discussão umas mil vezes: “música por música não é cultura, é evento”. Sempre que rolava samba, o dono do bar me dizia:
— Estamos levando cultura para as pessoas…
E aí começava uma discussão em torno disso. Minha justificativa era que música apenas como entretenimento, com lata de cerveja na mão, não é cultura. A cultura vem quando a pessoa que tá cantando o samba sabe, no mínimo, de onde ele veio… Vamos, então, criar música, mas também diálogos…
E assim começava um ciclo de discussões que permeou meu ano de 2025 todinho.
Não quero que todo mundo saiba tudo, mas eu sinto falta das pessoas saberem de verdade o que estão falando, de conseguirem sair do básico e da palestrinha e sentar, conversar e falar coisas que tem fundamento, justificativas e não o ” peeeeerfeito “.
Coisa irritante o perfeito.
Sinto-me incomodada ao terminar este texto. Dizia eu que escrevia para fazer as pessoas rirem e, ultimamente, pareço mais uma militante no mundo do que uma pessoa com bom humor.
Mas são momentos, não é mesmo?
……….
Thalita Delgado (@tha_delgado): Jornalista, publicitária e empresária, que também se expressa como crocheteira e escritora. Apaixonada por música, livros e pequenas sensibilidades do cotidiano, lançou em 2024 seu primeiro livro A vida se faz rindo e chorando pela Editora Autoria.